OFJOR CIÊNCIA

OfJor Ciência 2000 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.


JORNALISMO CIENTÍFICO
Décimo planeta e alienação da mídia

Ulisses Capozoli (*)

A idéia de que o Sistema Solar tem um décimo mundo vem do século 19 e a descoberta de Netuno (1846) e Plutão (1930) só contribuiu para aumentar as incertezas a respeito do que ficou conhecido como Planeta X. Mais recentemente, a imprensa tem dado sua contribuição para aumentar as dúvidas entre seus leitores. Boa parte dos despachos de agências internacionais de notícias que chegam às redações de jornais e revistas, no Brasil, está em espanhol e uma tradução precária dessa língua muitas vezes mudou a designação de Planeta X para Planeta Éxis (pronúncia do x em espanhol).

Na edição de 11 de dezembro passado, a página de ciência e tecnologia de O Estado de S.Paulo contribuiu um pouco mais para essa confusão com o artigo traduzido do New York Times, "Miniplaneta além de Plutão intriga cientistas".

O "miniplaneta" não é outra coisa senão um componente do Cinturão Kuiper, um anel de asteróides que envolve o Sistema Solar, além da órbita de Plutão. Essa formação foi prevista, em meados dos anos 50, pelo astrônomo norte-americano de origem holandesa Gerard Peter Kuiper (1905-1973).

Em 1992, o astrônomo norte-americano David Jewitt e a jovem astrônoma de origem vietnamita Jane Luu observaram o primeiro destes corpos. Era um objeto esmaecido, com 480 quilômetros de diâmetro, o 1992 QB1. Em 1997, quando outro desses objetos foi encontrado, o Jornal Nacional, da Globo, fechou solenemente sua edição com a voz pastosa de um apresentador anunciando que "o Sistema Solar tem milhões de planetas".

Alfabetização científica

A matéria publicada pelo Estadão não tem erros. Mas é inadequada aos leitores brasileiros. Analfabetismo científico não é uma condição específica do Brasil. Uma sociedade envolvida com a exploração espacial, como a norte-americana, também tem problemas desse tipo. A diferença é que, nos Estados Unidos e em outros países do Primeiro Mundo, quem tiver interesse pela ciência beneficia-se de uma infinidade de museus, livros baratos, associações de cientistas amadores e outras facilidades. Ao contrário do que acontece aqui.

Críticos mais apressados podem argumentar se faz diferença o fato de o Sistema Solar ter ou não um décimo planeta e a vantagem de se gastar papel e tinta para discutir esse assunto. Uns poucos contemporâneos de Copérnico podem ter dito a mesma coisa: qual a diferença de a Terra ou o Sol estarem no centro do Universo?

A resposta, todos conhecem.

O destronamento da Terra, primeiro do Sistema Solar, depois do centro do Universo, expulsou o homem do cume da criação e trouxe mudanças profundas em todas as formas de conhecimento. Depois de Copérnico, que reabilitou as idéias do grego Aristarco de Samos, o Universo não parou de crescer e envelhecer.

A ciência é a mitologia do nosso tempo. É, desde a revolução científica do século XVII, quem dá uma explicação para o mundo.

O artigo do Estadão, assinado por Kenneth Chang, é inadequado para leitores brasileiros porque não contextualiza a descoberta – uma necessidade básica do jornalismo científico. Foi escrita para leitores de uma outra sociedade e esse é um problema que ainda não despertou a atenção da mídia no Brasil. Aqui, os livros são caros e as tiragens, pequenas. Notícias da imprensa são uma fonte muito utilizada de informação para trabalhos de professores e alunos da rede escolar.

Uma crítica cultural: a submissão absoluta a tudo que vem dos Estados Unidos, sob o diretor de redação anterior, fez com que até a seção de horóscopo do Estadão fosse escrita por um astrólogo norte-americano.

Ciência não é luxo. É uma necessidade. O mundo atual está construído pela ciência e suas criações estão no cotidiano de cada um dos 6 bilhões de moradores do planeta de uma forma mais ou menos evidente. Participar de um processo de alfabetização científica, por parte da mídia, é uma prestação de serviço. Tão necessário (em termos utilitários) como publicar os serviços abertos e fechados nos feriados das cidades grandes: programação de cinemas, teatros, shows e outros espetáculos.

O pão do espírito

A dificuldade de se consumirr ciência no Brasil certamente está ligada às nossas raízes escravistas. Uma sociedade escravista não necessita de ciência. Tem braços humanos, disponíveis para suas exigências. Joaquim Nabuco e José Bonifácio de Andrada e Silva escreveram livros, artigos, panfletos e discursos sobre o obscurantismo escravista e o legado que deixariam para o futuro. É o tempo em que vivemos.

Por que a imprensa não se envolve com um trabalho consistente de divulgação científica? Não há razão para que as pessoas sejam melhor informadas sobre clonagem, aconselhamento genético, organismos geneticamente modificados, energia nuclear ou exploração do espaço entre outros assuntos?

A Folha de S.Paulo poderia dizer que faz isso. Pois bem. Um pouco antes da publicação da história do "miniplaneta" pelo Estadão, a Folha editou uma fotomontagem da estação espacial pairando sobre Brasília. A imagem foi feita pela Boieng e é um insulto razoável à inteligência das pessoas.

O caso aí é simples. O Brasil está participando da estação espacial internacional, a ISS, projeto liderado pelos Estados Unidos – que, para isso, deve contribuir com algo em torno de 160 milhões de dólares, por intermédio da Boieng. Com essa verba, o Brasil terá um quartinho de serviço no amplo apartamento cósmico da Nasa. O país já tem um astronauta em treinamento.

A idéia de participar da estação espacial rende dividendos a uns poucos interessados: à direção do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), à Agência Espacial Brasileira (AEB) e ao vaidoso presidente da República.

O Inpe não contrata pesquisadores desde 1994 e salários irrisórios fizeram que muitos deles deixassem a instituição onde nem o restaurante funciona mais. A AEB foi criada como agência civil para liberar o Brasil das restrições impostas pelos países do clube espacial quanto ao repasse de tecnologias sensíveis no desenvolvimento de mísseis. Na prática, a AEB teve pouco efeito. O acordo que o Brasil negocia com os Estados Unidos para uso da base de Alcântara, no Maranhão, é a melhor prova de que as restrições permanecem.

Quanto à vaidade do presidente da República, é algo aparentemente sem limites. Em recente visita à Venezuela FHC disse, para espanto de sua própria assessoria, que o Brasil vai integrar a Opep, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Na viagem seguinte, quando visitou a França, com sua imagem refletida nos espelhos do palácio onde viveu Napoleão, deve ter se sentido ainda mais à vontade. O espaço cósmico talvez seja o mais adequado para o ego do presidente. Daí o interesse pela ISS.

Fazer a estação espacial pairar sobre Brasília é uma besteira, um desprezo solene a Newton e Einstein. Mas a imprensa engole a isca com o anzol. O que vale é o exotismo.

Certamente o Brasil não vai desistir da estação espacial. Ao mesmo tempo em que o governo corta cestas básicas de alimento para a parcela mais desfavorecida da população, sob o argumento de "paternalismo". A pergunta que uma imprensa preocupada com um mínimo de bem-estar social deveria fazer é se convém mesmo ao Brasil mandar um astronauta para o espaço. Ou se deveríamos alimentar nossas crianças, investir em educação e estruturar adequada e continuamente os centros de pesquisa.

Talvez a leitura de John Kenneth Galbraith, pensador clássico e insuspeito, ajudasse na compreensão da expressão "nós, os socialmente comprometidos", que ele usa freqüentemente. Ela expressa uma preocupação civilizatória, um respeito elementar à dignidade humana, como o de não passar fome. Não apenas de alimento, mas também de idéias e informações.

(*) Jornalista especializado em divulgação científica, mestre e doutorando em ciências pela Universidade de São Paulo.



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