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OFJOR CIÊNCIA 99
OfJor Ciência 99 Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.
MÍDIA & CIÊNCIA
Transgênicos, convencionais e orgânicos
Carlos Vogt
O cultivo dos transgênicos aproxima-se cada vez mais do cotidiano de nossas vidas e agora, mais do que nunca, a mídia/imprensa deveria estar promovendo ampla campanha de debates e esclarecimento sobre o tema e sobre suas implicações socioambientais.
Na Inglaterra, ainda recentemente, em decorrência de um estudo feito pelo grupo Amigos da Terra, o ministro do Meio Ambiente, Michael Meacher, concordou que o governo deverá estudar um novo parâmetro de distância mínima - hoje de 50 metros - entre plantações transgênicas e plantações convencionais.
O assunto é polêmico e, para os que são navegadores na Internet, tem mostrado uma assiduidade calorosa.
Cultivo comercial em discussão
No Brasil, a discussão mais enfática tem girado em torno do cultivo em escala comercial da soja "Roundup Ready", modificada geneticamente pela empresa Monsanto para resistir ao herbicida Glifosate, produzido pela própria Monsanto [veja remissões abaixo].
Mas a questão é mais abrangente e tem suscitado constantes debates e discussões em diversos fóruns associativos e em diferentes entidades e organizações científicas, entre elas a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Instituída em 1995, a Lei de Biossegurança permitiu a criação, no Brasil, da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio), ligada ao Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT), cujo presidente atual é a microbiologista Leila Oda.
Recentemente, por decisão do juiz Antonio Prudente, da 6ͺ Vara Federal em Brasília, foi suspenso o cultivo da soja "Roundup Ready" em todo território nacional, até que sejam apresentados estudos conclusivos de impacto ambiental das áreas-teste já plantadas, proibindo ainda a concessão de novas autorizações de plantio. A argumentação aceita pelo juiz foi-lhe apresentada na ação pelo Instituto Brasileiro do Consumidor, entidade sem fins lucrativos, fundada em 1987 e de vínculos claros com os direitos da cidadania.
O cidadão desconfia
Aqui, como acolá, a oposição se faz entre órgãos governamentais e organizações não-governamentais, entre razões técnicas e tecnológicas, muitas vezes bem fundadas, e as dúvidas e desconfianças do cidadão, através da militância eficiente, eficaz e efetiva de entidades representativas.
Do ponto de vista econômico, da mesma forma que há os que defendem persuasivamente o cultivo dos transgênicos, há os que continuam adeptos dos métodos convencionais e outros tantos que, convincentemente, sustentam as qualidades da cultura orgânica, sem uso de agrotóxicos, e que tem um prestígio cada vez maior como passaporte para a entrada de seus produtos em mercados exigentes como é, por exemplo, o da União Européia.
O Brasil conhece e pratica os três modos de cultivo. Qual a sua distribuição geográfica, qual o seu peso na economia do país, qual o volume de sua produção, qual a sua competitividade no mercado nacional e internacional, qual o seu padrão de consumo, qual o seu impacto ambiental são questões que, entre outras, merecem respostas claras e objetivas que possam chegar ao cidadão com clareza que lhe permita, primeiro, entender o problema e, em seguida, fazer seu juízo de valor sobre as alternativas, sua possível convivência e sobre a melhor forma de atendimento de seus legítimos interesses de cidadão.
Os jornais, entre eles, e em particular, o Jornal do Brasil e o JC Mail, da SBPC, têm repercutido essas questões. Mas isso poderia ser feito de maneira muito mais sistemática e muito mais próxima dos mitos e realidades de nossa população.
A presidente da CTNBio, Leila Oda, apontou no Jornal do Brasil para a dificuldade de encontrar, no país e fora dele, tradutores para a linguagem técnica que envolve a questão dos transgênicos e a decorrente resistência da sociedade, por falta de meios de entendimento, a essa tecnologia.
Aqui, mais uma vez, mostra-se fundamental o papel do jornalismo e da divulgação científica na mediação entre ciência, tecnologia e sociedade.
EDUCAÇÃO SEXUAL
Diálogos francos
Comissão de Cidadania e Reprodução (*)
Programas e colunas "abrem o jogo" e conversam francamente com jovens sobre sexo. Adultos e adultas discutem sexualidade, homossexualidade, casamento, traição, maternidade e paternidade. Cinema, teatro e TV debatem e a mídia reflete este movimento a cultura sexual brasileira. Pode-se dizer que estão abertos os canais de diálogo?
Desde que a CCR começou a pesquisar a cobertura da mídia, o tema cultura sexual sempre teve forte influência do noticiário internacional. Hoje o assunto continua em voga, mas aumenta o percentual de matérias nacionais. No quadrimestre de maio a setembro, as práticas sexuais e a conjugalidade ocuparam os cinco maiores destaques, sob o impacto da produção artística nacional e internacional.
Também cresce, nessa onda, o espaço dedicado à educação sexual: o subtema educação sexual ocupou 6,5% do espaço ocupado pelo tema cultura sexual, maior percentual já dedicado ao assunto desde dezembro de 1996, quando a CCR começou a publicar o Olhar sobre a Mídia. A cobertura do assunto indica que a mídia está, ainda que transversalmente, colaborando para a educação sexual no Brasil.
Reportagens informam sobre novas hot-lines, institutos e iniciativas dirigidas à informação sobre sexualidade para crianças, jovens e adolescentes. Martha Suplicy, que voltou às telas da televisão, também relançou seu livro sobre sexualidade para adolescentes. O MTV Erótica já tem a maior audiência da TV no horário. Notam-se na coluna de Rosely Saião na Folha de S.Paulo iniciativas de diálogos cada vez mais francos e explícitos com os jovens.
Notícias animadoras
Tudo isso indica que estamos experimentado, no Brasil, um boom de educação sexual pública não-estatal, o que seria condizente com a atmosfera política do momento. E as políticas estatais não estão completamente ausentes. O aumento de espaço para educação sexual também se deve, em alguma medida, às políticas de orientação sexual no sistema público de educação e gravidez na adolescência, embora não haja menção ao Programa de Saúde do Adolescente. Há registros sobre a política de educação sexual nas escolas, indicando que a mídia também informa que o Estado não está abdicando inteiramente de suas responsabilidades. Mas não é suficiente, pois, em face da dimensão nacional da política de educação sexual, a imprensa deveria dedicar maior atenção à sua implementação, como já vem fazendo em outras áreas. Existem experiências estatais exemplares em educação sexual que merecem maior visibilidade.
Se a mídia brasileira é, de algum modo, o espelho da cultura, tudo indica que no quadrimestre maio/setembro eclodiu o interesse pela sexualidade, seja entre jovens, seja entre adultos e adultas brasileiros.
Os bons ventos também registram avanços em outros campos: no tema aborto, por exemplo, o cenário foi de notícias animadoras: homossexualidade, bissexualidade e transsexualidade entraram na pauta da imprensa sob outros ângulos, e a transformação dos valores sexuais está sendo devidamente registrada.
Risco de infecção
O rol dos bons exemplos de cobertura, no entanto, ainda não nos liberta de todo de velhos preconceitos, particularmente na área de prevenção à Aids e às doenças sexualmente transmissíveis. Algumas matérias apontam o crescimento da infecção pelo HIV entre as mulheres, devido sobretudo à desinformação e ao fato de a imprensa ainda aliar a Aids a homossexuais e a usuários de drogas injetáveis.
A chamada "camisinha feminina" ainda é tratada como o artefato que vai libertar as mulheres do sexo inseguro principalmente as vistas como "mais liberadas". A cobertura da mídia insiste em tratar a camisinha feminina como o preservativo que dará à mulher total poder na relação sexual. Não há dúvida de que aumentam as opções para a mulher, mas sabe-se que ainda é necessária a colaboração do homem para a melhor aceitação desse método. E o homem foi um grande ausente nas matérias que mencionavam a camisinha feminina. Que estratégias serão utilizadas junto aos homens que os tornem favoráveis à utilização desse método? Como esse método irá se encaixar na gama de outros métodos ligados à anticoncepção utilizados no país? Questões como essas poderiam se fazer presentes na cobertura. Nas reportagens que tratam da transmissão sexual do HIV a tônica também é no risco da infecção para mulheres com múltiplos parceiros, sem que haja uma palavra sequer sobre o problema da multiparceria de homens versus a monogamia das mulheres, esta sim a grande questão da transmissão do HIV e de outras DSTs.
Se acerca da sexualidade os diálogos estão mais abertos, sobre prevenção e doenças sexualmente transmissíveis ainda há muito silêncio a ser evitado.
(*) Site da CCR: <www.ccr.gov.br>
GALILEU
O Santo Sudário
Roberto Takata (*)
Reciclar lixo não é a panacéia que resolverá todos os problemas dos resíduos sólidos produzidos em nosso modo "civilizado" de viver. Pode até mesmo causar mais problemas do que resolver, se não for planejado e aplicado adequadamente: e.g. se se fosse branquear o papel reciclado seria gerada uma quantidade maior de poluentes do que na produção de papel comum. Ainda assim repiso, se bem planejados , os programas de reciclagem podem ser um grande aliado na batalha pela melhoria da qualidade de vida da população e na conscientização para o exercício da cidadania.
Alguns vestibulares mais preocupados com a capacidade de raciocínio do que de memorização realizam o que se pode chamar de "reciclagem de informações". Questões são formuladas para que o candidato interprete um trecho de livro ou de artigo retirado do noticiário e reflita sobre o seu significado. Podemos realizar este exercício com um artigo de recente edição de Galileu (outubro de 1999). Antes, porém, um esclarecimento: não cuide, leitora (ou leitor) ser implicância minha com a revista ou com o autor do artigo, posto que não é a primeira vez que me pronuncio desfavoravelmente a um texto ali publicado. Quero apenas tecer algumas críticas, em meu julgamento, construtivas; afinal acredito que apontar erros é um passo para solucioná-los, sendo em última instância uma contribuição na busca do aperfeiçoamento constante do trabalho.
O texto referido é "Mistério e fascínio do Santo Sudário". Começa nos informando encontrarem-se presos à trama do tecido pólens mais antigos do que a idade estimada para o sudário pelos cientistas num teste feito em 1988. Segue afirmando ter sido sensacionalista a divulgação, à época, das conclusões de que o sudário teria sido fabricado na Idade Média (entre os anos 1260 e 1390). Pergunto aqui se não serão dois pesos e duas medidas. Senão, vejamos: "A opinião pública embarcou nessa tese [da falsificação do sudário]"; "essa informação [existência de pólens] foi atropelada pelo rolo compressor do teste do carbono 14"; "Ela [a existência de pólens] devolve ao estudo do Sudário a seriedade que o assunto merece"; "detalhe que os autores da tese de falsificação esqueceram de explicar [como a peça foi produzida]"; "No esforço quase irracional de negar a autenticidade do Sudário, alguns estudiosos lançaram mão de todo tipo de hipóteses para explicar a formação da imagem"; "dando [as manchas dágua] à imagem um aspecto ainda mais hierático e misterioso"; "Parece óbvio que o autor do Código [de Pray] o utilizou [ao Sudário] como modelo"; "Esse experimento [do efeito da fumaça na datação do pano] por si só desqualifica completamente a datação [...]" grifos meus.
Palavras fortes de apelo ao emocional induzindo a se imaginar que o estudo teria sido conduzido de modo descuidado (desleixado? tendencioso?): a isso não se chama sensacionalismo? Ainda mais que não se tratam de citações, mas de julgamentos do próprio autor? Qual a procedência desse julgamento?
O sudário é um objeto realmente fascinante, e julgo não necessitar destes subterfúgios para despertar o interesse das pessoas. Muitos outros pontos (incluindo diversos listados no artigo) revelam-se provocações instigantes para os céticos uma falsificação tão detalhada?
Mas a crítica feroz se centra no método da datação por carbono-14, referido sete vezes (alguma conotação cabalística?) e negando três vezes a validade do teste (Mat. 26:34-75?). Apesar disso, em nenhum momento nas dez páginas dedicadas ao assunto é explicado o que afinal vem a ser o carbono-14 e como é realizada a datação.
Troca de carbono
O carbono-14 é um isótopo (forma de um mesmo elemento químico, mas com peso diferente) do carbono; uma outra forma, bem mais abundante, é o carbono-12. O carbono-14 é instável e se transforma em nitrogênio-14, estável, liberando radiação. Essa quantidade perdida é reposta por um processo inverso que ocorre na alta atmosfera com o bombardeamento de 14N por radiações solares de alta energia, de modo que a quantidade de 14C na atmosfera é praticamente constante. O processo de transformação de uma forma instável para outra mais estável, denominada decaimento radioativo, se dá de maneira estocástica isto é, não se pode prever quando exatamente um determinado átomo vai emitir radiação e se transformar; mas é possível prever o comportamento de uma certa quantidade: depois de um período, chamado de meia-vida, apenas metade dos átomos iniciais não terão decaído, após outro intervalo de mesma duração apenas a metade da metade (um quarto) restará íntegra e assim por diante. A meia-vida do carbono-14 é de 5.730 anos. Então, se soubermos a quantidade original de 14C de um objeto (obviamente contendo carbono) no momento de sua fabricação, e compararmos com a quantidade atual, poderemos saber a idade do objeto por meio de uma função logarítmica.
Como saber a quantidade inicial? No caso do tecido sabemos que foi confeccionado com fibra vegetal. As plantas fixam o carbono retirado do ar na forma de CO2. Sabemos que a razão entre 14C e 12C nas moléculas de CO2 no ar é de 1 para um trilhão (1012) que vem a ser a proporção, então, nas plantas, nos animais que delas se alimentam e nos produtos derivados: vegetal ou animal (existem exceções, mas não é o caso do linho no qual foi urdido o sudário). Quando o organismo morre, cessa a troca de carbono com o ambiente e, pelo decaimento, a proporção de 14C para 12C se altera quanto mais tempo se passa menor a proporção de 14C.
O teste de 1988
Em 1988, cientistas retiraram uma amostra do sudário, mediram com um aparelho a quantidade de 14C presente no CO2 formado na queima total do tecido e compararam com uma amostra equivalente de pano novo de linho (em lugar de utilizarem a proporção teórica original). Nessa medição chegaram à idade de cerca de 660 anos dentro de uma margem de erro.
O que se contesta então? Afirma-se que a amostra estava, como todo o sudário, contaminada com bactérias e pólens recentes, fazendo com que no teste resultasse uma idade menor do que a verdadeira. No artigo é citado um trabalho do cientista russo Dmitri Kuznetsov indicando que a fumaça produzida por um incêndio em 1532 atingindo o sudário poderia ter provocado uma troca entre o carbono do tecido e o da fumaça de até 25% do total (isto é, um quarto de todo o carbono do tecido pode ter sido substituído pelo carbono do ar e do material consumido no incêndio) o que valeu o comentário do autor da matéria de Galileu de que a datação fora completamente desqualificada.
Um rápido cálculo indica que, corrigindo o eventual efeito máximo da fumaça, o ano da fabricação do pano deveria estar em torno de 1255 (não muito longe do mínimo estimado: 1260). Não parece ser tão desabonadora assim: estamos ainda muito longe do ano 33, no qual teria ocorrido a paixão de Cristo.
[Usando apenas o conteúdo de Química e de Matemática do nível médio é plenamente possível realizar tais cálculos. Se se for pensar de modo mais intuitivo é só verificar que um quarto do 14C do tecido será substituído pelo ar atmosférico, o mesmo ocorrendo com o 12C do tecido. Então, se por um lado se perde o 14C pela substituição de parte deste pelo carbono da fumaça (rico em 12C ), por outro ganha-se 14C pela substituição de parte do 12C (em muito maior quantidade na amostra) pelo carbono da fumaça: a maior parte do 12C do tecido será trocado pelo da fumaça, mas uma pequena parte (1 em um trilhão) será trocada pelo 14C. Como na fumaça há comparativamente mais carbono-14 do que no tecido, ao final o ganho será maior do que a perda. Se houvesse o autor notado que a queda na proporção de 14C se relaciona com o tempo decorrido em uma função logarítmica, notaria que se esperaria mesmo uma alteração menor se o ano de fabricação estimado (1325 +/- 65) não fosse muito diferente do possível instante da contaminação (1532): se uma troca de 100% do carbono tivesse ocorrido na época de fabricação do sudário não se notaria efeito algum.]
A creditar-se a diferença restante à sujeira acumulada, bactérias e pólens, deveríamos ter uma quantidade de carbono quase duas vezes maior dessa fonte em relação ao carbono do tecido. Pesando o sudário cerca de 9 kg, isso significaria que teríamos mais de 4 kg de pó: a imagem não deveria ser visível debaixo de uma generosa camada de microorganismos e poeira.
Falso argumento
Se existem alguns empecilhos para a hipótese da falsificação, a da autenticidade encontra problemas ainda mais graves. O autor vê dificuldades incontornáveis numa diferença de 70 anos entre a idade estimada (que tem uma variação de 65 anos para mais ou para menos) e a que poderia ser a real em caso de influência da fumaça (com uma variação em anos da mesma ordem); mas apresenta como se fosse natural a explicação de que a imagem teria se formado a partir de um brilho equivalente à detonação de um artefato nuclear emanado do próprio corpo envolvido pelo pano. E mais, que nesse instante esse corpo estaria flutuando no ar.
Argumenta ainda o autor que "o Sudário já passou por milhares de testes" e "de todos os experimentos, só o do carbono-14 contestou a autenticidade da peça". Creio que, apesar de usar no texto um termo da epistemologia da ciência, "falsear", não entenda de fato o que define a validade lógica de uma hipótese científica não importa quantos experimentos apontem para a veracidade de uma idéia: se apenas uma observação negá-la, ela necessariamente é falsa (claro, estou simplificando um pouco as coisas, mas creio aqui que não estarei fugindo muito da verdade).
Ainda mais grave, essa argumentação é falsa também ao se mentir por mais duas razões: em nenhum instante é esclarecido que o teste do carbono-14 foi repetido mais duas vezes por laboratórios independentes com o mesmo resultado; outros tipos de testes indicam que o sudário não deve ser autêntico e.g. a perícia forense não conseguiu detectar traços de sangue no tecido (as manchas, que são tidas como sangue por muitos, ao contrário deste não são escuraa, apesar da idade, e são quimicamente compatíveis com pigmentos utilizados na Europa medieval).
Pregações doutrinárias
Escrevi isto não com o intuito de fazer um libelo contra a autenticidade do Sudário (sim, sou, como qualquer um pôde perceber, cético quanto a isso), mas porque mais uma vez Galileu falhou no processo de divulgação científica. Este artigo contrasta fortemente com um outro publicado na mesma edição, "Cinco mil anos antes de Cabral", em que apesar de também reportar uma tese polêmica e contrária à visão científica tradicional, ainda que mais terrena (povos europeus e incas teriam se aventurado em terras brasileiras muito antes da descoberta oficial), não toma para si as afirmações dos proponentes da idéia, embora simpatize o autor com elas, e coteja com o depoimento de uma opinião cética.
Afirmações cabais de idéias pouco aceitas pela comunidade científica, negligência investigativa com as proposições, ausência de confrontação com opiniões contrárias, omissão de informação, propalação de meias-verdades e, mais grave, mentir categoricamente vão contra o bom jornalismo científico (e muito disso vai contra qualquer tipo de jornalismo aproximando-se, perdões, mas a comparação é-me inevitável, de pregações doutrinárias).
Dentro do espírito ecologicamente correto poderíamos reprocessar o artigo e tê-lo assim reciclado como um modelo do que não se deveria fazer em termos de jornalismo (científico ou não).
Em tempo: Conforme é dito no próprio artigo, não é nova a alegação da existência de pólens da Palestina mais antigos que a data aceita para o pano. Mas, ao contrário do que se afirma, isso não foi "atropelado pelo rolo compressor" da datação por carbono-14, e sim posto em xeque pela inconsistência dos dados: amostras independentes revelaram conter o Sudário comparativamente muito menos pólen do que a amostra de Max Frei, um criminologista com a credibilidade já abalada anteriormente por sustentar a autenticidade de uma falsificação crassa os diários de Hitler. Amostra a partir da qual foi feita a afirmação.
Mais informações (céticas, naturalmente) em: <www.csicop.org/articles/19990806-shroud/> , em inglês, e <www.epub.org.br/correio/ciencia/cp960815.htm>.
Nota: Depois de Kansas que, conforme um leitor me alertou, confundi com Arkansas (o verdadeiro estado de origem do presidente americano Bill Clinton) , agora é a vez de Kentucky. As autoridades locais de educação aprovaram a substituição nos livros didáticos da palavra "evolução" pela expressão "modificação ao longo do tempo" ("change over time"). Feliz ou infelizmente a notícia não abalou as bolsas de Nova York, valendo então apenas uma pequena nota nos nossos jornais. Para não destoar mesmo não sendo da imprensa , faço apenas uma menção nesta nota ao fim do texto.
(*) Mestrando em Biologia no Instituto de Biociências da USP
SUPERINTERESSANTE
Ciência e o olhar positivista
Rafael de Almeida Evangelista
A recente reportagem publicada na revista Superintessante (setembro/99), tematizando novas abordagens históricas sobre a Guerra do Paraguai, é exemplar com relação ao modo como são tratadas as Ciências Humanas nas revistas científicas. Com raras aparições, as reportagens que tratam de trabalhos científicos do campo das humanidades restringem-se, quase que exclusivamente, a temas da História. E, quando tratam de História, o fazem num modelo que evita problematizá-la e complexificá-la. A abordagem dada se apega ao factual, à história feita por indivíduos, com motivações pessoais e psicológicas, e não por personagens inseridos em grupos sociais com interesses antagônicos aos de outros grupos.
É neste sentido que a reportagem "Guerra no Mercosul", da Superinteressante, é exemplar. Já na manchete da versão on-line a matéria é dividida em duas partes, metade está na edição on-line da revista, metade na edição em papel somos informados de que a reportagem trata da "verdade" sobre a Guerra do Paraguai. Esta "verdade" seria conseguida através da análise de "documentos inéditos, como informações comerciais, dados demográficos, cartas e fotografias".
Não se fala, porém, na abertura ou na descoberta de algum arquivo nos últimos anos. Ou seja, não há nada, entre os documentos e informações consultados, que já não estivesse à disposição dos pesquisadores. Na verdade, a reportagem afirma um novo olhar sobre a guerra, um olhar mais atento a detalhes do cotidiano das batalhas. Trata-se aqui, ao afirmar a descoberta de uma "nova versão", da "verdade", de acentuar a impressão de que foi descoberta a versão definitiva para a Guerra do Paraguai.
A nova versão se oporia a duas outras, mais antigas. A primeira afirmava que a guerra teria se originado de um "erro de cálculo" do então presidente paraguaio Solano López, que teria ousado desafiar a Argentina e o Brasil. A segunda, que o Brasil e a Argentina teriam agido por influência da Inglaterra, interessada em destruir a indústria paraguaia nascente.
Velha versão, mais detalhada
A "nova" versão da Superinteressante nada mais é do que a primeira versão, com mais detalhes. Somos informados sobre a roupa usada pelos combatentes oriundos de todas as regiões, sobre o mate partilhado entre soldados argentinos, brasileiros e paraguaios, mas continuamos a saber muito pouco sobre as causas que levaram os países a uma guerra com tantas baixas.
Sobretudo na parte on-line da reportagem, em que encontramos um perfil do "caráter" de Solano López, fica a impressão para o leitor de que a causa de tudo foi o temperamento do presidente paraguaio. Nessa nova versão, a influência da Inglaterra no conflito, segundo afirma a revista, teria sido diminuída. Mais do que isso, a influência inglesa parece mesmo ter desaparecido como motivação da guerra.
As dificuldades das revistas de vulgarização científica em cobrir pesquisas das Ciências Humanas não devem ser vistas como simples má vontade ou incompetência. Elas são fruto de uma visão particular sobre as ciências, que lhes atribui o estatuto de juízas imparciais da realidade. A maior dificuldade com relação às Ciências Humanas está em que estas se mostram muito mais relutantes em emitir verdades únicas sobre seus objetos. Talvez por isso a História acabe sendo a disciplina mais retratada: porque é passível de ser tratada com uma abordagem factual.
Concepção positivista
Cria-se um círculo vicioso. As revistas científicas divulgam a ciência como objetiva, imparcial e "verdadeira" porque julgam que os leitores concebem a ciência desta maneira e o senso comum continua a julgar como científico apenas o que se afirma como objetivo e imparcial, já que dificilmente têm acesso a uma concepção diferente sobre o conhecimento científico.
Inovadoras com relação à diagramação, ao design e ao uso de gráficos e imagens, as duas revistas científicas brasileiras de maior tiragem, Superinteressante e Galileu, continuam vendo a ciência com os mesmos olhos de 50 anos atrás.
Para elas, fazer ciência não significa uma maneira, entre outras, de conhecer socialmente a realidade, mas da busca de uma verdade absoluta, mensurável, incontestável e universal. Trata-se, na verdade, de uma concepção positivista do conhecimento científico.
(*) Antropólogo, cursando a especialização em Jornalismo Científico da Unicamp

Alimentos transgênicos
O caso da soja transgênica
Desinteresse da mídia no caso da soja transgênica
Brasil na era dos alimentos transgênicos
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