segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Bom Senso F.C. e a relação com quem transmite

O anúncio do calendário oficial do futebol brasileiro por parte da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 23 de setembro causou algo até então inédito nesta prática esportiva no país. Um grupo de jogadores, a maioria de grandes clubes brasileiros, juntou-se para exigir da CBF melhores condições para o trabalho em 2014. Com a realização da Copa do Mundo Fifa, a proposta tem como principal reclamação o não cumprimento dos 30 dias de férias, direito do trabalhador garantido pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Pela proposta, esta deveria ser dividida em duas partes, uma a partir de dezembro, após a realização do Campeonato Brasileiro, e outra durante o torneio mundial.

Outros pontos indicados na reunião realizada em São Paulo, no dia 30 de setembro, referem-se: ao crescimento do período de pré-temporada dos clubes – encurtado especialmente após a adoção do sistema de pontos corridos no Brasileirão, com a manutenção dos Campeonatos Estaduais nos primeiros meses do ano; à utilização do fair play financeiro, algo exigido pela federação europeia para os clubes, de maneira que se gaste de acordo com a receita, garantindo que os salários dos jogadores serão pagos em dia; por fim, uma maior representatividade dos atletas nos conselhos técnicos de competições e federações.

O problema com o calendário e um prazo menor de preparação é antigo, mas que se agrava com os torneios mundiais realizados no Brasil. No âmbito local, além do aumento do Brasileirão em suas três primeiras divisões na última década, recorda-se também que já em 2013 a Copa do Brasil ganhou um formato com mais datas, passando a ser disputada também pelos times brasileiros que disputaram a Copa Bridgestone Libertadores e seguindo no segundo semestre. Tal decisão serviu também para garantir as transmissões de TV no meio de semana já que os clubes brasileiros costumam não dar tanta importância para a Copa Sul-Americana.

Cessão dos direitos de transmissão

Os jogadores assumem que uma mudança será difícil para 2013, porém pressionam para que, ao menos, passem a ser escutados pela CBF. Não é do interesse deste texto analisar o que ocorreu na reunião, tampouco observar que o grupo acabou desmerecendo os sindicatos de atletas de futebol existentes, ao pular a instância que os deveria representar. A nossa questão é perceber o movimento da detentora dos direitos de transmissão dos principais campeonatos de futebol do país em meio a isso.

O argumento utilizado para não criar atrito com as Organizações Globo é que com mais tempo de preparação o espetáculo oferecido ao público, seja nos estádios ou pela TV, será ainda melhor, abarcando melhores resultados para quem torce, para quem joga, para quem transmite e para quem patrocina. A Globo Comunicação já anunciou que é a favor de se adiar em uma semana o início dos torneios em 2014, do dia 12 para o dia 19 de janeiro, cumprindo o prazo mínimo de 10 dias de preparação após o retorno das férias. As federações estão acatando e, em alguns casos, há a discussão para a diminuição do tamanho do Estadual já no ano que vem, como deve ser aprovado no Rio de Janeiro – de maneira a aumentar o período de preparação para os quatro grandes clubes do estado.

Além disso, o conglomerado indica que os clubes terão 45 dias no meio da temporada para realizar uma nova preparação – como ocorreu este ano por conta da Copa das Confederações e ocorria quando o Brasileiro era disputado em menos datas. Para 2015, há conversas para que os estaduais comecem apenas em fevereiro, garantindo quase um mês para a pré-temporada. Independente disso, é claro que como se trata de uma relação de negócio previamente estabelecida pelos clubes, sem qualquer contato com os seus empregados, há um contrato assinado para a cessão dos direitos de transmissão das equipes num determinado torneio. Assim, apesar do protesto, tanto clubes quanto federações estariam obrigadas a cumpri-los de alguma forma.

Reunião dos clubes

Até mesmo porque as empresas que transmitem também vendem seus pacotes anuais de patrocínio, que são assinados com determinada quantidade de partidas a serem transmitidas no ano ou torneio e, consequentemente, com a quantia de inserções. Uma mudança nas datas de disputa deve levar em conta os contratos já assinados e uma necessária renegociação dos mesmos. Claro que considerando o potencial da líder do mercado no Brasil e, especialmente, a importância do programa futebol para atrair uma audiência fiel, o “convencimento” das empresas pode ser mais fácil.

Fato é que a temporada de 2013 vai mostrando que maior tempo de preparação traz mais resultados em campo de maneira mais rápida. O Atlético-PR optou por colocar o time sub-23 para disputar o Campeonato Paranaense deste ano por achar que o Estadual não valia muita coisa e, consequentemente, para preparar seus jogadores para torneios nacionais, casos do Brasileirão e da Copa do Brasil – além disso, sob a presidência de Mario Cesar Petraglia, o Furacão resolveu que produziria seu próprio conteúdo para o site oficial do clube, chegando até a proibir que os jogadores dessem entrevistas a rádios ou TVs. O Atlético está nas quartas de final da Copa do Brasil e vem com um bom desempenho, brigando por vaga na Libertadores do ano que vem, no Brasileirão.

Outro caso de pré-temporada mais larga e que aparenta dar certo – além de outros fatores, é claro – é o dos clubes mineiros. O Campeonato Mineiro começa mais tarde que os demais Estaduais, tendo início no final de janeiro ou no início de fevereiro, garantindo mais semanas de férias e preparação. O Atlético-MG foi campeão da Libertadores e o Cruzeiro lidera com folga o Brasileirão. Se para a TV o ideal seria que o futebol ao vivo não parasse, a organização e a definição da quantidade de datas do torneio, por mais pressões que possam ocorrer por quem detém os direitos de transmissão, deve ser definida pelos clubes em reunião com a respectiva federação, realizada meses antes do início do certamente – ainda que segundo o Estatuto de Defesa do Torcedor, tenha-se que manter a mesma fórmula de disputa, ao menos, por dois anos seguidos.

Estruturas medievais

Sea pressão dos jogadores é inédita no Brasil, por conta da aparente desunião da classe, não o é no histórico dos esportes. Ficando com um caso recente do futebol, as ligas da Espanha e da Itália adiaram as rodadas iniciais da temporada 2011/2012 por conta de greve dos jogadores, que exigiam garantias que os atletas de equipes menores receberiam os salários em dia – em meio à crise econômica geral do continente que também afetou, e ainda afeta, os patrocínios para o esporte. Mesmo jogadores de grandes equipes, como o capitão da Espanha e do Real Madrid, o goleiro Casillas, encamparam o movimento. No caso brasileiro, por exemplo, dois dos jogadores com maior visibilidade internacional atuando por aqui, Ronaldinho (Atlético-MG) e Seedorf (Botafogo) ainda não fazem parte do Bom Senso F.C.

No continente sul-americano, greves de jogadores já ocorriam na década de 1920! O que reflete também uma série de problemas gerais da população brasileira frente a manifestações sociais, com a difusão de certa repulsa em realizar protestos ou frente a movimentos grevistas de trabalhadores.

É importante ressaltar que em meio a tantas manifestações por direitos no país, que tiveram seu ápice em junho, a iniciativa de exigir os direitos dos trabalhadores do futebol, ainda que apenas dos jogadores que disputam grandes torneios no país, vem num momento oportuno, tanto por conta da adesão aos protestos quanto pela visibilidade da Copa do Mundo Fifa. Imagina-se que uma paralisação dos principais jogadores do “país do futebol” em ano de Copa aqui no Brasil geraria um estardalhaço muito grande. Só não se sabe se a ponto de estremecer as estruturas quase que medievais do comando futebolístico por aqui.

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Anderson David Gomes dos Santos é jornalista e mestre em Ciências da Comunicação