Monday, 15 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

A mídia é eficaz quando quer

Tenho certeza de que foi a mídia quem matou Pedro Dom: deu-lhe uma grandeza que ele não tinha. Nunca matou ninguém, nunca seqüestrou ninguém, não cometeu latrocínio, nunca estuprou ninguém e nenhuma de suas vítimas sangrou uma gota sequer.

Entretanto, a fala da mídia dizia: ‘Procurado vivo ou morto’; ‘É o assaltante mais violento’. Colocou seu retrato em todos os jornais e TVs por ter sido reconhecido como o autor de um assalto na Rua Vitor Múrtua, na Lagoa (Zona Sul do Rio), em 2004 – quando na verdade estava preso no Espírito Santo (houve até processo na Justiça).

A partir daí, nunca mais pararam as acusações. Colocaram-no como autor de muitos assaltos que na realidade não cometeu – como o testemunho de uma moradora do Recreio dos Bandeirantes (Zona Oeste do Rio), que afirmou categoricamente que o assaltante era Pedro Dom, com o cabelo mais comprido. Dois dias após, a errata pequenina numa página secundária de O Globo… Não era ele.

É assim que funciona

Deram espaço a candidato a deputado para afirmar que ‘a operação que matou Pedro Dom foi coroada de êxito’ e digo eu que nenhuma operação que gera a morte de qualquer pessoa pode ser coroada de êxito. A vida é o único bem a ser preservado. Matar é fácil, salvar a vida é que é difícil, pergunte aos soldados do Corpo de Bombeiros dessa dificuldade. Se alguém que se diz coroado de êxito por matar quem quer que seja torna-se o ‘rei’. Nesse reinado, desejo ser o mais maltrapilho dos habitantes.

Não estou falando de corrupção policial ou de técnicas jurídicas para justificar atos de resistência: é tudo corporativo, e não é de hoje. A mídia investigativa deveria, sim, agir, mas em prol da população. E começando por fazer uma limpeza nas instituições que controlam nossa vida, polícia, fiscais de todo tipo etc. Basta começar a investigar patrimônio. Como pode um soldado-bombeiro lotado na polícia ser morto ao volante do Audi de sua propriedade? Qual a receita mensal auferida legalmente que pudesse lhe proporcionar a aquisição deste carro? Qual a importância dada pela mídia a este fato? Por que não houve investigação alguma disso? É gritante a situação, evidência cabal de corrupção.

Acredito que a mídia investigativa é eficaz quando quer agir. Porém, talvez, não venda jornais – ou seja matéria para telejornais. E assim vamos convivendo com o descaso, aliado à corrupção generalizada neste país. Sou presidente de um instituto ecocultural, e sei o quanto é difícil conseguir recursos honestos para desenvolver ações sociais de fato. Se não der lucro, não interessa. Infelizmente, é mesmo assim que funciona no Brasil.

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Policial aposentado