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REPOSIÇÃO HORMONAL
Viva a histeria

Luciana Christante (*)

Dada a chance, a imprensa não perde a oportunidade de espinafrar a medicina. A divulgação do estudo americano sobre os riscos da reposição hormonal não só abalou a já fraca confiança da população em relação aos médicos, como também mais confundiu do que esclareceu. E mais uma vez mostra como a interpretação dos fatos científicos pela imprensa é problemática. Desmembrando o lide da reportagem de capa da revista Época de 15/7/2002, cujo título é "Traídas pela medicina", dá para perceber que o que não falta é sensacionalismo. A crítica vale, é claro, para vários outros veículos que deram a notícia.

"Um estudo rigoroso patrocinado pelo governo americano e publicado no Journal of American Medical Association provou que comprimidos diários à base de estrogênio e progesterona, usados continuamente por mais de cinco anos, elevam as chances de a mulher ter doenças mortais."

Se um estudo não for rigoroso não passa pela revisão por pares, procedimento obrigatório em qualquer periódico científico indexado, quanto mais numa revista com altíssimo índice de impacto como é o Jama.

Tem que ler até o fim

A pesquisa não foi patrocinada diretamente pelo governo americano e sim por uma agência estatal de fomento à pesquisa, no caso o The National Heart, Lung and Blood Institute. Dizer que o estudo foi pago pelo governo americano é tão verdadeiro quanto dizer que o projeto genoma foi financiado pelo governo do estado de São Paulo (leia-se Fapesp). O problema é que, em geral, tratando-se de pesquisa brasileira (com exceção do genoma) ninguém se preocupa com a origem do dinheiro.

Embora a combinação estrógeno/progesterona tenha elevado o risco de as mulheres contraírem doenças mortais, como explica a reportagem, o artigo original e o editorial que o acompanha enfatizam que o número de mortes no grupo tratado com hormônios não foi diferente do grupo que recebeu placebo.

"Os percentuais assustam. Um deles indica que essa combinação hormonal aumenta em 26% o risco de câncer de mama. A avaliação de 16 mil voluntárias, ao longo de sete anos, também apontou um crescimento de 29% no risco de ataques cardíacos."

A leitura do editorial do Jama seria um bom alerta aos repórteres ansiosos por números espetaculares. Diz o texto que "embora os resultados do estudo sejam expressos em termos de risco relativo, o que é apropriado para estudos de causa, quando aplicados à prática devem ser traduzidos em risco absoluto. O risco individual de dano ao indivíduo é muito pequeno. Como demonstrado pelos autores, o risco aumentado da combinação estrógeno/progesterona significa que, em 10 mil mulheres tomando a medicação durante um ano, haverá mais 7 eventos cardíacos, mais 8 cânceres de mama, mais 8 derrames, mais 8 embolismos pulmonares, menos 6 cânceres colo-retais e menos 5 fraturas de bacia, em relação ao grupo-controle".

O gráfico que mostra esses resultados – de forma extremamente didática – está no site do grupo de pesquisa para informar as participantes <www.whi.org/update/2002update.asp>. Será que os jornalistas viram?

"Esse dado derrubou o mito, propalado por muitos médicos, de que a reposição seria capaz até de prevenir infartos e derrames."

Mais lenha na fogueira

A idéia de que a reposição hormonal pudesse prevenir infartos e derrames não é mito, mas advém de outros estudos, também rigorosos, financiados por respeitadas agências de fomento e publicados em revistas científicas. Aliás, essa foi a motivação do atual estudo que, por ironia, acabou chegando a resultados discordantes com os previamente publicados. Portanto, se os médicos divulgaram esses dados, o fizeram embasados em evidências científicas, e não necessariamente de forma leviana, como sugere o texto.

"Diante das evidências do perigo, as autoridades americanas decidiram interromper bruscamente o estudo e enviaram cartas às voluntárias convocando-as a abandonar o tratamento."

As autoridades americanas nada têm a ver com isso. A decisão partiu do comitê de monitoramento de dados e segurança, que faz parte do estudo não por caridade, mas porque assim manda o protocolo de pesquisa.

"O pânico propagou-se no mundo inteiro. Assim como ocorreu nos Estados Unidos, uma multidão de pacientes brasileiras congestionou as linhas telefônicas dos consultórios. Sentiam-se traídas pela medicina. Confiavam na segurança do tratamento, garantida por médicos, indústria farmacêutica e autoridades de saúde."

Nenhum tratamento é totalmente seguro. A medicina trabalha com margens de segurança, que podem ser toleráveis ou não. No caso específico, sempre houve muitas dúvidas sobre a relação risco/benefício, e a literatura científica nunca chegou nem perto de um consenso. O que faltava eram evidências concretas sobre possíveis riscos.

É direito do paciente (logo, dever do médico) receber informações claras, objetivas e compreensíveis sobre hipóteses diagnósticas; diagnósticos realizados; exames solicitados; ações terapêuticas, riscos, benefícios e inconvenientes das medidas propostas e duração prevista do tratamento. Pena que os pacientes não reivindiquem todos os seus direitos, que os médicos não exerçam todos os seus deveres e que a imprensa se preocupe apenas em alimentar a fogueira com mais lenha.

(*) Farmacêutica, ex-aluna do curso de Jornalismo Científico da Unicamp <christante@bol.com.br>

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