segunda, 17 de fevereiro de 2020 ISSN 1519-7670 - Ano 20 - nº 1074

Lembrando Jayson Blair: em busca da recuperação da credibilidade

O escândalo que emergiu há 10 anos no New York Times com Jayson Blair foi épico, afirma, em sua coluna [4/5], a ombudsman do jornal, Margaret Sullivan. Blair, então um jovem repórter do diário, mentiu, inventou e plagiou matéria após matéria, durante anos. Ele citava fontes inventadas, roubava material de outras publicações e fingia estar em lugares em que nunca havia estado.

O problema, uma vez que o caso foi investigado e tornado público pelo próprio NYTimes, derrubou não apenas o repórter, mas também o editor-executivo e o chefe de redação. Por um período, o NYTimes ainda foi motivo de chacota nos programas de comédia noturnos. “Acho que o caso Jayson Blair foi um incidente que terminou minha carreira no jornal da mesma maneira imprevisível que teria sido se eu tivesse tido um ataque cardíaco ou um acidente de avião”, diz Howell Raines, editor-executivo na época, em matéria na The Atlantic. Quando falou recentemente com Margaret, Raines fez uma comparação semelhante: “Estava pisando em um campo minado”. O resultado, segundo ele, foi desolador.

O caso Jayson Blair também foi, segundo o publisher Arthur O. Sulzberger Jr., uma grande vergonha para o jornal. Glenn Kramon, que era o editor de negócios do NYTimes na época e ajudou na exaustiva investigação sobre os maus feitos de Blair, lembra como foi o período: “Não tinha noção de quão ruim estava a situação até que o relações públicas da Enron nos ligou para irmos lá. Senti raiva em nome dos 400 repórteres dedicados que seriam incapazes de tal comportamento”.

Medidas de controle

Muito aconteceu desde então e o jornal está no segundo turno de nova liderança editorial. Mas até agora, quando empresas de jornais estão preocupadas com a sobrevivência a longo prazo, trata-se de um tema delicado. Depois do escândalo e por meio de uma análise interna, a direção do diário tomou medidas de precaução. Uma foi o implantação do cargo de ombudsman, chamado no NYTimes de editor público – Margaret é a quinta –, para dar aos leitores um lugar direto, independente da estrutura editorial do jornal, a fim de receber reclamações sobre a integridade pública. Outra foi a criação de um editor de padrões em tempo integral, uma posição interna dentro da hierarquia da redação. Ainda foi criado um programa para avaliar regularmente o trabalho jornalístico.

Mas, mesmo com essas medidas, um episódio semelhante – ou tão prejudicial quanto – poderia acontecer de novo? “Você tem sempre que acreditar que algo terrível pode acontecer de novo”, diz a editora-executiva Jill Abramson. Ela e o chefe de redação, Dean Baquet, lembram que as especificidades dos problemas de Blair – invenções repetidas e mentiras nos artigos – tornariam-se conhecidas mais rapidamente na era do Twitter e dos blogs. “O mundo está melhor em nos checar e nos desafiar. Mas seria arrogante dizer que algo assim não poderia acontecer”, reconhece Baquet.

Embora o plágio e a invenção continuem uma preocupação para editores, atualmente é mais provável acontecer algum problema pelo mau uso das redes sociais, nos quais jornalistas têm canais de publicação sem edição e sem filtros. Além das ações dos jornalistas individuais, o NYTimes enfrenta riscos anteriormente inimagináveis para sua credibilidade na medida em que experimenta novas maneiras de substituir receita publicitária, que continua a diminuir. Por exemplo, a empresa disse que irá realizar mais eventos como a conferência DealBook, com participantes pagando para ter acesso incomum aos jornalistas do NYTimes. Tais eventos são relativamente inofensivos, mas a mistura do trabalho jornalístico com a missão de conseguir dinheiro aumenta o potencial de problemas por conflito de interesses.

Fortalecendo a confiança

Segundo Jill, uma das maiores lições do escândalo Blair foi “como os leitores ficaram preocupados, feridos e furiosos, porque isso foi o contrário de tudo pelo qual lutamos – a confiança que as pessoas têm no NYTimes”. Clyde Haberman, conhecido repórter e colunista que se aposentou recentemente, classifica o episódio como “o pior período, sem dúvida”, nos seus 36 anos no jornal. Ainda assim, o caso reforçou a importância de uma virtude contínua do mundo jornalístico: a relação de confiança entre repórter e editor, e entre o jornal e seus leitores. Outra lição tem a ver com algo que a ombudsman escreveu antes: editores e repórteres têm que acreditar que podem levar uma preocupação ou uma reclamação aos superiores e serem ouvidos de maneira justa.

O jornal e sua reputação já se recuperaram completamente? Margaret acredita que o NYTimes recuperou-se melhor do escândalo Blair do que quando divulgou informações com falhas sobre a existência de armas de destruição em massa que levaram à guerra do Iraque. Muito disso aconteceu ao mesmo tempo e sob a mesma liderança – de Raines. “Eu lamento qualquer erro que aconteceu no jornal, mas, de onde eu estava, havia uma total congruência – tudo estava unindo-se em torno de uma mensagem”, diz ele. “Eu tinha suspeitas e talvez eu devesse ter sido mais agressivo em ir atrás dessa suspeita”. Em uma nota do editor escrita quase um ano depois da saída de Raines, o jornal admitiu ter “engolido” a história do Iraque e prometeu uma cobertura mais cética e rigorosa.

Qualquer fator que prejudique a credibilidade – mentiras de um repórter, atitude muito confiante em relação a fontes do governo e narrativa predominante – tem que ser combatido energeticamente, defende a ombudsman. O NYTimes tomou passos importantes para esse fim. Margaret espera que eles sejam eficientes, pois uma vez que a credibilidade é afetada, os danos podem demorar anos – ou décadas – para ser reparados.