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JORNALISMO CIENTÍFICO
Transgênicos e a questão da fome

Flávio Sposto Pompêo (*)

O artigo "Transgênicos e responsabilidade social", de Ulisses Capozzoli, mostra uma faceta interessante da maneira com que a mídia lida com os transgênicos. Segundo o autor, a mídia dá espaço bem mais amplo aos ambientalistas antitransgênicos do que aos defensores dos alimentos geneticamente modificados. A imagem que ele desenha, porém, é semelhante à mostrada pela mídia: nas reportagens sobre o assunto, os defensores dos transgênicos são cientistas, enquanto os críticos dos transgênicos invariavelmente são turbas enfurecidas de ambientalistas, movidos por uma raiva quase religiosa, que destroem irracionalmente (e ilegalmente? Muitas vezes são caracterizados como criminosos, associados a movimentos sociais marginais, como o MST etc.) as plantações de transgênicos, sem motivo aparente.

Até que ponto esta caracterização é justificada?

A questão central do artigo, porém, é o fato de milhões passarem fome no mundo. O autor dá a entender que tal acontecimento se dá pelo déficit na produção de alimentos, e que o incremento na produção de alimentos, por meio de sementes mais produtivas, no caso as transgênicas, poderia ajudar a sanar este problema. Obviamente, isso não é verdade.

Não há déficit de comida no mundo. Como bem se sabe, o ser humano atualmente produz comida suficiente para alimentar mais de 8 bilhões de pessoas, enquanto existem pouco mais de 6 bilhões de habitantes no mundo. O problema, claramente, não está na baixa produtividade das lavouras, nem no déficit da produção em relação à demanda de alimentos, e sim no sistema econômico mundial, em que os alimentos não chegam aonde deveriam. É mais vantajoso, economicamente falando, destruir alimentos no caso de excesso de produção do que distribuí-los aos que passam fome.

Questões omitidas

Onde está a solução para a fome, então? Ao menos em teoria, programas como o Fome Zero são muito interessantes, ainda que com enfoque emergencial. Tal programa, porém, vem lidando com a questão estruturalmente: não se pode ficar eternamente neste paternalismo, de fornecer às pessoas o mínimo necessário para sua subsistência; é preciso criar as condições necessárias para que as pessoas possam se manter por si mesmas. É o famoso ensinar a pescar, em vez de dar o peixe. A simples existência de transgênicos, apontados como interessantes por Capozzoli por serem adaptáveis a solos mais pobres ou a regiões menos produtivas, obviamente não soluciona o problema, já que os que não têm o que comer não dispõem de solos pobres para plantar, nem de crédito para comprar sementes etc.

Um dos pontos defendidos por Capozzoli, o de permitir que a comunidade científica brasileira desenvolva suas próprias pesquisas nesta questão, tem validade enorme. A afirmação do autor de que não é necessário abandonar o cultivo tradicional para plantar transgênicos, porém, não é verdadeira: em muitos casos, os transgênicos "contaminam" a plantação tradicional. As duas não podem ser conciliadas. O perigo dos transgênicos está na questão mencionada superficialmente por Capozzoli: a das multinacionais. Muitos já denunciam o fato de que multinacionais modificam geneticamente as sementes transgênicas para que estas se tornem estéreis a partir da segunda geração. A utilização de tais sementes, como já mencionado acima, só faz sentido com a eliminação das plantações tradicionais. O que geraria dependência tecnológica permanente: até que ponto isso é interessante, para qualquer país?

Infelizmente, são estas questões, fundamentais para a discussão, que não são levantadas pela mídia, quando mostra ambientalistas enfurecidos destruindo plantações de transgênicos.

(*) Estudante de Ciência Política na Universidade de Brasília

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