Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

Aquecimento global e a consciência da mídia

Quando O Ambientalista Cético, um catatau de 540 páginas foi publicado aqui, em 2002, muita gente saiu do armário e se proclamou um deles. Bjorn Lomborg, autor do tratado, é um estatístico da Universidade de Aarthus, na Dinamarca, ex-simpatizante do Greenpeace e, até o lançamento do livro, o que se costuma chamar de ‘ilustre desconhecido’. As 540 páginas já seriam motivo de cautela. Mas, por aqui, tudo indica que foi sinônimo de erudição. A edição saiu com reprodução de um texto de Veja na capa, referendando-a contra ‘ecologistas radicais’.

Jornalistas em busca de originalidade a qualquer preço – mesmo contra fatos observáveis, que bem interpretados produzem não só boa ciência, mas também bom jornalismo – viram no lançamento do livro uma oportunidade de exibição e não perderam tempo. Fatos como aquecimento global, produzido por atividades humanas, foram interpretados e divulgados como pouco mais que crendice.

Na edição desta semana (nº 1967, de 2/8/2006) Veja voltou ao assunto com uma surpreendente manchete de página: ‘Será que já começou?’, referência ao efeito-estufa, tratado como resultado de atividades humanas, pela liberação de gases que aprisionam calor na atmosfera.

Complexidade climática

Certamente é o caso de reconhecer que o clima da Terra é complexo o suficiente para não admitir explicações simplistas. O que não significa que dados estratégicos devam ser desconsiderados como elementos capazes de mostrar o que está acontecendo.

E o dado mais elementar neste caso é a concentração de gás carbônico na atmosfera. Desde meados do século 19 sabe-se que o gás carbônico (ou dióxido de carbono, o CO2) retém calor na atmosfera, o que significa que quanto maior a concentração atmosférica deste gás, ao menos em princípio, mais o calor retido.

No relatório anual 2006-2007, o Worldwatch Institute – um dos que reagiram às interpretações de Lomborg – aponta para uma concentração sem precedentes de gás carbônico atmosférico, que no ano passado atingiu 379,6 ppm (partes por milhão). Para se ter uma idéia, antes da Revolução Industrial, quando as máquinas substituíram o trabalho de músculos humanos e animais, a concentração era de 280 ppm.

A constatação de que as temperaturas médias do planeta estão subindo está livre de controvérsias: no ano passado, segundo dados do Worldwatch Institute, ficou em 14,6º Celsius, a maior dos últimos 55 anos. E a admissão de que ela possa estar sendo produzida por atividades humanas abre a perspectiva de que algumas iniciativas sejam tomadas para reverter o que seja possível e assim amenizar os efeitos sobre as futuras gerações.

A alternativa de puros efeitos naturais defendida pelo ceticismo, coerente com inseparáveis doses de egocentrismo, recomenda que se faça nada.

Ondas de calor

Um certo retorno à realidade, ao menos no caso do efeito-estufa, tem sido estimulado por sufocantes ondas de calor em todo o mundo, além de registro de fenômenos incomuns – onde a freqüência da ocorrência é que sugere alguma razão incomum.

As tais ondas de calor que percorreram Europa e Estados Unidos nas duas últimas semanas provocaram centenas de mortes e afetaram a produção agrícola, entre outras atividades. Na Inglaterra, a população teve uma experiência de país tropical, com os termômetros marcando 36,5º Celsius, a maior desde 1911. Na Holanda o calor matou pelo menos 200 pessoas e sugere cenas preocupantes para um país que aprendeu a domar o mar, mas não o suficiente para conter sua fúria, especialmente se o nível das águas subirem pelo mesmo efeito do aquecimento global.

Na Europa, que também aprendeu a valorizar a vida ao longo de guerras e outros conflitos, há temor da reedição do calor que matou pelo menos 32 mil pessoas em 2003, quando países como Portugal registraram enormes e descontrolados incêndios florestais, parte dos cenários previstos pelos modelos de aquecimento global.

Em 2003, dos 32 mil mortos, 15 mil eram franceses. Na semana passada, com os termômetros em 39º Celsius em Paris, o governo convocou estudantes de medicina e médicos aposentados para plantões em hospitais.

Em Nova York e em regiões da Califórnia o calor chegou aos 40º Celsius sobrecarregando o sistema elétrico pelo funcionamento de sistemas de refrigeração.

Calor e insensibilidade

Em São Paulo, em pleno inverno, as temperaturas chegaram aos 30,2º Celsius, a maior já registrada na cidade desde que as medições começaram, há 63 anos. As justificativas dos meteorologistas/climatologistas falam da presença de sistemas de alta pressão que impediram a entrada de frentes frias para amenizar o calor. A questão, no entanto, advertem, não é a presença dos sistemas de alta pressão, mas a freqüência com que eles estão aparecendo, sugestão de que o efeito-estufa está por trás dessas manifestações.

O aquecimento global foi capa recente das revistas Time e Newsweek, além de tema do programa de TV 60 Minutes, da CBS. Mas nem por isso sensibiliza a burocracia de Washington, tradicionalmente contrária a qualquer iniciativa capaz de reduzir as emissões de gás carbônico pela queima de combustíveis fósseis, segundo Michael Grunwald, articulista do Washington Post, em artigo reproduzido pelo Estado de S. Paulo (pág. A 30, edição de 30/7/2006).

A mídia, por si só, evidentemente não daria conta de afugentar um desastre com as proporções do aquecimento global. Todo o corpo da ciência e, possivelmente, o que pode ser o maior esforço coletivo da história talvez seja necessário para amenizar um impacto dessas proporções. Mas a mídia é de fundamental importância para a conscientização, especialmente na educação para um presente e futuro cada vez mais exigentes, de um ponto de vista ambiental, entre outros.

E aí aparece o paradoxo: o desafio de conscientizar a própria mídia. Ao menos por aqui.

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Jornalista