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OfJor Ciência 2001 – Oficina OnLine de Jornalismo Científico é uma iniciativa do Observatório da Imprensa, Labjor e Uniemp.


UNIVERSO FINITO
Imprensa, história e significados do mundo

Ulisses Capozoli (*)

Críticos com freqüência acusam a imprensa de manipular a realidade. Não deixam de ter razão, mas não toda ela. Até porque a imprensa é parte da realidade, ao menos enquanto interpretação dos fenômenos do mundo.

Uma das características básicas da imprensa é a velocidade. Os acontecimentos relevantes (sem entrar no mérito do critério de escolha) coletados em qualquer parte do mundo, no interior do Sistema Solar ou nas profundezas do universo, são reportados ininterruptamente.

Apenas essa característica, a velocidade, é o suficiente para fazer com que a imprensa influencie, por exemplo, a História. E aqui certamente cabe a metáfora poética de Braudel entre a História e o mar. Mais especificamente, os movimentos do mar.

As correntes das profundezas, representando a História; e as oscilações da superfície, sujeitas a mudanças meteorológicas rápidas, a imprensa.

Mas o mar, ou "toda a História" como escreveu Paul Veyne, é tanto as profundezas quanto a superfície. O que significa dizer que parte da hostilidade dirigida à imprensa, especialmente pela academia, não passa de inveja pela luz dos holofotes.

A comunidade científica, ao contrário da imagem romântica criada pela imprensa, tem um apego determinado ao ego. Isaac Newton exibiu essas características melhor que qualquer outro homem. Sua vida mundana foi uma queda-de-braço com desafetos intelectuais.

A imprensa pode não ser o espelho mais fiel do mundo. Mas de alguma forma reflete os acontecimentos e se expressa nos movimentos da História. Essas considerações devem justificar algumas das observações que se seguem.

Leitor médio

A primeira delas envolve um trabalho liderado por John K. Webb, da Universidade de Nova Gales do Sul, Austrália, que a Folha de S. Paulo (16/8, pág A16) destacou com chamada de capa. Observando nuvens de matéria pesada (átomos mais complexos, como o oxigênio) a 12 bilhões de anos-luz, os pesquisadores concluíram que as leis da física podem mudar com o tempo. Ainda não está estabelecido que isto, de fato, possa acontecer. Mas o trabalho liderado por Webb abre esta perspectiva.

O bioquímico e filósofo da ciência inglês Rupert Sheldrake, que muitos criticam sem nunca ter lido, levantou essa possibilidade em 1971, quando escreveu The Rebirth of Nature, The Greening of Science and God, que a editora Cultrix traduziu aqui como O Renascimento da Natureza, o Reflorescimento da Ciência e de Deus.

Falar de Deus é quase um pecado nos tempos atuais. Mas Deus, nos escritos de Sheldrake, não tem qualquer relação com o que pensa o papa ou os pastores. É a expressão maior do desconhecido, aquilo a respeito de que Wittgenstein recomendou "calar-se".

Assuntos como esse, devidamente tratados, transmitem às pessoas o que se pode chamar de profundo estranhamento do mundo. Vinte e quatro séculos depois do tempo em que Aristóteles viveu, ainda mantemos um pé nas idéias do filósofo ao acreditar que alguma coisa possa resistir à transformação, ainda que esta coisa sejam as leis básicas do Universo. Se trabalhos como o liderado por Webb confirmarem as previsões de Sheldrake ficará estabelecido que não é assim, que o Universo se transforma no seu todo, mesmo nas suas leis fundamentais, trazendo uma perspectiva nova da originalidade.

Para se considerar o impacto desta idéia sobre a religião, convém lembrar que o génesis bíblico descreve a criação do mundo em sete dias, ou períodos, sendo que, no último deles, o criador descansou. É uma visão de um Deus preguiçoso e limitado. A originalidade do Universo, sugerida pela idéia de que mesmo as leis físicas podem mudar, traz uma nova visão da instância da criação, seja esta instância o que for.

Paradoxos são questões que repelem observadores mais apegados à ortodoxia. Norbert Wiener, criador da cibernética, brinca com um deles em um de seus escritos: "Deus pode gerar uma pedra tão pesada que seja incapaz de levantar?" Aí está a limitação da lógica formal na apreciação de uma questão que o próprio Wiener julga indevidamente colocada. A imprensa tem a obrigação educativa de trazer, ao alcance do leitor médio, questões que ajudem numa certa inteligibilidade do mundo – ainda que isto esteja a anos-luz de uma formalismo vazio que ocupa a maior parte do espaço editorial.

Batalha perdida

A segunda questão, também de transcendência, aflorou na imprensa nas duas últimas semanas, relacionada à determinação do médico italiano Severino Antinori de clonar humanos. O noticiário da quarta-feira, 15 de agosto (Folha de S.Paulo, pág. A12), trouxe informações de que as deformidades encontradas na clonagem de ovelhas e outras animais pode não ocorrer com humanos por uma característica genética envolvendo o código de uma proteina chamada de IGF2R, na sigla em inglês.

Que os seres humanos serão clonados não há dúvida e esta é uma questão que está relacionada à História, e não a uma opinião pessoal. A visão de natureza que temos hoje, resultado da chamada revolução científica do século 17, em sua essência está baseada num modelo de relojoaria. Descartes foi o mentor desse mecanismo. Daí a idéia de que as engrenagens girem sempre da mesma maneira, sem se alterarem.

Os primeiros autômatos, reproduzindo cenas ou figuras humanas, segundo o historiador da informática francês Philippe Breton, foram construídos justamente por relojoeiros. A época de ouro dos autômatos, ainda de acordo com Breton, foi o século 18, quando, entre outros artesãos de renome, Jacques de Vaucanson (1709-1782), na França, e os irmãos Jacquet-Droz, Pierre (1721-1790) e Henri-Louis (1752-1791), na Suíça, "realizaram prodígios". O "Tocador de Flauta de Vaucanson" que funcionava graças a uma dispositivo pneumático e mecânico, tocava doze trechos musicais diferentes e seu pato, animal artificial cuidadosamente fabricado, continha, apenas em uma asa mais de 400 peças articuladas. Assim, o pato de Vaucanson imitava todos os movimentos de um pato natural. As bonecas falantes de Thomas Edison encantaram crianças e adultos e o homem-vapor de George Moore, que caminhava a uma velocidade de 14 quilômetros por hora, não surpreendeu menos.

O famoso Frankestein, de Mary Wollstonecraft Shelley, foi um experimento neste sentido, retomado de maneira dramática por Philip K. Dick em seu Caçador de Andróides. O papa já disse que é contra a clonagem humana, mas se a igreja católica tivesse o poder de ordenar o mundo, Galileu não teria sido possível e, ao menos o lado ocidental da humanidade ainda estaria às voltas com a teologia.

A clonagem humana desperta, neste momento, perguntas ingênuas das pessoas, como a idéia de a cópia, o clone, ser a própria pessoa. Uma lei da física, a da impenetrabilidade dos corpos, ajuda a dar uma resposta negativa a esta dúvida. E aí retornamos à História. Qualquer fato só tem sentido historicamente. Mesmo que seja inesperado, esta será sua característica. A natureza central da clonagem, ao menos como foi exposta por um escritor atormentado como Philip Dick, é a de um clone não ser menos humano que um humano comum. Mas para chegar-se a este ponto não é preciso invocar a clonagem. A desigualdade na distribuição da riqueza no mundo, criando continentes inteiros de excluídos, caso da África e de parte da América Latina, certamente é o bastante para demonstrar o não-reconhecimento da humanidade em todos os homens. A imprensa raramente faz estas conexões.

Na contramão desses acontecimentos o Estado de S. Paulo (19/8, pág. A12) publica uma matéria traduzida do jornal inglês Guardian: "Visão apocalítipica oculta progresso humano". À primeira vista parece uma abordagem crítica, depuradora dos excessos cometidos pela mesma imprensa. Parece, mas certamente não é.

Quando Malthus escreveu seu trabalho de demografia com previsões desastrosas, foi combatido, entre outros, pelo pai de Mary Shelley, um anarquista histórico que acusou Malthus de desconsiderar a criatividade humana. O problema de Malthus foi de restrição e não de ousadia. Quando Rachel Carson escreveu seu Primavera Silenciosa, denunciando o poder destrutivo de pesticidas como o BHC, medidas corretivas foram tomadas em todo o mundo. Demoraram um certo tempo, mas ocorreram. Não fosse essa cautela e hoje muitas espécies, além das que estão em extinção, teriam desaparecido.

Um certo espírito conservador pensa o mundo como uma infinitude. É uma posição historicamente superada. Não só o mundo, a Terra, mas também o Universo, são finitos. Se o Universo fosse infinito, demonstrou Edgar Allan Poe com seu Eureka (1848), a noite não seria escura.

O material publicado pelo Estadão, traduzido, como a maior parte do material de ciência editado pelo jornal, é parte de um esforço voluntarioso para ordenar um caos crescente. É evidente que um material desse tipo tem atrás de si um forte conteúdo ideológico. É uma forma de se dizer que o diabo não é tão feio e, assim, abrandar o clima político interno por um efeito que os psicólogos chamariam de transferência. Estratégias deste tipo costumam ser as últimas armas utilizadas numa batalha perdida.

Astrologia

É antiga a discussão envolvendo a pretensa neutralidade da ciência. A ciência que Francis Bacon elegeu como bem maior da humanidade hoje está na base do chamado "desemprego estrutural". Não por culpa da ciência em si, mas das aplicações feitas com o conhecimento científico. Esperar discernimentos como este do pensamento conservador é fazer o que nossos avós chamavam de "chover no molhado". Aí há um espaço grande para a memória, mas pequeno para a inteligência. O trabalho de Webb, sobre a mutação das leis básicas, também aqui sugere fortemente a impossibilidade do imobilismo conceitual.

Por tudo isso foi particularmente interessante a edição que a Folha fez em seu suplemento dominical Mais! sobre astrologia. O ex-ministro de Ciência e Tecnologia, Israel Vargas, costumava martelar os ouvidos de jornalistas com uma pregação contrária à publicação diária de horóscopos pelos jornais, como se esse fosse um crime particular contra a ciência.

A verdade é que a astrologia, como parte das artes divinatórias, surgiu na Mesopotâmia, atual território do Iraque, onde também nasceu a escrita e, com ela, a História. Isso não significa defender a astrologia, ou justificar os horóscopos (que até recentemente o Estadão mandava fazer nos Estados Unidos para ser publicado aqui).

A astrologia, que na Idade Média era ensinada em universidades européias, está na base da astronomia – como a alquimia está na história da química. A diferenciação entre uma e outra coisa é uma questão de interpretação. Quanto a dizer o que é ou não ciência, o desafio é maior que parece à primeira vista. Evidentemente que astrologia não é ciência, mas para os milhões de pessoas que recorrem aos horóscopos a cada dia essa diferença pouco importa.

Em seu último livro, O Mundo Assombrado pelos Demônios, o astrônomo e divulgador científico norte-americano Carl Sagan lamenta a impotência da ciência em moldar uma nova imagem do mundo, acessível a toda a sociedade humana. Parte disso é responsabilidade dos próprios cientistas que utilizaram e utilizam o conhecimento como sinônimo de poder.

A astrologia, como outras atividades, é parte de um esforço de inteligibilidade do mundo que a ciência, como reconhece Sagan, falhou em fazer. De alguma forma, hoje, ela pode ser parte de um tributo pago (que Sheldrake chama de "dessacralização do mundo") pela ciência moderna ao reduzir a natureza a um mecanismo de relógio. Joseph Campbell, em Poder do Mito, vai mais longe. Diz que as grandes cidades são violentas, sinônimo da insensibilidade humana e ausência de compaixão, porque o mitos foram embora. Assim teríamos perdido o elo com a Natureza e passado à condição do que Loren Eiseley chama de "órfãos cósmicos".

(*) Jornalista especializado em divulgação de Ciência, historiador da ciência e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)



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