quarta, 19 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1075

Servir ao marketing ou à sociedade?


Espírito crítico é a base do bom e velho jornalismo, em todas as áreas, em todos os momentos, um compromisso que todo jornalista deve assumir, todos os dias, com si próprio. Bajulação, manipulação e endeusamento do personagem da notícia é um desserviço prestado à sociedade, razão de ser do trabalho de cada jornalista.


E quais são as práticas correntes no jornalismo brasileiro da atualidade, particularmente no esportivo, objeto de análise deste texto? O quadro que vejo é desolador. Generalizada quebra de compromisso da imprensa esportiva brasileira em relação aos mais elementares princípios do jornalismo. Sim, mesmo com todas as transformações vivenciadas pela nossa mídia, certos pilares nunca deveriam ser rompidos, sob pena de fraudarmos os nossos receptadores.


De imediato me vem à mente o tratamento dispensado pela mídia brasileira ao jogador Ronaldinho, um jovem atleta que conseguiu realizar o sonho dourado de todo garoto pobre brasileiro. Famoso, rico, bajulado, Ronaldinho, tal qual um bezerro de ouro, é hoje objeto de idolatria, um fenômeno produzido pela nossa imprensa.


É claro que ele é um bom jogador. Mas é só isso. Nada justifica a histeria formada em torno de sua figura, hoje superexposta, o que causa repugnância à quelas pessoas que exigem – e com todo o direito – um pouco mais de isenção jornalística.


Vide o episódio Ayrton Senna. Ídolo nacional, mito, a sua memória foi desrespeitada logo após a sua morte com toda a sorte de manipulação promovida por parte da nossa mídia. É doloroso constatar que até uma “viúva”, Adriane Galisteu, hoje tornou-se uma pessoa rica e famosa à s custas da memória do falecido namorado, evidentemente impulsionada por grandes esquemas publicitários/comerciais.


A mesma imprensa que hoje idolatra e bajula o tenista Gustavo Kuerten, Guga, há dois meses o ignorava solenemente. Torço para que esse jovem tenista consiga criar uma barreira que o permita prosseguir, tudo indica, com sua vitoriosa carreira.


Se quisermos estabelecer de fato uma democracia sólida neste país, é necessário que a imprensa cumpra a sua parte, notadamente a esportiva. E pautas para grandes coberturas temos às mancheias. Que tal investigarmos os porões da CBF e, particularmente, o seu todo-poderoso presidente, Ricardo Teixeira? Por que João Havelange, presidente da Fifa, reagiu com tanta veemência ao projeto de modernização do futebol brasileiro, patrocinado pelo ministro Pelé? Como pode um país que respira futebol, com tantos bons jogadores, ter clubes à beira da falência, com honrosas exceções?


Posto esse quadro, a mídia esportiva brasileira está diante de um desafio: ou mobiliza suas energias para efetivamente produzir jornalismo ou irá se descaracterizar servindo de “inocente útil” ao marketing, virando as costas para a sociedade.






Juca Kfouri, Entre aspas.


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