|
OFJOR CIÊNCIA 99
OfJor Ciência 99 Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
O FIM DO FIM DO MUNDO
Em quinze dias,
quatro golpes na Ciência
Roberto Takata (*)
Começo de mês difícil para a Ciência este de agosto tradicionalmente ligado ao folclore e às superstições. O eclipse total do Sol desculpem-me pelo trocadilho inevitável foi ofuscado pelo anúncio (mais um) do fim do mundo propalado pela imprensa mundo afora. E nestes tempos de globalização, obviamente a nossa não poderia ficar de fora, ainda que o famigerado eclipse não fosse visível na maior parte do Hemisfério Sul (com o território brasileiro totalmente excluído); de qualquer forma estamos todos aqui sãos e salvos.
À parte, um pouco, a ausência total de procedência para essas especulações sobre o fim do mundo, perguntaria: a imprensa brasileira cumpriu o seu papel de informação do público? Em nome da pluralidade poderia se justificar o destaque dado às previsões apocalípticas?
Bem, considerando-se que não houve nenhum sinal prévio de histeria generalizada por aqui, deduz-se que a maior parte da população discordava das predições. Talvez apenas alguns gatos pingados acreditassem no vaticínio atribuído a Michel de Nostradame.
Isso justificaria a ênfase dada pelos meios de comunicação ao lado escatológico do fenômeno? Afinal, estamos numa democracia, e a opinião da minoria também deve ser ouvida, correto? Corretíssimo, a meu ver. Mas então a imprensa agiu certo? De forma alguma. É sabido que não passavam de crendices sem qualquer embasamento, mais do que científico, dos conjuntos de observações que temos acumulados até hoje. Ou seja, a preocupação não procedia. E então, por que se deu crédito a isso, sem um olhar crítico um pouco mais apurado? É a isso que se chama de isenção jornalística?
A revista Época (9/8/99) até abrangeu uma certa visão mais científica do fenômeno, mas não resistiu à tentação de justapor a versão esotérica. "O último eclipse do século: ciência e mistério no céu" era a chamada no alto da capa. A elipse de "do século" após a palavra "eclipse" pode ser relevada (ou insinuaria que seria de fato o derradeiro eclipse que observaria a humanidade?). Mas "mistério"? O fenômeno é bem conhecido pela Ciência, previsível com bastante antecedência e precisão. Estar-se-ia falando do interesse científico pela oportunidade fornecida pelo evento em se estudar a coroa solar (a região mais externa do Sol)?
Na reportagem encontramos uma dica: "Pela ó[p]tica dos cientistas, será um acontecimento trivial", ou seja, o "mistério" refere-se mesmo à porção esotérica: "Mas como ser tão exclusivamente científico no último eclipse do milênio?"; e mais: "É natural que o último do milênio provoque barulho ainda maior". Natural? Então talvez fosse mais "natural" também se estivéssemos de tacape e clava às mãos neste fim de milênio como os nosso antepassados que lá nos tempos idos deveriam temer aquele sumiço inexplicável do Sol?
Bem, levando-se em conta a irresponsabilidade da mídia no trato com a cultura científica divulgando crendices de modo acrítico como esse, pelo jeito podemos mesmo encarar como "natural". Isso torna ainda mais constrangedora a observação: "A maioria absoluta dos interessados, no entanto, se eriçou com o acontecimento por motivos bem menos racionais" (grifo meu). E não podemos deixar de parabenizar o estilista espanhol Paco Rabanne, que como nenhum outro soube associar o próprio nome ao evento, capitalizando a ingenuidade da imprensa que sempre terminava por citá-lo nas referências ao eclipse.
"Visão única"
Mas a primeira quinzena de agosto foi braba não apenas por isso. A Rede Bandeirantes resolveu realizar uma série de reportagens levada ao ar pelo Jornal da Band entre os dias 9 e 13 de agosto sobre a "transcomunicação" o suposto contato com pessoas já falecidas por meio de rádios e televisores fora de sintonia. A reportagem de terça-feira (10/8) foi realmente assustadora, não pelas alegações e declarações exibidas, mas pelo pedido subliminar aos telespectadores de que abrissem mão de qualquer senso crítico, já que do contrário estariam fadados a um grande aborrecimento pelo festival de nonsenses.
Não vi as demais da série e não bancarei o adivinho francês do século 16 apostando que não foi feita nenhuma confrontação das "evidências" mostradas com uma opinião mais cética, embora a edição de sábado do telejornal pudesse me dar mais base para arriscar a previsão: voltou-se a atacar de "transcomunicação", numa reportagem condensada com o resumo da série. A chamada foi: "Mortos também se comunicam". Nenhuma opinião contrária foi mostrada apenas a visão unilateral dos que sustentam a veracidade do fenômeno.
Um terceiro golpe sofrido pelo bom senso foi o programa de quarta-feira (11/8) do SBT Repórter sobre o tema tão repisado e surrado das curas mediúnicas obviamente não mais contando com a presença há pouco quase certa de Rubens Farias. Durante o programa todo, a única dúvida que se levantava era de ordem monetária quando se dizia que se alegava, e frisavam o "alegava", que o tratamento era gratuito. Para se "verificar" a eficácia das terapias espirituais, contataram-se algumas das pessoas apresentadas durante a reportagem, três meses depois de submetidas ao processo todas as três se declararam curadas ou em melhores condições; mas nenhum acompanhamento médico foi feito, nenhuma consulta a especialistas da área médica foi mostrada (e isso é importante, já que embora as pessoas possam ser sugestionadas a ignorar ou suportar a dor pelo efeito placebo , a enfermidade pode estar mesmo se agravando).
O mais duro golpe, no entanto, não foi o que foi noticiado, mas o que foi basicamente negligenciado pela imprensa nacional. Dia 11, as autoridades educacionais do estado americano de Kansas baniram dos exames escolares qualquer menção à Teoria da Evolução e à do Big Bang, equiparando ambas as teorias às explicações criacionistas. Um retrocesso quase total na árdua tarefa de ampliação da cultura científica americana desde o famoso caso conhecido como "O macaco de Scopes" ("Scopes Monkey Trial"), de 1925 no qual o professor John Scopes foi julgado por violar a proibição legal do ensino de Evolução nas escolas públicas do estado de Tennesse, EUA.
Entre os jornalões paulistas, foi ignorado pelo Estado de S. Paulo, e da Folha de S. Paulo mereceu apenas um pequena nota na edição de sexta-feira (13/8) na seção de Ciências ainda que destacado numa caixa/box , baseado no que foi noticiado pelo The New York Times. Na edição de sábado (14/8), outra pequena nota, desta vez tomando por base o que foi ao ar pela ABC News. Esperava encontrar algo mais substancial na edição de domingo, em que tradicionalmente abre-se mais espaço para a Ciência. Nada. Nem na Folha nem no Estado. Na Folha on-line, que se orgulha de ser um jornal em "tempo real", nenhuma nota nos dias 11 (quando foi divulgado pelas agências de notícias), 12 e 13. O Jornal do Brasil deu um pouco mais de destaque ao fato. À televisão brasileira, chegou apenas na sexta-feira (13), via Jornal Nacional.
Não foi o fim do mundo, mas noutro trocadilho inevitável parece que estamos chegando ao fim da picada. Foram três duros reveses no jornalismo científico que tornam menores outros fatos: a entrevista com ufólogos no Dia a Dia da Band, a discussão sobre esoterismo no Jogo Aberto, também da Band, o escorpião classificado como inseto no Jornal Uniban com agravante de ser levado ao ar por uma universidade.
Friso que não sou contra a abordagem de temas pseudocientíficos e místicos essas visões refletem uma realidade de nossa sociedade. Mas o que questiono fortemente é o fato de raramente virem acompanhadas de uma visão mais cética são impressas e levadas ao ar de maneira absolutamente acrítica, contrariando mesmo as normas internas de vários órgãos de ouvir o outro lado.
Pergunta-se: que isenção é essa que contempla apenas um lado? A pluralidade atropela o bom senso? É o que vende mais? É o que se encaixa na visão editorial da empresa? Por que esse descuido, desleixo e negligência com a Ciência, com o bom senso, com a população? É a "visão única" prevalecendo também no jornalismo científico?
Esperemos por melhor sorte nas próximas semanas.
(*) Mestrando em Biologia no Instituto de Biociências da USP
DESINFORMAÇÃO
A Folha e os transgênicos
Joaquim Moura
O assunto "transgênicos" está aqui para ficar. Portanto, vamos nos acostumar com ele e com a polêmica inevitável, mesmo porque as pessoas mais informadas, sensíveis e prudentes jamais aceitarão a introdução progressiva e indiscriminada de alimentos adulterados geneticamente em sua alimentação e em seu patrimônio genético.
Por isso, creio que minha análise da página publicada pela Folha de S.Paulo sobre as recentes discussões na SBPC a respeito do tema vai colaborar para o aprofundamento das próximas matérias, evitando a superficialidade e a inconsistência (para dizer o mínimo) que caracterizam a cobertura do assunto pela mídia.
1. Análise da chamada superior da página (pg. 3-5, de 16/7/99): "Para os especialistas, sociedade deve ser instruída para decidir sobre alimentos alterados geneticamente."
Lendo-se a matéria, logo se percebe que é "para" os "especialistas" citados pela Folha. E para o articulista. Ele diz que toda a resistência ao consumo de tais alimentos vai desaparecer à medida que a população for se tornando "mais instruída". Porque entre os "especialistas" em bioética (dois professores universitários) e "entre alguns cientistas que lidam com agronomia e biologia molecular há mais apoio a essas plantas" (sic). Outro professor tenta nos impressionar com o argumento de que os transgênicos vêm sendo testados há dez anos, sem maiores problemas... Se ainda fossem dez gerações... O DDT foi sucesso por 40 anos antes de ser proibido nos EUA e nos demais países avançados. Há 30 anos a energia nuclear nos era vendida como madura, segura, econômica e inevitável...
2. Análise da matéria principal da página: "Falta instrução sobre transgênicos"
De novo a mesma insinuação. Quanta instrução está faltando? Quanta instrução é necessária para podermos decidir sobre o assunto? Instrução, conhecimento ou sabedoria? Como já disse acima, a Folha parece insinuar que, se formos mais instruídos, estaremos todos de acordo com os cientistas que desenvolveram e nos querem impingir tais monstruosidades.
Porque há muitos outros cientistas, muito mais ecológicos, holísticos e independentes de interesses econômicos, acadêmicos e empresariais, que são totalmente contrários a tais aventuras com nosso patrimônio genético. Pois, do ponto de vista holístico, se você mexe com a genética de seu alimento você está mexendo também com a sua própria genética e com a genética de toda a natureza, que é como um organismo.
Você está disposto a tanto? Temo até que a verdade esteja do outro lado: quanto mais instruído ou melhor, quanto mais sábio mais você percebe o absurdo de alimentar populações com comida alterada por razões do mercado de commodities.
A matéria prossegue transcrevendo dados sobre o crescimento do plantio de soja transgênica nos EUA, no Canadá, na Argentina e na China, dando a impressão de que se trata de tendência irresistível. Não analisa a outra face da moeda, como o fato de a Europa e o Japão que resistem ao consumo de transgênicos virem a se tornar nossos clientes preferenciais se nos mantivermos como o maior produtor mundial de soja natural.
Por fim, a matéria acaba reproduzindo outra aleivosia de mais um inefável professor universitário: "Uma das vantagens de plantas como a soja transgênica é a diminuição do uso de herbicidas. Não estou defendendo nenhuma multinacional, mas falta esclarecimento", afirma o professor Zanettini. "Com o uso do algodão transgênico foi evitado o uso de 1 milhão de litros de inseticida", conclui.
Parece ótimo, até ecológico, não é mesmo? Vamos à análise: realmente, a soja Roundup Ready, como o nome diz, é resistente ao herbicida Roundup (semente e herbicida são produzidos pela multinacional Monsanto), um herbicida tão poderoso que mataria a própria soja, se ela não tivesse a tal alteração genética que a torna "pronta para levar Roundup em cima". Conforme o professor, a vantagem é que, ao usar um herbicida tão mais forte, reduz-se a quantidade de aplicações de outros mais seletivos e o custo de mão-de-obra.
Mas agora ponham-se do lado da natureza. Está bem explicitado na propaganda do "sistema" Roundup: "Nosso herbicida mata todas as plantas na área que não contenham o gene Roundup Ready". Vocês acham isso razoável? Até tenho saudades das antigas tecnologias agroquímicas que só pretendiam envenenar as plantas consideradas daninhas. Agora matam-se todos os vegetais da área, e só sobrevivem as plantas patenteadas, cujos cultivadores e consumidores deverão pagar copyright por plantar e comer a empresas sediadas em países distantes...
3. Análise da matéria "Europeus se inspiram em escândalos."
Neste artigo, um "enviado especial" faz malabarismos para nos convencer de que os europeus (que resistem a passar a comer alimentos adulterados geneticamente), embora sejam mais informados cientificamente que os americanos (que só agora começam a pensar em resistir), são contra os transgênicos por motivos mais passionais que lógicos...
Quer dizer, de acordo com a matéria, os europeus, embora mais informados cientificamente, não têm mais razão, sendo contra os transgênicos, do que os americanos, que são indiferentes a eles... A revista Science publicou a pesquisa e suas estapafúrdicas conclusões, e a Folha apressou-se a reproduzir, sem se preocupar em elaborar uma crítica tão óbvia como a que expus acima.
Querem outra crítica? A pesquisa acusa os europeus de pautarem sua repulsa em emoções decorrentes de "acidentes" como a doença da "vaca louca" (carne de carneiro contaminada na ração para gado de corte) e na percepção crescente da relação entre alimentação industrializada e doenças degenerativas diversas. Pergunto eu: essa percepção também não seria científica? Que conhecimento científico pode garantir algo que os fatos e a experiência desmentem? Outro coisa interessante é que a pesquisa se espanta com o fato de que 30% dos europeus são contra os transgênicos (isso em 1996 hoje são muito mais), embora a imprensa tenha sempre buscado promover tais irresponsabilidades como positivas.
Leiam a seguir os dois espantosos parágrafos que transcrevi da Folha, que por sua vez os transcreveu da Science, sem nenhuma crítica, desorientando assim seus leitores:
"Surpreendentemente, a pesquisa revelou que o ligeiramente maior conhecimento de ciência da população européia, e mesmo um maior número de reportagens favoráveis a esses alimentos na imprensa do continente, não tiveram maior influência na atitude."
Fiquei estarrecido, imaginando os motivos que levaram e ainda levam a imprensa a querer criar um clima favorável para tamanha interferência na alimentação humana.
O outro parágrafo é igualmente incrível:
"O resultado das pesquisas com jornais, afirmam os autores, não confirmam a idéia de que as percepções do público refletem o conteúdo da cobertura da imprensa. Ocorreu o contrário: apesar de, em 96, a cobertura da imprensa européia ser mais favorável aos transgênicos, a opinião pública era mais contrária."
Por que esse complô? Haveria interesses financeiros nesse apoio ou seria mera coincidência que a maioria dos jornais tenha apoiado tão precocemente uma tecnologia tão arriscada?
Ainda um último ponto importante na mesma matéria: a pesquisa constatou que os europeus confiam mais em organismos internacionais, como a Organização Mundial de Saúde, do que nas instituições nacionais para a regulação de transgênicos, enquanto 84% dos americanos confiam cegamente na competência da Food and Drug Administration.
Pois bem, na véspera desta edição da Folha, o secretário de Agricultura dos Estados Unidos reconheceu a necessidade de a FDA reiniciar testes com cultivos e alimentos transgênicos. E mais: anunciou também a constituição de uma auditoria externa de cientistas que verificarão até que ponto os interesses comerciais das grandes empresas (e grandes financiadoras de pesquisas e de Ph.Ds) e suas relações com os cientistas da área podem estar influenciando o processo de liberação de novos produtos...
Uau!
4. Análise da matéria "Liminar suspende plantio de soja."
Essa matéria é outro mistério. É sobre a liminar concedida pela Justiça Federal que impede o cultivo e a comercialização da soja transgênica, segundo a matéria mas que, creio, alcança também outros cultivares alterados geneticamente, como o milho suspeito de matar as borboletas. O mais incrível é que o fato ocorrera havia uns 20 ou 30 dias. Será que na época não saiu na Folha? Em Brasília, o Correio Braziliense deu manchete principal na primeira página e a Folha só anunciou agora? E por que na matéria não informa "quando" essa liminar foi concedida?
E a matéria é incompleta. Informa que a liminar foi concedida pela 6ͺ Vara da Seção Judiciária do Distrito Federal, mas não informa o nome do intrépido juiz que ousou afrontar interesses enormes da Monsanto e de produtores de soja riquíssimos, entre os quais vários senadores (o Correio deu foto de um na capa). Informa que a liminar foi pedida pelo Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), mas esquece de informar que o juiz incluiu também nada menos que o Ibama, que pedira liminar argumentando a falta de estudos de impacto ambiental desses produtos no Brasil.
Será que a Folha não publicou o importante fato na época, só o fazendo agora porque Marilena Lazzarini, a coordenadora do Idec, seria uma das palestrantes no debate sobre transgênicos que ocorreria aquela noite no auditório da Folha?
5. Análise da matéria "Mutação genética aumenta casos de câncer infantil raro"
Por ironia do destino, na mesma página em que a imprensa mais uma vez buscava criar uma atitude positiva dos leitores para com os transgênicos, uma matéria ocupando 1/4 de página nos chamava à responsabilidade. Esta notícia nos informava do aumento de casos de câncer nas glândulas supra-renais de crianças de São Paulo e Paraná, decorrente de uma mutação genética provavelmente provocada pelo uso intensivo de agrotóxicos. A taxa desse câncer nesses estados é dez vezes superior à média mundial, e a descrição dos sintomas é lancinante, incluindo distúrbios hormonais que levam à maturação sexual muito antecipada, com o aparecimento dos pelos pubianos e o aumento desproporcional do pênis ou do clitóris das crianças, antes de morrerem precocemente.
Que mutações e sofrimentos estaremos programando para nossos descendentes quando aceitamos passar a consumir alimentos alterados geneticamente apenas para atender a conveniências que nada têm a ver com nossas necessidades biológicas e espirituais? Isso é tudo por ora, prezados amigos.
Só lamentei não haver na mesa de debate do auditório da Folha algum representante da vertente naturalista, ou do movimento macrobiótico, vegetariano, holístico, alguém que pudesse dar seu testemunho de primeira mão com relação à compreensão da importância da agricultura e da alimentação como base da saúde e do progresso de uma sociedade e da própria evolução futura da humanidade.
Aliás, não conheci, até agora, alguém que, fazendo da alimentação o seu remédio, esteja apoiando a idéia de consumir shoyu, missô ou tofú de soja geneticamente adulterada... Procurei alertar a Renata (da editoria de Tendências e Debates da Folha) para essa lacuna, mas ela não quis debater tal tendência comigo, e me disse que jamais perguntaria, a um palestrante convidado, se ele comia arroz integral e acreditava que "você é o que você come". Não era esse o caso, mas sim convidar alguém que notoriamente se baseia na alimentação para ser mais saudável e jovem, sem apelar para viagras e silicones.
Agora só me resta esperar que a Folha publique matéria com o resumo do debate, para analisar se um tal depoente fez ou não fez falta para trazer essa discussão aos termos que realmente nos dizem respeito como seres humanos responsáveis e compassivos com relação à posteridade.
PROJETO GENOMA
TV Cultura mostra o
sonho de uma geração
Alencariano Falcão (*)
A partir da segunda-feria, 16 de agosto, sempre às 21h, a Rede Cultura de Televisão começou a exibir, com exclusividade, Genoma: Em busca dos sonhos da ciência, série inédita de cinco programas que vai ao ar de segunda a sexta. Este trabalho, que vem sendo preparado desde janeiro, enfocou o Programa Genoma criado pela Fapesp, em 1997, e mostra o trabalho de pesquisadores para explicar aos telespectadores esta nova área do conhecimento.
Apresenta a ambição dos cientistas para decifrar desde os genes de uma bactéria, como a Xylella fastidiosa, até os que levam a tumores de câncer.
A série pretendeu levar o telespectador a um passeio pelo mundo da ciência. Os cinco programas de jornalismo científico, pioneiros na história da televisão brasileira, mostram pesquisadores e institutos envolvidos no maior e mais caro plano de investigação da ciência nacional. O Programa Genoma já recebeu cerca de 35 milhões de dólares sua principal entidade financiadora é a Fapesp, mas também têm parceria neste empreendimento o Instituto Ludwig de Pesquisas sobre o Câncer, o Fundecitrus e a Copersucar.
As gravações foram feitas no estado de São Paulo, ambiente do Programa Genoma-Fapesp, e nos Estados Unidos, o país que detém a maior indústria genômica do mundo. O registro da corrida americana para descrever e patentear genes resultou num roteiro pelas cidades de Seattle, Washington D.C., Rockville (Maryland), Newtown (Pensilvania) e Saint Louis (Missouri). As entrevistas obtidas nesse percurso, entre muitas outras, foram realizadas com Craig Venter, que anunciou o seqüenciamento completo do genoma humano até meados de 2001; Phil Green, o nome mais importante entre os especialistas em bioinformática; e Leroy Hood, que trabalha no desenvolvimento de máquinas para automatizar tarefas ligadas à área, inclusive os seqüenciadores de DNA, desde os anos 60.
Além de darem suporte à série da TV Cultura, as informações colhidas pela reportagem tornaram-se objeto de dois encartes especiais do Notícias Fapesp, o primeiro já publicado na edição 43 do informativo e o segundo, previsto para circular nos próximos dias, na edição 44.
A equipe da TV Cultura também mostra a criatividade e as dificuldades dos cientistas brasileiros ao passar pelos laboratórios envolvidos no projeto. Genoma: Em busca dos sonhos da ciência fala da união entre a ciência da computação e a biologia molecular, mostrando os quatro projetos do Programa Genoma-Fapesp para decifrar o DNA da Xylella fastidiosa e da Xanthomonas citri, e procurar os genes da cana-de-açúcar e do câncer. E fala da expectativa do maior sonho da área: conseguir o seqüenciamento completo do material genético da espécie humana.
(*) Doutor em Melhoramento Genético Animal, Departamento de Zootecnia/Universidade Estadual de Maringá
CARTAS
Jornal Hoje na Lua
O tom da carta "Jornal Hoje na Lua", enviada por Helenice Oliveira, pareceu-me equivocado. O choque da sonda contra a Lua não causou risco algum ao "equilíbrio da vida na Terra". Seria como dizer que a queda de uma aeronave no Oceano Pacífico colocou em xeque a vida de toda a população mundial faltou à leitora uma idéia melhor das grandezas envolvidas: a quantidade de energia, o tamanho da Lua e a distância da Terra.
Proporcionalmente, a queda do meteoro em Tunguska no início do século ou a explosão da Ilha de Krakatoa foi incomparavelmente maior idem para as bombas atômicas de Hiroxima e Nagasaki e qualquer uma das explosões feitas durante os testes nucleares. Aliás, até as corriqueiras implosões de edifícios representam um impacto ambiental centenas de vezes maior do que o colisão da sonda com a superfície do nosso satélite.
Fico feliz com as preocupações éticas da leitora em relação à pesquisa científica, a sociedade deve estar envolvida, mas tal alarmismo realmente é descabido.
Roberto Takata, mestrando em Biologia no Instituto de Biociências da USP
Pseudociência avança
Estudei o assunto "grafologia" durante alguns anos, e posso dizer que não se trata de nenhum embuste, conforme o leitor Jamil Orlandelli opinou em "Pseudociência avança" [ver remissão abaixo]. A grafologia é tão somente uma forma de expressão, tal qual a fala, a dança, a linguagem dos surdos-mudos, o canto, a pintura, a escultura etc.
Daí que é possível (tendo o conhecimento técnico do assunto) interpretar os diversos sinais contidos numa escrita e então (através de um olhar atento e treinado) identificar sentimentos, pensamentos e atitudes da pessoa que escreveu o texto, traçando-se o seu perfil psicológico. Por exemplo, podemos encontrar traços característicos que denotam agressividade, timidez, temor do futuro, depressão etc., e em função disso muitas empresas utilizam a grafologia não como o único método de seleção de pessoal, mas como um instrumento auxiliar para complementar outras técnicas de avaliação.
Ou seja, a grafologia tem recursos para detectar se uma pessoa tem as características apropriadas para o desempenho de uma determinada atividade profissional; características essas que muitas vezes são forjadas por um determinado canditato à vaga oferecida, no afã de conseguir um emprego. Com o uso da grafologia, conseguimos "ver por trás da máscara", pois as pessoas não conseguem se ocultar quando escrevem um texto manuscrito, apenas se for utilizado algum método eletrônico ou mecânico. Da mesma forma que podemos interpretar quando uma pessoa estende o braço com a mão fechada como "soco", "gesto agressivo", na escrita percebemos este mesmo gesto num traço, que, em última instância é uma representação simbólica do gesto agressivo.
Em vários países do mundo a grafologia é seriamente estudada e aplicada, dando-se-lhe o devido valor. Aqui no Brasil, como em muitos outros assuntos, existe uma grande ignorância a respeito desta matéria, o que de forma alguma lhe diminui a importância. É preciso ter o coração e a mente abertos para que possamos conhecer e assimilar novas idéias e tecnologias, que só podem nos enriquecer. Se assim não fosse, estaríamos até hoje tentando esfregar dois pauzinhos para fazer fogo...
Martina Duarte

Jornal Hoje na Lua
Pseudociência avança
|