Sexta-feira, 16 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1410

Laboratório de jornalismo pode ser “oásis” para se opor à lógica dos estágios

Marco Antonio e Lorrayne, personagens da reportagem, com Mariana e Danielly na comunidade Cabana do Pai Tomás (Foto: Danielly Camargos)

Numa reunião de pauta do Laboratório Colab, desafiei os estudantes de Jornalismo da PUC Minas a desconstruírem a razão que leva, em geral, favelas e comunidades a aparecerem nos conteúdos dos grandes jornais majoritariamente atreladas à desigualdade social ou à violência. A proposta logo veio: produzir uma reportagem que não seja para mostrar a favela, o morro ou a comunidade como algo negativo. A ideia era identificar o que as pessoas produzem e como fazem para sobreviver de forma criativa. Quem são os empreendedores das favelas e por que empreendem? Empreender é solução ou alternativa possível? Os monitores gostaram da proposta, mas a apuração não foi para frente. Ninguém assumiu de fato naquela ocasião o desafio de gastar sola de sapato para comprar a ideia. 

O Colab teve início em 2020 e é voltado para a produção de conteúdos digitais. É uma iniciativa que mescla o tradicional ao novo, pois funciona na mesma redação que o jornal impresso Marco – um dos jornais-laboratórios universitários mais duradouros do Brasil, criado em 1972 e produzido ininterruptamente desde então. Assim, o Colab valoriza a produção do jornalismo raiz, pautado na apuração cuidadosa e nos conteúdos que demandam mais tempo de produção, como reportagens, perfis, séries e episódios de podcast. Busca desvirtuar a lógica das hard news para se debruçar preferencialmente sobre os conteúdos interpretativos, tipo de coisa cada vez mais escassa no mercado jornalístico brasileiro.

Por outro lado, incentiva a liberdade produtiva, a experimentação, a possibilidade de criar narrativas sob novos olhares e de não se pautar pelo deadline corrido. Os monitores que atuam se dividem entre as produções para o digital e para o impresso. E essas são também  as razões da produção não ter vingado em 2023. 

O laboratório virou uma espécie de oásis para nossos estudantes. Além de receberem uma bolsa institucional para atuarem como monitores, produzindo simultaneamente para os dois produtos – Marco e Colab – e auxiliando nas produções conduzidas pelos professores em sala de aula, podem fazer no “lab” o que em geral o estágio não lhes permite. Segundo eles, esses são os principais diferenciais e a razão de se manterem nas vagas mesmo com a oferta de estágios que remunerem melhor. 

Conforme uma aluna me disse, o estágio –  que era em uma TV – só demandava fazer notas, muitas notas por dia e com pouquíssima apuração, “praticamente só ‘copy’”, revelou. Outros se queixam de não poder propor quase nada novo, do serviço mecânico,  de só produzir a partir de release, de quase não se fazer mais reportagem. 

Sabendo que gostam de desafios que os estágios não proporcionam, em 2024 propus retomarmos aquela pauta. Duas monitoras dedicadas, Danielly Camargos e Mariana Brandão, toparam e fizeram com louvor. Correram atrás de dados oficiais, cruzaram informações, levantaram números pouco divulgados, percorreram as comunidades e encontraram bons personagens. Após meses de trabalho, o resultado foi a reportagem Empreendedores nas favelas: do Aglomerado ao Cabana, publicada em fevereiro de 2025 e que conquistou o primeiro lugar em dois prêmios de jornalismo universitário naquele ano, o Sebrae e o CDL-BH.

Danielly e Mariana tiveram a sensibilidade de focar na capital mineira e compreender que, para conhecer melhor a aldeia onde viviam, tinham que olhar para o entorno e desenvolver a escuta cuidadosa. Foram incansáveis, apresentaram mais do que pedi e contaram histórias de gente que empreende sem cair na tentação de louvar o empreendedorismo como sendo a solução de todos os males. Descobriram uma lanchonete que oferta rodízio de cachorro-quente e mini-hambúrguer, uma jovem jornalista que criou uma iniciativa de jornalismo local para conectar a comunidade e conquistou milhares de seguidores nas redes, um projeto social esportivo que precisou criar um bazar para alcançar a sustentabilidade financeira. Contaram com delicadeza e precisão essas e outras perspectivas.

Leia a reportagem.

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Fernanda Sanglard é jornalista, mestre e doutora em Comunicação, professora da PUC Minas e uma das coordenadoras dos laboratórios de jornalismo Colab e Marco.