Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

OFJOR CIÊNCIA 99

 

OfJor Ciência 99 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.

 

Plantas transgênicas,
aventura adolescente

Isak Bejzman

 

Minha posição pessoal, como médico que sou, não é a de ser contra a biotecnologia pelo simples fato de ser contra. Jamais poderia ser radical a ponto de rejeitá-la. Minha visão é utilitária: peso os prós e os contras. Bato palmas aos seus benefícios, mas alerto que tenho reservas quanto aos riscos que traz em seu bojo. Prefiro me posicionar perante cada uma de suas aplicações, uma por uma, e questionar os dois lados.

Parto de um pressuposto básico: sou favorável à pesquisa em biotecnologia, principalmente no que diz respeito a medicamentos, vacinas, à busca da cura do câncer, o tratamento para as moléstias que assolam os idosos, para as doenças genéticas, medicamentos novos etc. Todavia, quanto mais leio e estudo o assunto, mais e mais me convenço de que a engenharia genética, no que se refere às plantas transgênicas, deve e precisa ser alvo de um debate amplo pelo povo, a imprensa, os cientistas da área e o governo brasileiros.

A engenharia genética consiste em tecnologias que conseguem manipular e modificar, em laboratório, a marca registrada de um ser vivo - seu DNA -, construindo novos organismos. Por exemplo: é capaz de criar um coelho com olhos de peixe, quando sabemos que coelhos devem se reproduzir entre si ou com famílias aparentadas, e não com peixes.

A engenharia genética, ao alterar os traços naturais de uma planta manipulando seu DNA, criou um novo tipo de planta e, com isso, veio reforçar a agricultura fundada pela primeira "revolução verde", nos anos 60, a chamada "agricultura industrial".

Nessa nova agricultura, as terras não constituem mais uma fazenda, e sim uma imensa fábrica voltada para o mercado. Ela é um sistema industrial no qual por uma ponta entram matérias-primas como herbicidas, pesticidas, fertilizantes, sementes, máquinas, combustíveis, energia, mão-de-obra especializada e até sofisticada e, pela outra, saem cereais, galinhas, gado, coelhos, peixes etc.

Custo social

O que caracteriza uma agricultura industrial é que ela se utiliza de extensas áreas de terra, usa a monocultura e se serve de preferência de pequena variedade de sementes, e usa intensivamente produtos químicos. Sendo uma organização industrial, esse tipo de agricultura deve ser visto também em suas relações de custo/benefício. Entre os benefícios pode-se citar o barateamento dos alimentos, a dispensa de um número acentuado de mão-de-obra, o lucro das indústrias químicas e o surgimento de um grande mercado exportador. Já os custos recaem sobre o meio ambiente, a economia e a sociedade, conforme demonstrarei a seguir.

São custos irreparáveis a remoção das florestas nativas sem estudo prévio; o longo uso de grandes quantidades de água para irrigação, muitas vezes sem que as fontes fornecedoras tenham tempo de se recuperar; as queimadas e a queima de combustíveis; o consumo de grandes quantidades de energia para movimentar máquinas; e a aspersão de substâncias químicas altamente tóxicas, a maioria delas perenes, que se depositam no solo, e acabam sendo arrastadas para rios, riachos, fontes e sistemas subterrâneos de água, indo contaminar e envenenar a cadeia alimentar aquática, prejudicando, principalmente, o plancton, fonte de toda a vida.

Além disso, os produtos químicos disseminados pelos ventos inundam o ar, enchem os campos de fortes odores ruins que criam um ambiente desagradável para as comunidades que vivem nas proximidades e infectam as pastagens de criação de gado, o qual, por sua vez, ingere esses venenos. As cultivares produzidas nesses campos vão fazer parte das rações alimentares para as aves e da produção de alimentos para nós, seres humanos. Enfim, tudo que foi mencionado, mais o assoreamento dos rios, as vossorocas, os desertos que se formam e o risco à saúde dos trabalhadores que lidam com esses produtos químicos constituem um preço que até hoje ninguém, neste país, se preocupou em calcular.

Depois do aqui exposto, é preciso perguntar: será que a agricultura industrial barateia tanto assim os alimentos? Será que o custo social pago pela expulsão do homem do campo, enxotando-o para a cidade, não foi suficientemente alto? Ao mesmo tempo em que o Brasil, com essa expulsão, viu nascer uma população de miseráveis, viu também surgir uma classe de plantadores dependentes das grandes corporações fabricantes dos insumos de que necessitam para ser industrialistas do campo.

Infelizmente, o custo social não pára por aí. Cito como exemplo as pequenas cidades do interior do Rio Grande do Sul, que possuíam um pequeno e rico comércio em torno do qual circulavam os homens simples da campanha com sua cultura alimentar, religiosa, social e tradicionalista. Isto acabou. Hoje esses homens são os favelados e miseráveis da Grande Porto Alegre; suas famílias não são mais as mesmas: muitas são formadas por uma mãe com muitos filhos, de vários pais. De que adiantam as cultivares industriais se os que processam alimentos com base nesses produtos não têm a quem vender?

Planta industrial

É bem nesse ponto da história agrícola do Rio Grande do Sul - quando se pensa que chegou a hora de resgatar o campo e sua gente, de salvar os milhares de pequenos proprietários que ainda restam espraiados pelo "Continente de São Pedro", de começar a pensar numa "agricultura sustentável" -, é bem nesse ponto que estoura uma eufemística "segunda revolução verde": as plantas transgênicas.

Muitas tecnologias como o DDT, por exemplo, que envenenou peixes e aves, e os clorofluorcarbonados, que atacaram a camada de ozônio, facilitando os riscos de radiação, já se mostraram adversas ao ser humano. Ingressar de ponta-cabeça em plantas transgênicas, sem que os sistemas biológicos e ecológicos estejam bem-estudados e compreendidos, e não saber a que riscos de desestruturação genética estamos nos submetendo e quais suas conseqüências ao nos alimentarmos com organismos modificados pela engenharia genética, é no mínimo uma aventura de adolescente.

Será que a imprensa brasileira não se dá conta de que ela não pode permanecer omissa ou ser simplesmente neutra, e que num caso sério como este o povo brasileiro tem direito de ser esclarecido, consultado e de participar das decisões?

Os cientistas sabem que não existem riscos com determinados organismos modificados. Mas nenhum cientista sabe, ainda, quais são os riscos, para a saúde humana e para o meio ambiente, desse novo organismo, essa nova planta transgênica, esse novo gene solto na natureza. A avaliação consciente e correta dos riscos desse tipo de gene deve ser feita de gene novo a gene novo e, sem dúvida, cabe ao governo brasileiro e ao governo do estado uma avaliação consciente, rigorosa e honesta dos riscos para o ser humano e o meio ambiente, pela introdução de uma planta transgênica no Brasil e no Rio Grande do Sul.

Novos alergenos, resistência aos antibióticos, surgimento de novas toxinas, concentração de metais tóxicos, formação de novos fungos tóxicos e aumento dos já existentes - esses são alguns dos prejuízos para o ser humano já conhecidos pelos cientistas, mas o mais terrível de todos é o perigo desconhecido e inimaginável; aquele do qual nada se sabe.

Há cientistas que afirmam que uma "agricultura sustentável" pode produzir altos lucros, ser muito produtiva sem destruir o meio ambiente. O caminho é simples: basta o agricultor trocar os venenos por conhecimento e usar, entre a rotação de cultivares, plantas especiais entre os períodos de plantio, enriquecer o solo e combater as doenças das plantas por processos naturais, fazer o manejo integrado de processos biológicos no combate às doenças das plantas, enfim, buscar a solução dos problemas. Com isso, pode-se diminui o uso de pesticidas e demais venenos, economizar dinheiro e proteger o meio ambiente.

"Ao contrário da agricultura industrial, que olha para a fazenda como se ela fosse uma planta industrial, a agricultura sustentável vê a fazenda como um sistema - um agroecossistema’ - constituído de elementos como solo, plantas, insetos e animais. Esses elementos podem ser melhorados e ajustados para resolver problemas e maximizar a produtividade." (Union of Concerned Scientists).

Enganando a natureza

Dá para ver que agricultura sustentável significa que a fazenda é um todo integrado e que um governo, querendo, pode executar um planejamento agrícola coerente, diversificando a produção agrícola de forma alternada entre as propriedades rurais, com as cultivares tendo finalidades pré-determinadas, visando preencher as necessidades alimentares e até energéticas da população.

Até a década de 60, os agricultores que plantavam milho, trigo, arroz, canola, tomates e outras plantas com freqüência perdiam grande parte de seus plantios por causa de ervas daninhas, insetos e pragas que assolavam suas plantações. Laboratórios industriais desenvolveram e colocaram no mercado produtos químicos tóxicos, os herbicidas, fungicidas, agrotóxicos e adubos químicos, muitos deles carbonados. Foi a chamada primeira revolução verde.

Ecologistas do mundo se opuseram e passaram a batalhar pela "agricultura orgânica". Foram chamados de loucos, xiítas, comunistas e não sei que mais. Infelizmente, a boa idéia não vingou. Os agricultores, temendo perder dinheiro, preferiram os venenos e já vimos no que deu.

A década de 90 trouxe as plantas transgênicas. Um exemplo: a transnacional Monsanto resolveu criar a soja transgênica de marca registrada Roundup Ready. Para criar essa soja modificada ou transgênica, a Monsanto pegou o DNA da soja natural, abriu-o e introduziu nele um pedaço de DNA de uma substância, modificando a soja e transformando-a na soja Roundup Ready, resistente ao herbicida Roundup [veja remissão abaixo]

Qual a finalidade dessa modificação? O herbicida Roundup é usado para destruir as ervas daninhas que impedem o bom desenvolvimento da soja, mas para que isso aconteça é preciso aspergir tanto herbicida que ele acaba matando a própria soja. Como a soja transgênica é resistente ao herbicida Roundup, o agricultor compra semente e herbicida da Monsanto e o problema fica resolvido. É possível aspergir grandes quantidades de herbicida e liquidar as ervas daninhas sem matar a soja.

As plantas transgênicas apresentam um contexto que extrapola a biotecnologia. Elas envolvem questões de saúde pública, de agricultura, de economia e comércio, do meio ambiente, sobre o futuro totalmente desconhecido em termos de eventuais riscos para a humanidade, além de questões éticas e políticas: 40% dos plantios do mundo se perdem por causa de doenças, pragas e ervas daninhas; isto significa perda de muito dinheiro. Pensam que a modificação genética das plantas é a solução do problema?

Cientistas, em seus trabalhos, dizem que não se sabe ainda se essa tecnologia é segura. Existe o risco de poluição do meio ambiente. As plantas podem se tornar resistentes aos venenos e exigir maiores doses. A agricultura e o meio ambiente podem vir a ser alterados de forma irreversível, e as conseqüências são imprevisíveis. Questionam a ética dessas mudanças, já que as alterações são feitas através da introdução, no DNA das plantas, características do DNA de bactérias ou vírus e de outros seres vivos. A modificação genética, em laboratório, é uma forma de enganar a natureza, pois esse tipo de mistura de DNAs dificilmente ocorre espontaneamente, ainda mais quando se sabe que pequenas alterações genéticas podem causar sérios danos à saúde de seres humanos, animais e plantas.

Independentemente de ser a favor ou contra, o que se pergunta é: é correto introduzir plantas transgênicas em solo brasileiro sem ouvir o povo, sem ouvir a opinião dos cientistas brasileiros?

Dez perguntas

A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança é constituída de 18 integrantes: sete representantes de ministérios, oito especialistas escolhidos pelo presidente da República, um representante de organizações de proteção à saúde do trabalhador, mas indicado pelo Ministério do Trabalho, um representa os empresários e um representa os órgãos de defesa do consumidor. A maioria é de pessoas de confiança do governo e somente um delas representa a sociedade.

Como jornalista, eu pergunto: o que a biotecnologia tem a ver com a imprensa? A imprensa sabe do poder das grandes empresas da área de biotecnologia e de sua capacidade de pressão sobre os governos para que a agricultura brasileira assuma integralmente o plantio de cultivares transgênicas. Os agricultores compram a idéia com facilidade, mas quem vai consumir é o povo, e a imprensa brasileira não tem o direito de se alienar do problema.

No início, as plantas geneticamente modificadas causaram um deslumbramento nos cientistas - estava aí o novo ovo de Colombo. Com o passar do tempo, perceberam que as plantas transgênicas têm seus genes alterados para resistir aos herbicidas usados para destruir ervas daninhas. Esses genes, através da polinização, passam a ser transmitidos para outras ervas e plantas relacionadas, que acabam se tornando resistentes. É o que mostram estudos com canola, girassol e abóboras feitos na Ohio State University.

Estudos científicos feitos pelo Minh-Ha Pham-Delegue, da INRA, agência governamental francesa, com abelhas e colza ou canola transgênica, demonstraram que essas plantas acabaram adquirindo novas propriedades, como proteases inibidoras que provocam resistência a fungos e insetos, e que acabam atuando, também, sobre as colônias das abelhas, direta e indiretamente alterando as proteínas do néctar e do pólen que elas transportam.

O professor Richard Lacey, microbiologista, médico e professor em Segurança Alimentar da Leeds University, que previu a BSE, ou doença da vaca louca, há sete anos, e a quem não deram crédito na época, se manifestou contra as plantas transgênicas por causa dos riscos ainda incalculáveis que oferecem à saúde humana.

Foi preciso que a Cornell University publicasse estudos demonstrando como o milho transgênico Bt produz uma toxina que mata as borboletas mais bonitas dos Estados Unidos, para que a Academia Nacional de Ciências americana organizasse painel, ainda em andamento, em que seis cientistas e pesquisadores estudam os riscos das plantas transgênicas.

Os organismos vivos são complexos, e a engenharia genética ainda não tem condições de prever como o gene introduzido vai atuar no hospedeiro, nem se haverá reações colaterais, com o perigo de a inteligência ou a cadeia genética natural da planta poder ser desmantelada.

O aumento da quantidade dos herbicidas em uso significa mais poluição das fontes de água. Os estudos de Marc Lappe e Brit Bailey, publicados em 1997, informam que o Roundup é constituído por 41% de glysofato e de 51% de um detergente não-biodegradável, o POEA, ambos altamente tóxicos. A transferência antinatural de genes entre espécies diferentes pode causar o rompimento das barreiras contra doenças da espécie hospedeira, abrindo caminho para o surgimento de doenças emergentes ou novas doenças. Todavia, sem dúvida, o pior de todos os riscos é que um erro genético jamais pode ser resgatado.

Por tudo o que até aqui foi dito, penso que está na hora de a imprensa brasileira fazer, ao governo federal, as dez perguntas que o príncipe Charles, herdeiro do trono da Inglaterra, fez ao primeiro-ministro Tony Blair:

1) Nós realmente necessitamos, neste país, de alimentos geneticamente modificados (GM)?

2) Os alimentos GM são seguros para serem ingeridos?

3) Por que as regras de aprovação de alimentos GM não seguem as mesmas normas de aprovação de medicamentos obtidos pelo mesmo processo biotecnológico?

4) Quanto sabemos, realmente, sobre as conseqüências sobre o meio ambiente do uso de alimentos GM?

5) É correto experimentar o plantio de plantas transgênicas sem o controle e o monitoramento do local?

6) E os consumidores de alimentos preparados com essas plantas têm direito de optar?

7) Se algo acontecer de errado com uma planta transgênica, quem será o responsável?

8) São as plantas transgênicas a única maneira de resolver o problema alimentar da população mundial?

9) Quais os efeitos que as cultivares GM irão ter sobre as populações dos países pobres?

10) Em que tipo de mundo iremos viver?

Nota: A bibliografia consultada é extensa. Se alguém desejar indicações, favor me contatar em <bejzman1@zaz.com.br>.

 

Responsabilidade,
auto-ajuda e ciência

Luciana Christante de Mello

"A vitamina B12, associada ao tratamento indicado pela ‘cura pelo limão’, fará com que, num lapso de tempo muito curto, o vírus da Aids seja totalmente eliminado da corrente sangüínea, pois não suporta o ataque do limão (…) para este tratamento são necessárias doses maciças de limão, ou seja, vinte limões diariamente, divididos em cinco ou seis partes." (A cura pelo limão, Saulo C. Rego Barros, Editora Ícone, 2ª edição)

O livro acima citado estava em exposição no Salão Internacional do Livro, evento que aconteceu em São Paulo há alguns meses. Minha intenção não é divulgar "conhecimentos" deste tipo; estive lá com a ingênua pretensão de fazer uma observação do lugar ocupado pela ciência e pela divulgação científica num evento como esse, cujo slogan era "o livro brasileiro no ritmo do mundo". Confesso que voltei com dor nas pernas, um tanto decepcionada e sobretudo preocupada. A epígrafe que utilizei para começar este artigo demonstra minha perplexidade frente ao que encontrei, e esse é apenas o exemplo mais contundente e que me faz pensar na responsabilidade de alguém que afirma, por exemplo, que o limão cura uma infinidade de doenças como diabetes, tuberculose e Aids, sem citar uma referência bibliográfica.

Fico imaginando o que aconteceria a um paciente que resolvesse seguir esse tratamento e não obtivesse sucesso. Se se tratasse de um medicamento falsificado, haveria mecanismos legais para processar o fabricante, mas no caso de livro que não tem "efeito", de quem é a culpa? Do autor, do limão ou do paciente que não leu direito? Não é a toa que na falta de uma classificação específica, livros desse tipo se encontrem nas prateleiras de auto-ajuda. O prefixo "auto" eximiria o autor da responsabilidade pelo que escreveu; em outras palavras, isso quer dizer: se não funcionar, o problema é seu!

Panacéia

Outros títulos são sintomáticos e apontam para o estado de carência afetiva de uma grande parte dos leitores: Saindo do fundo do poço, Receitas para amar a vida, A Bíblia do otimismo, Prepare-se para enriquecer e talvez o mais patético que encontrei, Pense como um gênio: você não precisa ser um gênio para agir como um. Nas mesmas prateleiras misturavam-se livros dedicados a temas de saúde, geralmente novas "ciências" com forte ênfase em todo tipo de energias, milagres da natureza e tradições do Oriente: Nós e as energias, Moxacombustão, Milagres da ciência secreta, Fluidologia, A cura quântica, Nada é incurável: da gripe à Aids, Conscienciologia e projeciologia, Medicina intuitiva, entre outros.

A quantidade de pessoas presentes em estandes dedicados a esse tipo de literatura leva-me a concluir que nossa sociedade está deprimida, pobre e doente, reflexo do desamparo social que vivemos frente a um Estado precário e à rápida mudança dos valores humanos, agora globalizados. A saída (ou a promessa de) é individual, promovida por uma diversidade de gurus de plantão e patrocinada pelas editoras. Minha pergunta é: com a quantidade de títulos de auto-ajuda que vem dominando o mercado editorial nesses anos recentes, por que esses consumidores não estão um pouco mais otimistas, sadios e bem-sucedidos? É certo que a complexidade crescente do mundo em que vivemos leva a uma demanda também crescente deste tipo de literatura, mas onde estão os resultados? E se eles não existem, como cobrá-los? Problemas como esse são contemplados pelo código de defesa do consumidor?

Salão verde

O Salão Internacional do Livro era dividido fisicamente em três partes: salão verde, vermelho e azul. Tudo o que relatei até agora decorre de minha perambulação pelo salão verde, o mais movimentado e cheio de crianças porque era especialmente dedicado à educação. Ou seja, no meio de livros infantis, didáticos e paradidáticos, estava toda essa panacéia da auto-ajuda, fato esse que me permite supor se tratar de "educação de adultos". Também presentes, mas com menos impacto, estavam estandes de editoras universitárias, como USP, Unicamp, UnB, UFSCar, Universidade do Sagrado Coração de Jesus, e de institutos de pesquisa, como Embrapa, IBGE, nos quais o movimento era considerável, o que indica que há pessoas interessadas em ciência.

Às moscas mesmo estavam os estandes de algumas poucas editoras, como a Atheneu, com livros altamente especializados em medicina. A impressão que em mim ficou é que há leitores interessados em ciência, mas são poucos os livros de divulgação científica dedicados ao público mais amplo, àquelas pessoas que, não sendo especialistas em nada, guardam consigo perguntas antigas do tipo "Por que o céu é azul?" ou novas como "O que são alimentos transgênicos?", em vez de "Como ser feliz?" ou "Como ficar rico?"

Livros do século 21

O que pensariam Paulo Freire e Anísio Teixeira se pudessem passear pelos corredores agitados do salão verde? Paradoxalmente, seus respectivos livros Pedagogia do oprimido e Educação para a democracia faziam parte da exposição "Livros do Século", realizada no salão azul. Ao lado destes, outras obras de cunho científico estavam expostas, como Histologia básica, de Junqueira e Carneiro, Estudos de literatura brasileira, de José Veríssimo, e Capitalismo e escravidão no Brasil meridional, de Fernando Henrique Cardoso.

Que tipo de livros poderíamos encontrar em uma exposição desse tipo no século 21? Qual o futuro dos livros de auto-ajuda? Há quem diga que o livro, o códice, nem mesmo existirá daqui a um século, mas, sejam quais forem os meios de comunicação, torçamos para que a ciência descubra o caminho que possa levá-la até os cidadãos comuns, não para lhes complicar mais a vida, mas para educá-los, entretê-los e sobretudo protegê-los de falácias e engodos.

 

Jornalismo científico como
fonte primária de informação

Bianca Rodrigues Moura

 

Neste final de século, a ciência parece ter um papel paradoxal: de um lado age como facilitadora do dia-a-dia das pessoas, proporcionando cada vez mais conforto, maior acesso à informação, cura para um enorme número de doenças antes fatais e solução para vários outros problemas; do outro lado, ela é uma das causadoras do desemprego e dos riscos para o meio ambiente, sendo uma ameaça cada vez maior para a própria vida humana no planeta.

A atuação do profissional de jornalismo neste cenário foi o tema discutido na apresentação de Ulisses Capozolli, jornalista de O Estado de S. Paulo. Capozzoli participava do caderno de Ciência e Tecnologia, hoje extinto, naquele jornal. A palestra foi ministrada na Unicamp para os alunos do curso de Especialização em Jornalismo Científico do Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo).

Capozolli acredita que vivemos uma época de crise de valores e mudanças de paradigmas e que, nesta realidade, o jornalista não pode ficar parado: deve ser uma fonte primária de informações pela interpretação da ciência para o grande público, promovendo seu melhor entendimento e sua boa utilização.

No Brasil, além das várias revistas especializadas em ciência, que a abordam de acordo com sua linha editorial (a grande maioria tem um caráter de informação, e apenas algumas objetivam a formação), os demais veículos tratam o assunto insuficientemente e de maneira superficial.

Os jornais, por exemplo - que publicam assuntos como economia e política com maior destaque e em editorias específicas, com um grande volume de matérias -, não se mobilizam para criar cadernos para ciência. Capozolli acredita que essa falta de interesse em manter um espaço específico para que matérias sobre ciência possam ser trabalhadas de maneira mais profunda e profissional, publicadas com periodicidade e em quantidade, deve-se ao desconhecimento científico por parte dos editores, que acabam por não dar ao assunto a importância que merece.

Apesar de reconhecer que há diferenças entre a publicação de uma matéria sobre ciência numa revista internacional e conceituada, como a Nature, e num jornal de circulação diária, ultrapassado já no dia seguinte, Capozolli afirma que o veículo em que é publicado o jornalismo científico não influi na sua concepção de fonte primária de informação e, portanto, não deixa de ser fundamental para a difusão da ciência.

Uma conclusão a que podemos chegar é que o jornalismo científico deve estar socialmente comprometido, e isso independe do lugar em que está sendo veiculado ou de qual é o seu público alvo. Ele não deve ter um comprometimento ideológico, mas sim funcionar como uma referência estética.

Enfim, este bate-papo que os alunos do curso tiveram com o jornalista - recheado de citações de cientistas e pensadores fundamentais para a evolução da ciência não somente no seu sentido aplicado e prático, como também no filosófico - foi essencial para o grupo compreender alguns aspectos particulares do jornalismo científico, que o diferencia das demais áreas de atuação da profissão e o torna tão apaixonante.

Para encerrar, vale a pena reproduzir palavras de Capozolli que resumem o conteúdo de sua apresentação de 17 de maio: "A ciência é uma via de profunda humanização".

 

ASPAS
Robert Pear

The New York Times

"WASHINGTON - O diretor dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, National Institutes of Health) desencadeou debate acalorado ao propor que os cientistas revelem e divulguem pela Internet os resultados da pesquisa biomédica, para que o texto total de seus artigos fiquem disponíveis a custo zero para qualquer pessoa com um computador, em qualquer lugar do mundo.

O diretor, Dr. Harold E. Varmus, disse que sua proposta para uma operação de publicações eletrônicas, denominada E-biomed, apressaria o progresso da ciência por acelerar a troca de informações entre os pesquisadores e por aumentar tremendamente o acesso a elas.

Além disto, disse ele, o novo web site proposto poderia ser ‘uma força democratizante’ porque todos os pesquisadores legítimos, ‘por menos conhecidos que sejam ou por mais remoto que seja seu local de origem’, poderiam incluir artigos no site.

Funcionários federais dizem que esperam coordenar seu web site com as revistas científicas de prestígio, com algumas delas já tendo iniciado a publicação de edições eletrônicas de uma forma limitada. Como seria de esperar, as editoras de revistas eruditas, entre elas muitas sociedades científicas, não mostram entusiasmo pela idéia.

Elas dizem que o novo sistema permitiria que os pesquisadores se esquivassem das revistas em papel e contornassem o processo da revisão interpares, através do qual os cientistas avaliam um novo trabalho antes de sua publicação. Também há o temor de que o NIH se transforme num rival que poderia tirá-las do setor de publicações ou que poderia reduzir drasticamente as receitas que obtêm de suas revistas.

Dr. Jerome P. Kassirer, editor-chefe da The New England Journal of Medicine, que tem 240.000 assinantes pagos, disse: ‘A E-biomed poderá ter um efeito desastroso sobre as revistas clínicas’. Sua preocupação é que os ‘assinantes não teriam nenhum motivo para fazer a assinatura’ se pudessem receber gratuitamente o conteúdo das revistas através da Internet.

A The New England Journal pertence e é publicada pela Sociedade Médica de Massachusetts. Ela tem há anos uma política rígida contra a publicação de manuscritos cuja ‘substância essencial’ já tenha sido publicada em outros lugares.

A Sociedade Americana de Microbiologia, que publica 10 revistas especializadas, e a Sociedade Americana de Fisiologia, que tem 14, expressam preocupações semelhantes. (...)

Para que seu trabalho fosse divulgado desta maneira, disse Varmus, os pesquisadores precisariam obter a aprovação de ‘dois indivíduos com credenciais apropriadas’. Tais credenciais, disse ele, ‘deveriam ser amplas o bastante para incluir vários milhares de cientistas, mas rigorosas o bastante para oferecer ao banco de dados uma proteção contra material irrelevante ou ultrajante’.

Varmus descreveu este compartimento da E-biomed como um ‘armazém geral’. E disse que ‘virtualmente qualquer trabalho legítimo’ poderia ser aí colocado ‘sem a revisão editorial tradicional’. Alguns cientistas dizem, porém, que a E-biomed poderia confundir ou assustar os consumidores ao disseminar informações não averiguadas e ‘junk science’ não revisada por especialistas no campo. (...)

O professor Michael M. Cox, um bioquímico da Universidade de Wisconsin, de Madison, disse: ‘A publicação de uma revista eletrônica, financiada pelo NIH, conforme descrito na proposta de Varmus, é uma das piores idéias que já ouvi’. Se não estiver sujeita a uma cuidadosa revisão interpares, ‘irá inevitavelmente se transformar em um armazém de lixo financiado pelos contribuintes’, disse Cox. ‘Já que será financiado ou patrocinado de alguma maneira pelo NIH, a percepção será de legitimidade’.

Mas a proposta tem o forte apoio do deputado John Edward Porter, republicano de Illinois, que é presidente do subcomitê de Distribuição de Verbas da Câmara, responsável pelo orçamento dos institutos de saúde. ‘O NIH está oferecendo uma maravilhosa iniciativa à comunidade científica ao estimular o uso da Internet para compartilhar informações’, disse Porter.

Os preços das assinaturas, especialmente das revistas altamente técnicas vendidas por grandes editoras comerciais, subiram muito nos últimos anos. As bibliotecas pagam US$ 10.000 a US$ 15.000 por ano por títulos referentes a alguns assuntos, como pesquisa cerebral. (...)

Martin Frank, diretor executivo da Sociedade Americana de Fisiologia, que edita mais de 35.000 páginas por ano em suas revistas, disse que um paciente poderia sofrer danos ou morrer se um médico prescrevesse um dado curso de tratamento com base em informações não averiguadas colocadas no site E-biomed proposto.

Dr. Richard M. Glass, co-editor interino da The Journal of the American Medical Association, disse que os artigos ‘muitas vezes sofrem alterações extensas’ ao passarem pelo processo de revisão. Por sentirem entusiasmo pelo próprio trabalho, disse ele, os autores muitas vezes tiram conclusões que vão além dos dados e podem considerar que os novos tratamentos são mais eficientes do que realmente são.

(...) Na exposição eletrônica de seus relatos, os cientistas poderiam incluir seqüências de filmes, imagens tridimensionais e grandes conjuntos de dados para os quais não existe espaço nos jornais impressos. ‘A E-biomed poderá ser a mais importante mudança nas comunicações científicas desde o advento da revista formal’, disse numa entrevista o Dr. David J. Lipman, co- autor da proposta da revista eletrônica.

Referindo-se ao novo orçamento de US$ 15,6 bilhões do NIH, ele acrescentou: ‘Queremos obter o máximo proveito público em troca desse investimento de US$ 15 bilhões. Queremos que o maior número possível de olhos vejam os resultados’. Lipman é o diretor do Centro Nacional de Informações de Biotecnologia, uma unidade da Biblioteca Nacional de Medicina do NIH.

Um pesquisador que enviou um comentário por e-mail ao NIH, o Dr. Bruce Swanson de Adelaide, Austrália, traçou uma analogia com a disseminação da alfabetização e da tecnologia de impressão na Europa medieval. ‘Será que todos os livros eram precisos e tinham a devida autoridade?’, perguntou ele. ‘Seriam alguns perigosos para a sociedade? Podemos imaginar os padres dizendo: ‘Não vemos nenhum problema com a impressão em massa e a disseminação generalizada dos livros, desde que tenhamos a certeza de que todo livro será aprovado por um processo de revisão dos padres'‘.

(...) Os defensores e os críticos da E-biomed concordam que é inevitável algo parecido. ‘As comunicações científicas vão se tornar eletrônicas’, disse Anthony J. Mazzaschi da Associação das Faculdades de Medicina Americanas. ‘É só uma questão de quando e como’. Tradução: Vera de Paula Assis."

"Divulgação de pesquisas na Internet causa polêmica", copyright Folha de S. Paulo, 14/6/99

 

LEIA TAMBEM

Desinteresse da mídia no caso da soja transgênica

Brasil na era dos alimentos transgênicos



Mande-nos seu comentário

Início do Ofjor Ciência





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você