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RELAÇÕES PERIGOSAS
Pedofilia, psicanálise e mídia
Potiguara Mendes da Silveira Jr. (*)
As relações da psicanálise com a mídia sempre foram problemáticas, mas como a grande imprensa está sempre fazendo referências a psicanalistas ou veiculando textos redigidos por eles, é importante reconsiderar estas relações no momento atual. Comecemos lembrando que, nos anos 80, a atividade clínica da psicanálise se redefiniu como "Clínica Geral" (**) passando a incluir na mesma concepção tanto as intervenções realizadas nos consultórios particulares quanto as dirigidas aos acontecimentos do mundo. Ponto importante desta redefinição foi retirar o eixo da operação clínica do âmbito da chamada interpretação, já que estava evidente que ela se transformara em algo de uma banalidade tal que ocorria a toda hora na rua, nas empresas, na televisão, na publicidade... E hoje, no cenário difuso de "cinismo" pós-moderno em que vivemos, apesar de a vontade hermenêutica permanecer ainda forte em muitas áreas do conhecimento, está difícil constatar em qualquer "interpretação" coisa diferente da tentativa interesseira de meramente trocar uma estória por outra (sendo a segunda nem mais nem menos fundamentada que a primeira). É nesse ambiente assim globalizado que, a partir da análise de uma matéria jornalística, gostaríamos de propor um pequeno exercício de Clínica Geral quanto a certas posições que psicanalistas têm tomado na mídia sobre o tema da Pedofilia.
Crime, doença ou simplesmente "pedofilia"
Vamos então direto à revista Domingo (n° 1358, Jornal do Brasil, 12/5/02), que, no Dia das Mães, trouxe na capa o título "Pedofilia". Embaixo: "Por que alguns adultos sentem atração sexual por crianças? Eles são doentes ou criminosos? Como tratá-los e o que fazer para ajudar as vítimas?" Texto este vazado na foto de dois braços cujas mãos se tocam num gesto inicial em que podemos supor um adulto prestes a conduzir uma criança.
Primeira observação: se os pequenos já são tratados como "vítimas", não é preciso muita inteligência para imaginar a resposta dada à pergunta se os adultos "são doentes ou criminosos". Logo nas duas primeiras páginas da matéria (20-21), temos a resposta. À esquerda, outra foto apresenta as mesmas mãos da capa agora uma segurando a outra, e, à direita, em destaque, lê-se: "Desejo do mal", seguido de: "A pedofilia provoca repulsa como poucos crimes. Por que há adultos que sentem atração por crianças?" Abaixo, o texto da matéria propriamente dita começa com a citação de um trecho do filme Happiness (Todd Solondz, 1998), no qual um filho conversa com seu pai sobre a acusação dirigida a ele, pai, de ser um estuprador pervertido. E o pai confirma ter efetivamente transado com os meninos, como fora acusado...
Alguns parágrafos depois, lemos que as sucessivas descobertas de casos de pedofilia dos últimos anos obrigaram "a população a deixar o horror de lado para tentar entender como pessoas insuspeitas e respeitadíssimas pela comunidade foram capazes de cometer atos tão bárbaros". Entretanto, em vez de colocar a ênfase na necessidade do entendimento, a matéria escolhe a via de, a todo momento, reiterar que a "população" (pressuposta inocente, tal qual a criança) se horroriza obrigatoriamente diante do fato da pedofilia, e que todo cuidado é pouco, pois são seus membros que insidiosamente a praticam ("treinador de escolinha de futebol, pediatra, professor e chefe de escoteiro").
Perguntamos nós se não é, antes de mais nada, o caso de definir do que se está falando, se da atração (filia) pelas crianças ou de investidas corporais exorbitantes dirigidas a elas? Devemos colocar no mesmo saco da exorbitância física itens resultantes ou expositores desta atração como os livros Lolita (1955), de Vladimir Nabokov (***), Alice no País das Maravilhas (1865) e Através do Espelho (1871), de Lewis Carroll, Morte em Veneza (1911), de Thomas Mann, O Caderno Rosa de Lori Lamby (1990), de Hilda Hilst, ou mesmo a pederastia institucionalizada da pré-história e da antigüidade greco-romana (para citarmos só estes)?
Explicações "psicanalíticas"
Não é nosso objetivo aqui desenvolver estas questões, mas, como dissemos, considerar as manifestações dos psicanalistas. Na tal matéria, então, cita-se uma "psicanalista" que teria dito: "O pedófilo é um narcisista. Ele não precisa de imagens eróticas para se excitar, mas se satisfaz ao se ver nelas". O que poderá isto querer dizer se narcisista é qualquer um, mesmo um mendigo ao expor suas feridas na rua? Psicanalistas não deviam saber que o narcisismo é ineliminável? Se pode ser de baixa ou alta extração, rico ou pobre, isto já é outra questão... Continuando, por que imagens dele próprio não seriam também "eróticas" já que ele "se satisfaz" vendo-se nelas? Diz ela ainda que: "Crianças nessa faixa etária já fazem perguntas como de onde vêm os bebês e o que os pais fazem no quarto. É uma curiosidade natural da idade, pois sua sexualidade está em desenvolvimento. O pedófilo sabe disso e se aproveita dessa curiosidade". Bem, pelo menos aí se admite que há na criança um impulso interior no sentido de procurar pesquisar sobre essas coisas, o que vem relativizar bastante a qualificação de "inocência da criança" a que a matéria alude diversas vezes...
Outro psicanalista, este famoso na mídia, diz que: "A pedofilia choca tanto porque a criança é vista como um símbolo da nossa perpetuação. Ao ouvir um relato de abuso infantil, sentimos um impulso de proteção que, na verdade, é uma maneira de proteger a nós mesmos". É o tipo de frase que dá a aparência de explicar algo, mas cuja argumentação não se sustenta a não ser acreditando-se nas interpretações edificantes de "símbolo da nossa perpetuação" e "impulso de proteção". Símbolo e impulso que certamente não valem para as milhares de crianças que se deixa morrer por dia no continente africano. Mais adiante, diz ele: "O traço decisivo da fantasia pedofílica é a vontade de se aproveitar da inocência ou da ignorância da vítima". Este também é um item do senso comum que não distingue muito ou quase nada do modo de operação de qualquer peça publicitária ou mesmo de qualquer cantada mundana, esteadas que estão sobre a "ignorância" da "vítima".
Outro psi da matéria, este psiquiatra, é bem mais direto: "O pedófilo mantém o juízo e, portanto, deve ser punido" (****). Aqui, chegamos ao clímax: a partir de um campo de saber específico (baseado sobretudo na aplicação de medicamentos) determina-se uma punição generalizada. É evidente que só se pode fazer isto devido ao poder de que está investido (pelos laboratórios farmacêuticos?) atualmente, mas deixemos o tratamento disto para outra ocasião, pois Michel Foucault já escreveu bastante a respeito das relações da psiquiatria com a polícia.
Críticos da mídia
Após o que pudemos ler na matéria que analisamos, mas também em outras (por exemplo, no texto de capa da revista Superinteressante, edição 176, maio 2002), parece-nos perfeitamente cabível avançar duas constatações. Primeira, a mídia em geral menospreza explicitamente a psicanálise. Prova disto é o fato de só estar dando espaço a ditos psicanalistas (brasileiros ou estrangeiros) que, na maioria das vezes, repetem platitudes caras ao gosto da "população", ou que apenas apresentam raciocínios retirados de outros campos de saber (filosofia, política, sociologia, medicina) como se a psicanálise não tivesse ferramentas para produzir seus próprios diagnósticos (por mais estranhos que possam parecer ao senso comum ou mesmo à intelectualidade estabelecida). É evidente aí o desserviço que a aliança da mídia com os tais psicanalistas tem prestado ao entendimento desta e de outras questões de nosso momento.
Segunda constatação, ao contrário do que está ocorrendo entre analistas quanto às posições que tomam, alguns articulistas não têm deixado de produzir análises críticas importantes do papel que a mídia vem desempenhando na veiculação dos recentes casos de pedofilia. A título de exemplo, citemos trechos de dois artigos publicados no Observatório da Imprensa [veja remissões abaixo].
Escreve Nelson Hoineff: "Médicos ou padres tarados são um belo molho para o noticiário, mas podem sedar a mídia tanto quanto as suas vítimas. Em estado de torpor, a mídia, como os garotos, pode não ter consciência do que está fazendo. Casos como o do pediatra de São Paulo dão nojo e pena. Mas a mídia sabe qual é o sedativo que lhe estão vendendo e conhece os seus efeitos. Por isso mesmo, sua capacidade de indignação deve ir muito mais adiante dos fatos oportunamente escabrosos – para não ser confundida com pura e simples conivência com o cotidiano da brutalidade, da roubalheira e da hipocrisia".
E Ivo Lucchesi, descrevendo as contradições da veiculação do caso do pediatra paulista citado acima, acusado de sedar garotos para fins de uso sexual (o que, aliás, seria mais aproximável de necrofilia do que de pedofilia), finaliza assim seu artigo: "Os jornais não desprezam as faturas decorrentes de páginas (e, às vezes, caderno especial) de classificados, com todo o tipo de ofertas para programas sexuais. Preferencialmente, dá-se destaque a mocinhas e rapazes de 18 anos, incrementando o tempero da sedução e da indução. [...] Enfim, o somatório desse ‘caldo juvenil’ aponta para a fermentação de uma ‘cultura pedófila’ da qual o parque midiático é o seu maior promotor. Fatura em estimular e fatura em denunciar. Depois que um ‘horror’ é revelado, todos assumem a revolta hipócrita ou ingênua, clamando por justiça. Afinal, o ‘médico’ é o único monstro? É hora de reavaliar tudo, ou consideremos tudo normal..."
Psicanálise da psicanálise
A história da psicanálise não pode ser dissociada da psicanálise de sua história, como vem dizendo o psicanalista MD Magno desde a década de 80. Se ela nasceu ligada ao saber médico, logo se viu que era de outra coisa que tratava. Por isso, toda a terminologia nosológica (neurose, psicose e perversão) está sendo atualmente repensada no sentido de desligá-la em absoluto de qualquer referência a doença (nósos) e agravar seu comprometimento com a Análise das Formações constituintes do patos ("afecção", "afetação") característico desta nossa espécie, não mais tomada como humana – ou seja, subdita aos desgastados valores do "humanismo" –, e sim considerada a partir da inarredável patologia pulsional a que está condenada, conforme se depreende do que Freud apresenta em seu texto de 1920, "Além do princípio do prazer".
Mas se, como vimos, o nome "psicanálise" tem servido para referendar o senso comum – isto é, abdicando de seu caráter questionador inicial –, talvez nem se deva lutar muito por ele. Se a todo momento este nome aparece ligado a compromissos estritamente mercadológicos, com ditos psicanalistas só se manifestando tomados pela mosca azul da visibilidade midiática, que ele, então, pelo menos assuma esta posição e passe a designar isso mesmo: mais um discurso apenas preocupado com o percentual de participação mercadológica que possa conseguir. Então, se descartamos para nós qualquer recurso a indignações morais reparadoras – o que atualmente, aliás, só passaria a ser mais um componente da desfaçatez generalizada –, talvez se deva mesmo deixar rolar, para, quem sabe, esta posição (assim como as recrudescências – religiosas e outras – herdadas do século 20) vir a se comer pelo próprio rabo...
Como estamos vendo, não há inocentes nessa história – apenas que anteriormente o preço exigido pelos analistas para participar do que Marx detectou como "prostituição universal" era mais alto e incluía alguma inoculação de transformações que a cultura se viu incapaz de continuar denegando (a ampliação do conceito de sexualidade e a explicitação do papel ativo na sedução tanto do sedutor quanto do seduzido, por exemplo). Resta dizer, por outro lado, que aqueles informados para além da mídia sempre tiveram a notícia de que os que se propõem a continuar na via aberta por Freud e desenvolvida por Lacan e muitos outros (Jung, Melanie Klein, Ferenczi etc.) jamais abandonaram a postura que o articulista citado acima sugere, de "reavaliar tudo". Estes sempre souberam que não há psicanálise sem pensarmos tudo novamente, a cada caso. E que, para tanto, basta fazer valer de novo a Nova Mente trazida por Freud.
(*) Psicanalista (NovaMente/RJ). Professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pesquisador do "...etc. – Estudos Transitivos do Contemporâneo" (CNPq: UFJF.0001). E-mail: potiguarajr@novamente.org.br
(**) Cf. Magno, MD. – Pleroma: Tratado de Deus e de seus Anjos. O Sexo dos Anjos; a sexualidade humana em psicanálise. (Seminários 86-87) Rio de Janeiro: aoutra, 1988. p. 61-75
(***) Livro citado na matéria, ressalvando que o personagem adulto, Humbert Humbert, 40 anos, não seria pedófilo, mas tomado pela "obsessão" resultante de uma "paixão avassaladora de um homem maduro por uma adolescente [Lolita, 14 anos], fato pouco aceito pela sociedade, mas de forma alguma uma patologia" (sic) (p. 23).
(****) Aproveitamos esta ocasião para registrar nosso espanto (se não, terror) ao participar de banca examinadora de uma tese de doutoramento em psicanálise, na qual o pedófilo é chamado de "energúmeno" e a pedofilia é, desde as primeiras páginas, referida como "gozo espúrio", "práticas escusas e doentias", como passível de "merecida punição penal", "conduta imoral, criminosa e louca", "insânia amorosa", "maldito e diabólico sintoma da cultura contemporânea", "visão equivocada da sexualidade madura", "realização sinistra do desejo", ou como tendo um "caráter insuportável". É claro que, quando se começa definindo deste modo, qualquer outra possibilidade de entendimento está excluída de antemão. Se é assim, então, basta continuar xingando, não sendo preciso dar-se ao trabalho da análise.
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