Monday, 22 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

A pedido do governo, AP segurou história por três anos

A Associated Press fez uma revelação explosiva na semana passada ao divulgar que o agente do FBI aposentado Robert Levinson trabalhava para a CIA quando desapareceu no Irã, em 2007. A informação contradiz a alegação do governo dos EUA de que ele visitava o Irã como um cidadão comum quando desapareceu.

A agência reconheceu que soube das ligações de Levinson com a CIA em 2010, mas concordou três vezes em atrasar a publicação da história porque o governo dos EUA disse que estava atrás de pistas promissoras para levá-lo para casa. A AP optou por publicar a informação agora porque os esforços do governo mostraram-se em vão.

Grandes organizações de notícias geralmente ouvem com cautela os pedidos do governo para segurar informações e obedecem algumas vezes, quando consideram necessário. Em declaração, a editora-executiva da AP, Kathleen Carroll, disse que “publicar o artigo foi uma decisão difícil”. “Essa história revela erros graves e ações impróprias dentro da agência de inteligência mais importante do governo dos EUA”, escreveu. “Essas ações, a investigação e as consequências têm sido mantidas em segredo do público. Na ausência de qualquer informação sólida sobre o paradeiro de Levinson, foi impossível avaliar se a publicação iria colocá-lo em risco. É quase certo que seus captores já sabem sobre sua ligação com a CIA, mas sem saber exatamente quem são os sequestradores é difícil saber se a publicação da missão de Levinson faria diferença para eles. Isso não significa que não há risco, mas sem mais informações, concluímos que a importância da história justifica a publicação”.

Revelações importantes

A AP revelou em detalhes como Levinson trabalhava para a CIA realizando funções de um agente de campo. No momento de seu desaparecimento, Levinson buscava informações sobre o programa nuclear iraniano. O acordo secreto com Levinson contrariava o protocolo da CIA e, como resultado, dois agentes concordaram em renunciar e sete outros foram punidos.

A matéria da AP foi escrita pelos vencedores do Pulitzer Matt Apuzzo e Adam Goldman – o último foi recentemente para o Washington Post. Logo depois da divulgação da matéria pela agência, o Post publicou uma outra escrita por Goldman, informando que ele trabalhava na AP em 2010.

O editor-executivo do Post, Marty Baron, disse o jornal decidiu publicar a história porque “continha revelações importantes sobre a CIA que mereciam, finalmente, ser divulgadas. A matéria havia sido feita há anos pela AP, mas não deveria ser segurada para sempre e já tinha passado tempo suficiente”. Baron reconheceu que o Post tinha a matéria pronta, mas estava esperando a AP publicar a sua primeiro.

Em artigo no fim de semana, o New York Times também disse que sabia sobre a ligação do agente com a CIA desde o final de 2007, quando um advogado da família deu a um repórter do jornal acesso a arquivos de Levinson. O Times segurou a informação para evitar prejudicar sua segurança ou os esforços para libertá-lo.

Pressão

A Casa Branca reconheceu que o governo “pressionou fortemente” a AP para segurar a matéria por “preocupação com a vida de Levinson”. “Lamentamos que a AP tenha escolhido publicar uma matéria que não auxiliou em nada a trazer Levinson para casa”, disse em comunicado o Conselho Nacional de Segurança da Casa Branca. A família de Levinson disse não se opor à publicação da matéria e alega que ele serviu durante décadas ao governo e foi abandonado, pois houve pouco esforço para encontrá-lo e reconhecer por que ele foi para o Irã. No final de 2010, a família recebeu uma fita com imagens de Levinson, na qual ele aparecia irreconhecível, esquelético e sentado no que parecia ser uma cela de prisão. “Eu preciso da ajuda do governo dos EUA para responder aos pedidos do grupo que me prendeu. Por favor, me ajude a ir para casa; 30 anos de serviço aos EUA merecem algo”, dizia ele na gravação.

O governo iraniano afirma não saber sobre o destino de Levinson. Funcionários do governo americano acreditam que os iranianos o viam como um espião; eles especulam que ele estaria sob o poder de um grupo com ligação com líderes religiosos, possivelmente a Guarda Revolucionária.