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JOSÉ REIS (1907–2002)
Jornalismo científico e
o legado de um mestre

Ulisses Capozzoli (*)

Na manhã de sexta-feira (17/5), uma pequena multidão de familiares, amigos, colegas e discípulos enterrou o corpo do pesquisador e divulgador científico José Reis, no Cemitério São Paulo, no bairro de Pinheiros, capital paulista. Um dos fundadores da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), J. Reis – como assinava seus artigos – foi o introdutor do jornalismo científico na imprensa brasileira. Há 25 fundou a Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC).

Ao contrário do que costuma ocorrer, o corpo do professor Reis baixou à terra sem nenhum discurso exaltando suas virtudes. Não foi necessário. Os que estavam ali conheciam sua história. Para os leitores menos atentos, preocupados com outras questões, a Folha de S.Paulo, onde J. Reis escreveu sobre ciência desde 1947, dedicou uma página à sua morte. Outras publicações noticiaram sua partida com uma pequena nota biográfica. Assim, quem não o conheceu em vida soube que, naquele dia, um homem notável despediu-se do jornalismo factual para entrar na história do jornalismo.

O que fez de José Reis um homem conhecido, nome do principal prêmio de jornalismo científico no Brasil? A tendência é enumerar uma meia dúzia de qualidades. Poucas, mas o bastante para fazer respeitado o nome de um homem de valor. A verdade certamente é mais complexa. O que define o caráter de um homem tem dimensão histórica. É um processo. Platão, falando da natureza da alma, invoca uma espécie de tratado acertado na fase do "não ser", para ser cumprido na fase do "ser".

A história de J. Reis, segundo ele mesmo relatou em densa entrevista concedida a Alzira Alves de Abreu, publicada na edição de julho/agosto de 1982 da revista Ciência Hoje, da SBPC, e incluída no livro Cientistas do Brasil, tem um começo pouco provável se for considerado que ele foi um homem preocupado em disseminar a ciência entre seus contemporâneos.

Quando aprendeu a ler, J. Reis passou a ensinar o catecismo às empregadas de sua casa. Após as missas do domingo, divertia-se em repetir o sermão às suas entusiasmadas alunas domésticas. O que o movia, quando menino, foi uma enorme curiosidade intelectual – qualidade que cultivou até a avançada idade que viveu. Foi também o que o levou a estudar além do que ouvia em aula; e, dessas investigações paralelas, surgiram cadernos que ele dividiu com colegas. Nas anotações pessoais, nem sempre os conteúdos concordavam com o que se ensinava na escola.

A Alzira Alves de Abreu, pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), J. Reis confessou, citando Duarte Nunes de Leão: "Tentei ensinar aos outros o que de outros não pude aprender". Jurista, lingüista e historiador, Nunes de Leão (1530-1608) certamente não foi uma citação casual. Menos conhecido que Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), D. João de Castro (1500-1548), Pedro Nunes (1502-1578) e Garcia de Orta (1500-1568), Nunes de Leão viveu uma época promissora e integrou um grupo de inteligências que, em Portugal, também não teve quem lhes ensinasse sobre as coisas do mundo. Por isso forjaram o novo e forneceram as bases históricas para a revolução científica do século 17.

No final do depoimento, J. Reis revela:

– Uma das maiores recompensas de meu trabalho tem sido aprender, tentando ensinar. E uma das maiores alegrias é quando escrevo por sugestão do leitor, o que não é raro, mesmo quando a pergunta está longe de minha imediata cogitação; isto me obriga a enveredar por um caminho novo, fazer meu aprendizado e transformá-lo depois em ensinamento. A divulgação envolve para mim dois dos maiores prazeres da vida: aprender e repartir.

Jornalistas científicos convivem com uma série de experiências que não integram as preocupações de seus colegas ao lado, ligados a outras editorias. Uma delas são os contestadores. Normalmente não desistem fácil. Querem provar a todo custo que Newton, Einstein, Darwin e outros equivocaram-se e estão dispostos, desde que tenham a atenção que julgam merecer, a comprovar tudo o que dizem. Um jornalista científico com alguns anos de carreira já teve, ao menos uma vez, que pedir ajuda de seguranças para persuadir seus visitantes, na redação, de que não podem publicar toda a história que, pacientemente, acabaram de ouvir.

Outras questões são as perguntas, a que se refere J. Reis. Um homem quer saber o desencontro que está por trás do fato de a Terra dar uma volta em seu eixo em 23 horas e 56 minutos e, ao final de seis meses, o meio-dia não passar a ser meia-noite.

Além disso, a própria complexidade da investigação científica, mesmo com a ajuda de fontes e consultores, às vezes faz com que alguns assuntos pareçam impossíveis de ser devidamente tratados para um consumo mais amplo. Este é o momento em que brota o desejo de mudar de profissão: montar um negócio, fazer alguma coisa que não seja complicada e viver a vida como ela parece ser aos demais.

A J. Reis não teria sido diferente, o que não impediu que, aos 94 anos, ainda continuasse a publicar sua coluna semanal na Folha de S.Paulo. Um dos fundadores da SBPC, ao lado de Maurício Rocha e Silva, Paulo Sawaya e Gastão Rosenfeld, percebeu mais que nenhum outro a potencialidade do jornalismo para disseminar as idéias científicas e organizar uma resistência política, necessária a este projeto.

Eppur si muove

O ano é 1948. O governador paulista, Adhemar de Barros, ex-interventor estadual, quer manter o Instituto Butantã restrito à produção de soros, quando o instituto já havia se envolvido profundamente com a saúde pública no Estado. A fundação da SBPC consolida a comunidade científica paulista montada em torno da Universidade de São Paulo (USP), criada 14 anos antes com a importação de professores estrangeiros. Os idealizadores da SBPC têm, entre seus planos, a realização de encontros anuais fora do eixo Rio-São Paulo. J. Reis não discorda, mas pessoalmente aposta no jornalismo científico como possibilidade adicional.

A situação da comunidade científica brasileira, após um flerte inicial, complica-se com o golpe militar de 1964. E fica ainda mais difícil a partir de dezembro de 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5). Em 1977, numa reunião da SBPC marcada inicialmente para Fortaleza, ocorre o choque que muitos temem. O encontro anterior, em Brasília, apesar de aberto pelo então ministro do Planejamento, Reis Velloso, encerrou-se com duras críticas ao governo. Em 1977, o governo recusa-se a liberar verbas para a reunião em Fortaleza, como se não fosse dinheiro público. O físico Oscar Sala, que ocupava a presidência da SBPC, procurou a reitoria da USP e teve recusado seu pedido de realizar o encontro no campus daquela universidade. Os tempos são difíceis. O governo faz pressão sobre universidades e empresas públicas para que não cedam espaço nem participem do encontro.

Em São Paulo, uma ampla campanha de solidariedade forma-se em torno da decisão de D. Paulo Evaristo Arns em ceder a Pontifícia Universidade Católica para a reunião anual. Jornalistas, artistas e a população em geral prepararam-se para divulgar, apresentar shows, vender obras, tudo com renda dedicada ao encontro. A população oferece suas casas para abrigar participantes do encontro. O cardeal Arns não cede às pressões oficiais e, no ano seguinte, a PUC será invadida por tropas policiais comandadas pelo coronel Erasmo Dias, então secretário de Segurança Pública do estado. A reunião anual de 1977 da SBPC ocorre sob os olhos de Galileu, num cartaz onde está reproduzida suas hipotéticas palavras frente a Inquisição: "Eppur si muove", referindo-se ao movimento da Terra.

Num artigo intitulado "Enfim os cientistas se reúnem", onde sintetiza as dificuldades por que passa a SBPC, J. Reis escreve que "a comunidade científica (...) sente-se compensada pela compreensão e respeito que o povo deposita nos cientistas. Aos descrentes, a resposta será a qualidade, a ética e a liberdade que, tenho certeza, predominarão nesta vigésima-nona reunião da SBPC". Ao contrário de Rocha e Silva, de temperamento impetuoso e figura de destaque, J. Reis é discreto. Silenciosamente construiu suas trincheiras no jornalismo, na Folha de S.Paulo e em Ciência e Cultura, revista da SBPC, de que foi editor e onde dividiu textos críticos ao governo com Rocha e Silva.

"Aprender e repartir"

A vida de personagens bem conhecidas, o que inclui muitos cientistas, pode parecer a muitos acima das agruras do cotidiano. As revelações dos últimos dias envolvendo as perseguições que Albert Einstein sofreu por parte do FBI e outras instituições ligadas ao anticomunismo, nos Estados Unidos, são uma evidência disso. Governos autoritários, em qualquer país, em qualquer tempo, não suportam contestações, mesmo que seus interlocutores sejam cidadãos de prestígio reconhecido.

No Brasil, cientistas do porte de Mario Schenberg e Anísio Teixeira foram afastados do convívio de seus alunos sob acusação de subversão de idéias. Abusos como esses, e outros que custaram a vida de muitas pessoas, certamente teriam sido mais freqüentes e ousados na ausência de uma resistência como a que foi organizada em torno da SBPC. J. Reis atuou, com sua determinação, discernimento, conhecimento de ciência e do comportamento humano em praticamente todos esses momentos críticos, sem a preocupação de capitalizar resultados.

José Reis foi um homem subordinado aos seus princípios, com completo desapego ao poder. Nos últimos anos viveu um auto-exílio. Limitou seus contatos com o mundo exterior à sua coluna, na Folha. Com seu "Periscópio" acompanhou os acontecimentos até a manhã de quinta-feira, 16/5. Sua ausência, marcada pelo desejo de "aprender e repartir", deixa um vazio num momento de dificuldades crescentes e que só sua obra pode preencher. A Terceira Conferência Mundial de Jornalismo Científico, que a ABJC está organizando para os dias 24 a 27 de novembro próximo, em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, tendo como tema "Jornalismo Científico e Desenvolvimento Humano", será um tributo a J. Reis. É parte do seu legado. Função da instituição que ele deixou.

(*) Jornalista, mestre em ciências pela USP, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC) e editor de Scientific American Brasil


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