terça, 18 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Um em cada cinco agrotóxicos liberados no último ano é extremamente tóxico

(Foto: Reprodução Agência Pública)


Publicado originalmente no site da Agência Pública
O primeiro ano do governo Bolsonaro bateu o recorde histórico no número de agrotóxicos aprovados. Em doze meses, foi publicada no Diário Oficial da União a aprovação de 503 registros, 53 a mais do que em 2018.
De acordo com o Ministério da Agricultura, o primeiro ato de aprovações, com 28 produtos, publicado em 10 de janeiro de 2019, contava com produtos liberados ainda no governo Temer, mas divulgados apenas no governo Bolsonaro. Mesmo sem contar com esses, o recorde é do atual governo: foram 475, contra 450 no ano anterior.
A primeira lista continha permissão para comercialização do ingrediente ativo inédito Sulfoxaflor, fatal para abelhas. Em agosto, o governo Bolsonaro liberou os seis primeiros produtos à base de Sulfoxaflor para entrar no mercado. Todos eles são produzidos pela empresa americana Dow AgroSciences, agora chamada de Corteva.
No decorrer do ano, outros 26 pesticidas inéditos foram aprovados. Entre eles, florpirauxifen-benzil, fluopiram e dinotefuran.
O mais polêmico é o dinotefuran, que nunca foi aprovado para ser comercializado na União Europeia e está em reavaliação nos Estados Unidos. O agrotóxico faz parte da classe dos neonicotinóides, fatais para abelhas e polinizadores. No Brasil, a molécula foi considerada “extremamente tóxica”, mas os produtos originados a partir dela foram avaliados como improváveis de causar “dano agudo”. Eles foram liberados para culturas como arroz, batata, café, tomate e feijão.
Os demais 476 são chamados de “genéricos” pelo Ministério da Agricultura – um termo mais adequado para medicamentos. Ou seja: são cópias de princípios ativos que já estão no mercado.
Outro fator de risco entre os produtos aprovados é a toxicidade. Um total de 110 novos produtos – um em cada cinco – foi classificado pela Anvisa como extremamente tóxico, a classe mais alta de perigo para humanos.

E o número só não foi maior porque, em julho, uma alteração no Marco Regulatório da Anvisa decidiu que, agora, só receberão a classificação máxima os agrotóxicos que causarem morte horas depois do indivíduo tocar neles ou ingeri-los.
Até setembro, de 353 aprovações, 101 produtos foram classificados como extremamente tóxicos, cerca de 28% do total. A partir de outubro, com as novas regras, de 150 produtos aprovados, apenas nove receberam a classificação máxima, 6% do total.
Os agrotóxicos que já estavam no mercado também tiveram a classificação alterada. Segundo a Anvisa, antes da mudança, cerca de 800 agrotóxicos dos mais de 2300 em comercialização estavam na classe mais alta de toxicidade. Agora, são apenas 43.
Um dos ingredientes ativos que teve a classificação reduzida foi o herbicida glifosato, o agrotóxico mais vendido do país. Levantamento da Agência Pública e Repórter Brasil mostrou que 93 produtos formulados à base de glifosato tiveram a classificação de toxicidade reduzida. Antes, 24 produtos à base do herbicida eram considerados “extremamente tóxicos”. Agora, não há nenhum produto enquadrado na categoria máxima de toxicidade.
Além do número alto de aprovações, chama atenção a grande quantidade de solicitações de registros. Em doze meses, o Ministério da Agricultura recebeu o pedido de avaliação de 913 novos produtos agrotóxicos. Antes de chegar ao mercado, o agrotóxico precisa passar por avaliação da Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura.
Quem são as empresas que conseguem os registros?
Apenas 40% dos mais de 500 registros concedidos em 2019 foram para empresas brasileiras. As chinesas conseguiram 87 novos registros; as norte-americanas, 41; as alemãs, trinta; e as indianas, 27.
A maior beneficiada foi a chinesa Adama, com 41 produtos, seguida pela brasileira Nortox (35), a espanhola Tradecorp (27) e a chinesa Rainbow (22). No total, 87 empresas conseguiram permissão para comercializar agrotóxicos no ano passado.
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Pedro Grigori é jornalista com formação pela Universidade Católica de Brasília. Repórter da Agência Pública, atua como correspondente em Brasília.