segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

O fantasma da ‘bolha’

O mês de setembro marcou o início da temporada de lançamento de novas séries de TV nos EUA. A “Ilustrada” registrou o fato na edição do último dia 14, contabilizando a chegada de 90 novos programas até o início de 2015. Para alegria dos fãs do formato, há séries para todos os gostos.

Acrescento ao levantamento a informação de que tamanha fartura já é motivo de preocupação entre executivos da indústria, tanto numa ponta, a que produz, quanto na outra, a que exibe as séries.

A “Variety”, uma das principais publicações especializadas nesta indústria, publicou longa reportagem sobre o tema na edição impressa de 16 de setembro (disponível em http://bit.ly/XxArsO). O título faz uma pergunta retórica (“A indústria de TV –e os espectadores– são capazes de lidar com quantas séries?”), mas a resposta é preocupante.

A palavra “bolha”, escreve a “Variety”, começa a ser pronunciada entre os executivos do meio. Como onde há “bolha” há sempre o risco de explosão, a revista investiga o que está acontecendo. Vou tentar resumir aqui.

Somando as novas séries com aquelas que ganham novas temporadas, incluindo a produção das grandes redes, as de TV paga e a dos provedores on-line, a “Variety” chega ao número de 350 programas encomendados para a temporada 2014-2015, que começa agora e vai até o próximo verão americano.

Exuberância criativa

Um dos orgulhos do mercado é a pluralidade de temas e gêneros. Ela obedece, entre outros motivos, ao desejo de atender a públicos cada vez mais específicos –o fã de séries sobre zumbis adolescentes, ou o que gosta de dramas de médicos, ou aventuras históricas etc.

Essa partilha da audiência em nichos acarreta, porém, um problema de ordem industrial, observa John Landgraf, presidente da rede FX. Em determinado momento, diz ele, “a fragmentação se torna tão grande que a capacidade de manter e alimentar esses programas sob a perspectiva financeira fica comprometida”. O executivo não afirma que isso já ocorreu, mas acrescenta: “Estamos provavelmente chegando bem perto do final da curva de crescimento”.

Em consequência do “boom”, a indústria reclama do crescimento dos gastos para assegurar os melhores talentos (roteiristas, atores etc.), do incremento das verbas de marketing (a disputa por visibilidade fica mais intensa) e de custos maiores com equipes e locações, entre outros.

Outra questão fundamental, já tratada nesta coluna, diz respeito à mudança na forma de ver televisão. O recurso de gravar os programas para assisti-los posteriormente coloca em risco o modelo de negócios da indústria baseado em publicidade e audiência.

O crescimento da Netflix, a respeito do qual também já escrevi, assusta igualmente a indústria. Com muito cacife, o serviço tem diminuído a margem de manobra das grandes emissoras e produtoras.

A “Variety” cita o caso de “Gotham”, série da Warner recém-lançada. A Netflix vai pagar a fortuna de US$ 1,75 milhão (R$ 4,3 milhões) por episódio, mas com direito a exibir a série em todos os seus mercados já a partir de 2015, o que diminui muito as possibilidades da Warner de vender o produto fora dos EUA.

Se há exagero, ou não, nas preocupações do mercado em relação a esta era de exuberância criativa, só o tempo dirá.

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Mauricio Stycer, da Folha de S.Paulo