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OFJOR CIÊNCIA STEPHEN JAY GOULD (1941-2002) Paulo Roberto de Almeida (*) Depois de quase duas décadas de luta contra o câncer, morreu no último dia 20, em sua residência de Manhattan, em Nova York, o grande cientista darwinista americano Stephen Jay Gould. Autor de dezenas de livros de pesquisa rigorosa e de centenas de artigos acadêmicos e de vulgarização científica, Gould ficou conhecido pela sua teoria dos equilíbrios pontuados e por uma visão essencialmente histórica do darwinismo, o que o colocou na linha de frente de alguns famosos debates da ciência biológica. Seu primeiro livro publicado no Brasil foi Darwin e os grandes enigmas da vida (São Paulo, Martins Fontes, 1987), lançado nos Estados Unidos uma década antes, em 1977, sob o título de Ever since Darwin (Nova York, Norton). Um dos mais famosos darwinistas americanos, Gould ensinava Geologia, além de Biologia e História das Ciências, na Universidade de Harvard, detendo uma lista impressionante de publicações, tanto no terreno propriamente acadêmico, como no da divulgação científica de boa qualidade, aquilo que os franceses chamam de "haute vulgarisation". Stephen Jay Gould ficou famoso como apresentador de uma crônica mensal na revista Natural History, sob o título geral de This View of Life, frase retirada do parágrafo final da Origem das Espécies, de Darwin. Seus ensaios costumavam tratar agradavelmente dos mais diferentes temas-problema ligados aos diversos campos das ciências naturais: biologia, paleontologia, geologia, zoologia histórica etc. Os leitores habituais da The New York Review of Books também já estavam acostumado a se deparar, em freqüência praticamente trimestral, com magníficos ensaios e resenhas críticas de importantes obras cobrindo esse vasto leque de disciplinas, trabalhos posteriormente coletados em volumes independentes. O último número da Times Literary Supplement (nº 5.172, 17/5/02) trazia, aliás, a resenha do livro mais recente de Stephen Jay Gould, The structure of Evolutionary Theory (Cambridge, Harvard University Press, 2002, 1.433 pp; título já resenhado no New York Times de 17/3/02), por Steven Rose, que rendia tributo ao grande cientista e confirmava que, ao longo dos anos, ele se tornara "particularly polemist". Os leitores de seus muitos títulos conheciam a preocupação de Gould em ultrapassar a estrita barreira da especialização científica para alcançar um público mais amplo e diversificado. Seus livros se sucediam numa cadência praticamente anual, alternando os volumes de artigos da Natural History com vários trabalhos de maior fôlego. Citemos um estudo sobre a teoria da recapitulação – Ontogeny and Phylogeny (Harvard University Press, 1977) –, magnífico livro sobre as tentativas duvidosas de classificação dos grupos humanos; ou The Mismeasure of Man (Norton, 1981), uma história revisionista sobre a descoberta do tempo geológico; Time’s Arrow, Time’s Cycle (Harvard, 1987), visão diferente das hecatombes geológicas; Wonderful Life: the Burgess shale and the Nature of History (Norton, 1989), além de muitos outros compêndios, obras coletivas ou participações em livros publicados no exterior. Todos esses trabalhos davam continuidade aos esforços de Gould no sentido de ultrapassar as fronteiras estritas da história natural para penetrar nos campos minados das ciências humanas, sem que daí resultasse qualquer prejuízo para os padrões normalmente exigidos de um trabalho essencialmente científico. The Mismeasure of Man, por exemplo, analisava os vieses políticos e ideológicos subjacentes aos modelos de aferição das capacidades individuais. A despeito de sua notável diferença temática, o que unificava os diversos ensaios reunidos nos livros de Gould era certamente a firmeza das opiniões teóricas do autor. A sombra de Darwin paira evidentemente sobre todos eles, a começar pelo primeiro, que trazia o nome do "founding father" em seu título. A missão dos darwinistas, segundo Gould, deveria ir além de simplesmente "demonstrar" a teoria da evolução: eles devem também sustentar o mecanismo fundamental da variação acidental e da seleção natural como a causa primária da mudança evolutiva. Mas Gould não o fazia nos moldes habituais do darwinismo ortodoxo ou segundo a moderna síntese neodarwinista, e sim como verdadeiro iconoclasta. Com Niles Eldredge ele formulou, no começo dos anos 70, a "teoria dos equilíbrios pontuados", que discordava de Darwin justamente onde este acreditava que a natureza não dava saltos. Ele acreditava que a seleção natural alternava longos períodos de stasis evolutiva com bruscas acelerações do processo de criação de novas espécies. Como acontece, aliás, nos processos históricos. Steven Rose destacava, a propósito, em sua resenha do TLS, que um dos pontos fortes da obra de Gould era o fato de que "ele é apaixonadamente voltado para a história em seu próprio domínio". Seguindo a trilha do biologista russo-americano Theodosius Dobzhansky, Gould também achava que nada na biologia faz sentido a não ser à luz da história: "a história das espécies, isto é, a evolução, a história do organismo, isto é, o desenvolvimento; e a história da própria ciência, que se enquadra em nossos atuais debates e sem a qual seria impossível compreender muitas controvérsias modernas" (Rose, TLS, p. 12). Uma das controvérsias mais famosas opôs Gould ao ultra- darwinista Richard Dawkins, defensor da teoria do "gene egoísta". Ele também foi presidente da SBPC americana, a AAAS (onde também se encontra uma nota sobre seu falecimento <http://www.aaas.org/>) e, como tal, um defensor constante do ensino da teoria evolucionista nas escolas americanas, onde ela se encontra sob constante ataque de uma fauna diversificada de anti-evolucionistas, sob a forma de criacionistas, partidários da versão bíblica tradicional e outros representantes do obscurantismo educacional. Os interessados em conhecer um pouco mais sua obra e sua teoria dos equilíbrios pontuados podem consultar o artigo que publiquei na revista mensal da SBPC quase uma década e meia atrás: "Um darwinista heterodoxo: Stephen Jay Gould e a sobrevivência dos (cientistas) mais aptos", Ciência e Cultura (São Paulo, vol. 40, nº 12, dezembro de 1988, pp. 1.154-1.163). Recebida com ceticismo pelos cientistas do chamado mainstream, a teoria de Gould e Eldredge não deixava de ostentar um certo sabor marxista, com sua visão de "rupturas revolucionárias" depois de longos períodos de "dormência social". Uma primeira nota necrológica sobre Gould, a que certamente se seguirão dezenas de outros obituários em todos os veículos importantes do campo científico e de informação geral, foi publicada no mesmo dia no website do jornal The New York Times <www.nytimes.com/2002/05/21/obituaries/21GOUL.html>. (*) Sociólogo; e-mail: <pralmeida@mac.com>; sítio: <www.pralmeida.org> | ||