Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Jornalistas indiciados por pirataria junto com ativistas do Greenpeace

Mais de 10 sites de notícias russos, entre os principais veículos independentes do país, responderam à detenção de dois jornalistas que acompanhavam membros do Greenpeace durante uma manifestação, em 19/9, com um blackout literal: cobriram as imagens de suas páginas em sinal de protesto. O cinegrafista britânico Kieron Bryan e o fotógrafo russo Denis Sinyakov estavam junto com os membros da organização de defesa ambiental que protestavam contra perfurações no Ártico tentando escalar uma plataforma de petróleo do grupo estatal Gazprom e foram presos pela Guarda Costeira russa.

Toda a tripulação do barco do Greenpeace está presa provisoriamente no porto de Murmansk à espera de julgamento. São 30 pessoas de 18 países diferentes. Na quarta-feira (2/10), a promotoria russa anunciou que pelo menos 14 delas seriam indiciadas por pirataria. Na lista estavam a bióloga brasileira Ana Paula Maciel e o jornalista britânico Kieron Bryan. Nesta quinta (3/10), foi anunciado, segundo o site do Greenpeace, que toda a tripulação será indiciada, incluindo o fotógrafo Sinyakov. Se condenados, os acusados podem pegar até 15 anos de prisão.

Organizações internacionais alegam que Bryan e Sinyakov foram presos simplesmente por fazer seu trabalho. Sinyakov é um ex-fotógrafo da Reutersque já recebeu acesso aos bastidores de grupos envolvidos em protestos contra o governo russo, como Pussy Riot e Femen. Bryan, que até o ano passado trabalhava para o Times de Londres, havia sido contratado pelo Greenpeace para documentar as ações do grupo no Ártico. Depois de saber da acusação por pirataria, os pais de Bryan, Andy e Ann, afirmaram que ele “simpatizava com a causa”, mas estava lá “apenas fazendo seu trabalho” como videojornalista.

Reação exagerada

A organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras apelou ao Kremlin pela liberação imediata dos dois jornalistas. Críticos reclamam que o governo reagiu ao protesto da semana passada de forma exagerada. Muitos citaram um vídeo gravado pela Guarda Costeira russa que mostra dois ativistas pendurados precariamente à plataforma sendo atacados de cima com jatos de água de alta pressão, ao mesmo tempo em que são rebocados por agentes federais em lanchas. “Eu estou descendo! Estou descendo!”, pode-se ouvir um dos ativistas, o finlandês Sini Saarela, gritando mais alto do que o barulho das ondas no vídeo.

Sinyakov, que aparece em foto algemado em uma cela para acusados, declarou não ter participado da manifestação ou infringido a lei. Um juiz determinou, no entanto, que o fotógrafo apresenta risco de fuga, já que viaja regularmente e não reside em Murmansk. O profissional argumentou ter trabalhos publicados internacionalmente, além de esposa e filho em Moscou. Ele se dispôs a viajar para Murmansk para as audiências, e ressaltou que seu equipamento fotográfico e passaporte foram confiscados. “Minha arma é a câmera”, retrucou. “Eu não furei os barcos, muito pelo contrário, os barcos do Greenpeace é que foram furados. Não posso responder pelos erros do capitão do navio quebra-gelo”.

Fotógrafos empunharam cartazes em frente ao escritório do Comitê Investigativo, esta sendo a única forma de protesto possível de ser realizada na Rússia sem autorização prévia. Dentre os manifestantes estava a esposa de Sinyakov, Alina Zhiganova.

“Me parece que Denis estava no lugar errado na hora errada; ninguém queria saber quem era jornalista e quem não era”, afirmou Ilya Varlamov, dono de um dos blogs de fotografia mais populares da Rússia. "É a primeira vez que vejo algo assim acontecer na Rússia. Sim, costumava haver detenção de jornalistas, mas eles sempre eram liberados em seguida", ressaltou. Varlamov contou que deveria estar no lugar de Sinyakov no navio Arctic Sunrise. "Denis não podia ir e me perguntou se eu poderia ir como fotógrafo em seu lugar. Eu não consegui ir, então Denis foi e isso tudo aconteceu. Era para ter sido eu no lugar dele".