CIÊNCIA

MÍDIA & SOCIEDADE
Observações a olho nu

Ulisses Capozzoli

Se pudesse retornar para reavaliar suas previsões Francis Bacon ficaria desapontado.

O pai da ciência moderna previu que uma sociedade capaz de desenvolver a ciência não teria outros problemas senão aqueles gerados pela própria ciência: o desdobramento infinito do conhecimento.

Mas, exatos 376 anos após a publicação póstuma de Nova Atlântida, parte significativa dos mais de 6 bilhões de habitantes do planeta vive em condições que remetem aos piores momentos da Idade Média.

Pelo menos um terço da população da Terra não dispõe de água potável e a água é um dos principais vetores para a transmissão de um grande número de enfermidades capazes de levar à morte, ou comprometer seriamente a qualidade de vida.

O mesmo número de pessoas que não dispõe de água potável jamais experimentou a experiência banal de falar ao telefone.

A África, assolada pela Aids, é a metáfora mais dramática da falência do conhecimento científico-tecnológico em promover o bem-estar com que Bacon sonhou ao longo de sua vida agitada e não muito longa (68 anos).

Mas a miséria e o sofrimento não se restringem à África. Espalham-se como as antigas pestes entre as nações menos favorecidas pelo desenvolvimento social.

Terceiro Mundo é uma expressão que, tecnicamente, deixou de fazer sentido com a implosão da União Soviética. Quanto a "países em desenvolvimento", se é que fez sentido, não faz agora, quando os dados apontam para um inequívoco empobrecimento do bloco dos que já não eram favorecidos.

Certamente é interessante refletir sobre a situação no Brasil no contexto dessa ordem crescentemente perversa, lastreada no domínio do conhecimento.

Obstáculos ao novo

O Brasil é um país pobre?

A resposta a essa pergunta certamente é mais complexa que supõe um raciocínio sumário.

O Brasil é um país rico, na verdade o mais rico do mundo, em recursos hídricos, por exemplo. Dispõe de pelo menos 14% dos estoques de água doce do planeta. Mas isso não é o bastante para assegurar que a maioria da população tenha acesso à infra-estrutura básica satisfatória, relacionada à água potável e rede de esgotos.

O Brasil é rico em recursos hídricos, mas pobre em consciência crítica capaz de atuar sobre esses recursos e fazer com que eles se transformem em bem-estar social.

Por que somos pobres em consciência crítica?

Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Hollanda considera que Portugal não fermentou a condição história que produziu a Revolução Francesa. Não houve, em Portugal, a ruptura de um poder anacrônico e sua substituição por forças que traduziam uma nova ordem. O que houve em Portugal, e isso foi transferido para o Brasil, foram "negociações". Acordos, acertos, que foram da compra de títulos de nobreza à manutenção de privilégios aos que já detinham esse benefício. Assim, o bem-estar restringiu-se a grupos sociais e não se espalhou pela sociedade como um todo.

Exemplo claro desses privilégios são os magistrados que neste momento ameaçam greve contra aposentadorias propostas em torno de R$ 12.700, com o argumento claramente chantagista de que devem precaver-se contra a corrupção em suas funções. Mas isso não impediu que o juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, embolsasse, em valores subestimados pela inflação, perto de 200 milhões de reais de recursos públicos. E a não devolução desses recursos tampouco inibiu seus pares a permitir que ele viesse a desfrutar de um confortável recolhimento doméstico, suposto substituto da prisão onde, por um princípio elementar de Justiça, deveria estar confinado.

Magistrados estão intimamente ligados a privilégios sociais e, de alguma maneira, ao percurso da ciência no Brasil.

Até 1808, quando a corte portuguesa desembarcou aqui, fugindo da invasão napoleônica, os filhos da elite rural se dirigiam a Portugal para providenciar formação em Direito. No Brasil, até 1808, a coroa portuguesa vetava a pesquisa científica e a produção de livros. O que tivemos, em função dessa restrição, foi, na melhor das hipóteses, uma formação beletrista incapaz de um juízo crítico mais amplo do mundo.

Não por acaso, mas reflexo desse formalismo com que se enxergava o mundo, Pontes de Miranda, um dos grandes juristas brasileiros, não hesitou em questionar os trabalhos teóricos de Albert Einstein sobre a relatividade.

Quando Einstein passou pelo Brasil (em viagem para a Argentina), em maio de 1925, não havia no país mais que meia dúzia de inteligências capazes de se dar conta de seu trabalho. Pontes de Miranda, mesmo com certa consciência social, o que já é um mérito entre nós, assumiu o formalismo legal de um pretenso juiz cósmico e assim pretendeu, com sua pena limitada, ordenar o Universo.

Num ambiente intelectualmente acanhado ainda hoje, o governador de São Paulo Geraldo Alckmin vem repetindo à exaustão, a propósito de invasões de terras e moradias, que "São Paulo é um estado respeitador da lei". Se o Brasil, e não apenas São Paulo, fosse, de fato, uma nação respeitadora da lei, cumpriria o que está escrito em sua carta magna, a Constituição, e todo cidadão teria uma vida minimamente digna. Não seríamos todos ricos, pois não se trata absolutamente disso. Mas teríamos dignidade. Teríamos todos um teto, um abrigo e teríamos esperança no futuro.

No domingo (27/7), O Estado de S. Paulo manchetou sua edição com o governador: "Invasões afetam o crescimento". O que afeta o crescimento é uma ordem social arcaica e não, evidentemente, as invasões, por mais perturbadoras que possam ser. E elas de fato são. São brutas, vergonhosas e primitivas. Razões mais que convincentes para que deixassem de existir. Mas isso só pode ser conseguido com maior justiça social. Não com a pressão formal da lei. Daí, mais uma vez, a improcedência do privilégio dos que não se satisfazem com aposentadorias de R$ 12.700.

Ao dar cobertura acrítica a interpretações como a defendida por Alckmin, os meios de comunicação social deixam de cumprir minimamente o papel que deveriam desempenhar para a ampliação dos debates, oxigenação das idéias e, com isso, acenar com encaminhamentos mais promissores que os prometidos pela velha tradição.

Os historiadores do futuro verão nossa época como exemplo de barbárie. Não pela invasão de prédios abandonados e de terras improdutivas, mas pela insensibilidade social de uma elite privilegiada em oferecer perspectiva de vida decente a uma parcela significativa da população. Educação e dignidade são a essência da democracia. Se não existirem, todo o resto será uma farsa.

Alheia a tudo isso, restrita ao pensamento pequeno, imediatista, boa parte da mídia é, por essas limitações ideológicas e intelectuais, um dos obstáculos ao novo. Quem duvidar que leia o que publicaram os jornais brasileiros à época da abolição formal da escravidão. Ou se informem de como a elite rural brasileira recebeu as primeiras levas de trabalhadores europeus, expatriados pela pobreza, que vieram suprir a força de trabalho até então concentrada em braços escravos.

São histórias nada edificantes e por isso mesmo pouco conhecidas.

Instinto de sobrevivência

Com certa freqüência, na mídia impressa e na TV, proclama-se que o Brasil é o campeão mundial na reciclagem de produtos como latas de cerveja e papel/papelão, como se fosse essa uma invejável virtude nacional.

A verdade é que isso só ocorre pela existência de uma legião crescente de miseráveis, sem outra fonte de subsistência que não o humilhante e perigoso trabalho de remexer o lixo, o rejeito dos mais beneficiados, para retirar daí a precária sobrevivência.

Se boa parte dos jornalistas abrisse os olhos para observar o que está ocorrendo nas grandes cidades veria, em cada esquina, em cada quarteirão, o mesmo tipo de gente: velhos, crianças e adultos mendigando por uma moeda. Ou ameaçando, com paus, pedras e cacos de vidro, que alguma coisa lhes seja dada para a compra de um trago ou uma pedra de crack, fuga desesperada para o horror de estar neste mundo.

Se abrirmos os olhos, todos nós, veremos homens, mulheres e crianças puxando carroças, como se fossem animais (lei municipal, em São Paulo, proíbe o uso de animais puxando carroças em vias públicas, o que tampouco é respeitado) transportando rejeitos de metais, papéis e toda uma parafernália de sobras.

Esses homens, que arrastam carroças, costumam deslocar-se na contra-mão do trânsito. Fazem, assim, um protesto silencioso, carregado de ódio, muitas vezes diluído no odor forte do álcool, com seus corpos inchados. Zumbis, na acepção etimológica: fantasmas que vagam pela noite vazia, que pode ser noite ou dia.

Quando exibem a retórica legalista, os magistrados que rejeitam R$ 12.700 de aposentadoria não questionam o fato de as leis que incorporam em seus discursos corporativos não refletirem quase nada da realidade desses tempos duríssimos.

Não questionam, por exemplo, o fato de policiais, que também não devem ser corrompidos no exercício de seu trabalho, ganharem salários miseráveis e muitas vezes, ao menos nas grandes cidades, alimentarem-se de favor em restaurantes, lanchonetes e padarias.

Não levam em conta o fato de o funcionalismo público, categoria que integram, abrigar também professores, entre outras profissões que deveriam ser nobres, que recebem salários vergonhosos, incompatíveis com a tarefa de formar novos cidadãos.

Ninguém, em sã consciência, defende invasões, agressões e violência. A brutalidade mutila o homem, mas, quando a miséria cresce, essa alternativa se manifesta. É parte da estratégia da vida. Da espantosa determinação da vida em resistir a todas as ameaças e restrições.

A vida pode ter sido extinta na Terra mais de uma vez, ao longo dos 4,6 bilhões de anos de idade do planeta. Mas sempre retornou. Esta, sim, é uma legislação cósmica. E, ao que tudo indica, válida para qualquer mundo capaz de oferecer condições favoráveis à sua manifestação.

Vista por este ângulo, as invasões de terras e moradias, ainda que indesejáveis, e sob todos os aspectos desconfortáveis, são uma reafirmação da vida. E devem ser interpretadas assim, pelas inteligências mais abrangentes. Pelos homens capazes de se solidarizarem com a humanidade inteira e não com os interesses pequenos e imediatos.

Os protestos dos desfavorecidos são, historicamente, a força social capaz de reformar as leis, embaçadas por anacronismos como a pretensão nada razoável dos que acham pouco aposentadorias de R$ 12.700. Mesmo que governadores, donos de jornais e muitos jornalistas (por razões que vão do obscurantismo ao puro oportunismo) entendam que deva ser de outra forma. Que os miseráveis devem esperar um pouco mais, abrigados sob pontes, viadutos e casas de papelão.

O instinto de sobrevivência, por trás desses movimentos (que deve abrigar oportunistas, como acontece sempre, em qualquer circunstância social) é uma lei natural. É uma estratégia básica. Uma adaptação ao meio, como descobriu Charles Darwin há quase 200 anos.