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JOSÉ REIS (1907–2002)
O semeador, o cientista e o poeta

Carlos Vogt

O professor José Reis faleceu poucos dias antes de completar 95 anos. Quase um século de vida, mais de 70 anos de dedicação à ciência e às formas de sua divulgação, se se considerar que José Reis, em 1932, já, então, contratado pelo Instituto Biológico, em São Paulo, para onde veio em 1929, publica na revista Chácara e Quintais um texto intitulado "No início da Estação Avícola de 1932 - Algumas sugestões aos avicultores brasileiros", preocupado em dar aplicabilidade aos conhecimentos da área de sua especialidade e em desenvolver uma forma de comunicação simples e direta, capaz de levá-los ao avicultor e à sociedade, em geral.

José Reis iniciava, assim, o que viria a ser uma das marcas mais características de suas atividades como cientista, como cidadão e como jornalista divulgador da ciência:

"Pois foi aí que eu comecei de fato minha carreira de divulgador da ciência. Eu trabalhava ao lado do grande cientista Hermann von Ihering, que um dia entrou na minha sala com o seguinte problema: um modesto sitiante procurara o Instituto para esclarecer qual era o problema que atacava suas galinhas que eram dizimadas por uma ‘peste’.

O Dr. Von Ihering me perguntou: Que peste é essa? Aí está uma coisa que você pode descobrir para ajudar esse pessoal.

Aceitei o desafio e, resolvido esse, outros foram se apresentando. Mas para desimcumbir-me bem dessa missão de aconselhar, informar os sitiantes, tornava-se importante estabelecer contato com eles e aprender a falar-lhes e escrever-lhes com a maior simplicidade. Ao fim de pouco tempo, eu estava escrevendo artigos em revistas agrícolas, como Chácaras e Quintais." [José Reis. Entrevista na Ciência Hoje, nº 1, julho/agosto de 1982]

Em 1936, em co-autoria com Paulo Nóbrega e Annita Swenson Reis, publica o livro Tratado de Ornipatologia, consolidando sua reputação científica na área, a ponto de os colegas e admiradores se referirem a ele como o "famoso médico das galinhas" [ver, por exemplo, o texto de Crodowaldo Pavan "O Guerreiro da Ciência", in Kreins, G. & Pavan, C. (orgs.), A Espiral em Busca do Infinito, NJR, ECA/USP, p. 117].

Daí para frente, o divulgador foi tomando fôlego e crescendo tanto sobre a mesma base poética e humanista do amigo da ciência e do conhecimento, em geral, que, em 1947, no dia 6 de abril, na então Folha da Manhã, inicia a colaboração, primeiro sobre temas administrativos, logo depois, científicos, que se estenderia por mais de meio século, até a sua morte no último dia 16, e mesmo depois dela, já que deixou, como era de seu feitio, artigos preparados com antecedência para publicação posterior.

Em 1948, segundo suas próprias palavras e por sua iniciativa, reúne os professores e pesquisadores Paulo Sawaya, Maurício Rocha e Silva e Gastão Rosenfeld e juntos fundam a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), de que foi o primeiro secretário-geral, passando também a dirigir a revista Ciência e Cultura, lançada no ano seguinte e da qual seguiria como editor até 1954, numa primeira fase e, depois novamente, num segundo momento, de 1972 a 1985.

Aposentado do Instituto Biológico, em 1958 funda, com outros colegas, a Editora Ibrasa – Instituição Brasileira de Difusão Cultural S.A., com o objetivo claro de ampliar os instrumentos e as formas de ação de sua militância científica, cultural, humanista e institucional. Em 1968, por essa editora publicaria, com prefácio de Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, o livro Educação é Investimento, um marco de referência do papel da educação e do conhecimento no desenvolvimento social, político, econômico e cultural dos países e das nações.

Antes disso, em 1962, o professor José Reis assume, como diretor de redação da Folha de S.Paulo, a responsabilidade pela "orientação e pelo preparo de editoriais" com o cuidado, como ele próprio observa, de não prejudicar o seu trabalho de divulgação científica. Fica na função até 1967.

Conhecimento compartilhado

Em 1975, recebe o prêmio Kalinga, da Unesco, a maior honraria internacional para a atividade de divulgador da ciência e vai, ao longo do tempo, acumulando homenagens e deferências institucionais e acadêmicas que, honrosas sempre e merecidas, pelo muito mais que realizou, foram inscrevendo, em sua história de vida, os rituais de sua consagração e do reconhecimento da excepcionalidade de seu caráter, de sua dedicação aos estudos e de seu despreendimento em relação às coisas materiais.

Assim, em 1979, o CNPq institui o Prêmio José Reis de Divulgação Científica; em 1997, quando José Reis completava 90 anos, a Fapesp criou o Mídia Ciência – Programa José Reis de Bolsas de Jornalismo Científico; poucos anos antes, em 1992, a USP, na Escola de Comunicações e Artes (ECA), funda o Núcleo José Reis de Divulgação Científica (NJR); o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp, institui, com o Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb), ambos do Núcleo de Desenvolvimento de Criatividade (Nudecri), o Núcleo de Jornalismo Científico (NJC), com o apoio do Pronex/CNPq e da Fapesp, implantando, em seguida, em 1999, o primeiro Curso de Pós-Graduação, lato sensu, de Jornalismo Científico no país.

A publicação da revista eletrônica ComCiência, em parceria com a SBPC e o relançamento da revista Ciência e Cultura, em sua terceira fase, previsto para julho deste ano, durante a 54ª Reunião da SBPC, em Goiânia, contribuem também para dar medida do quanto tem frutificado a sementeira espalhada por José Reis nos campos e encostas das instituições acadêmicas, científicas e culturais do país.

Como diz a nota enviada pela diretoria da SBPC ao Jornal da Ciência, não há, no Brasil, um fato importante no domínio da ciência e de suas relações com a sociedade, através da atividade cotidiana da divulgação científica - quase uma militância - , que não tenha a marca da presença inteligente e criativa de José Reis

Difícil também é identificar uma iniciativa institucional que seja, que não traga em sua relevância para a ciência brasileira a participação decisiva de José Reis.

Assim foi com a criação da SBPC, em 1948, tendo como parceiros Maurício Rocha e Silva, Paulo Sawaya e Gastão Rosenfeld; assim foi com a revista Ciência e Cultura; assim foi com a luta pela criação da Fapesp; assim foi com a implantação do tempo integral em São Paulo; assim foi com o estabelecimento de uma cultura de aproximação entre o cientista e a sociedade, através de sua atuação, desde 1947, na então Folha da Manhã, depois Folha de S.Paulo; assim é e assim será para sempre na sua presença indelével, na poesia de seus textos sobre ciência, na ciência de quem sabe contemplar a beleza estética do conhecimento e por ele propugnar pelo prazer generoso de compartilhá-lo com todos.

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