Sunday, 25 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Fim-de-ano: deslumbramento e acomodação

Obedecem aos mesmos impulsos, olham na mesma direção e cedem às mesmas emoções. Nossos jornalistas já podem dispensar-se dos pools, de olhos fechados acabam por comportar-se da mesma maneira. A matéria informativa que resultou da temporada de festas foi típica: no início de dezembro, os lojistas acionaram suas assessorias e a mídia toda começou a lamentar-se de que as vendas não estavam aquecidas, o governo era o culpado por não aumentar os salários, sobrariam estoques para serem torrados em janeiro (como, aliás, acontece há 40 anos em Nova York, Londres e Paris). 

De repente, porque adoramos deixar tudo para a última hora, os supermercados e shoppings encheram-se de multidões compradoras. Então os pauteiros puxaram pela memória e mandaram fazer as mesmas matérias que há mais de 15 anos produzem-se na quadra natalina: o brasileiro está aprendendo a comprar, as crianças já não querem brinquedos, as mulheres é que decidem etc., etc. 

Este ano houve uma novidade conjuntural — as cidades brasileiras iluminaram-se com as versáteis luzinhas chinesas. Como crianças, nossos Bernsteins deslumbraram-se com a nova pirotecnia oriental, desta vez elétrica. A ninguém ocorreu fazer "aquelas" perguntinhas — por que, como, às custas de quem, a quem beneficia? 

O economista Roberto Macedo (Estadão, p. 2, 26/12), também gostou do espetáculo, mas saiu perguntando e descobriu que as luzinhas são "importadas" via Paraguai, os rótulos são falsos, os importadores são fajutados, a maioria não paga impostos e o negócio só enriquece a marginália que vive da especulação. 

O desastre configurou-se nas edições seguintes aos feriados, quando, sem eventos nem declarações de figurões, sem as intrigas das jararacas, o jornalismo nativo mostrou sua capacidade imaginativa. Não fosse o seqüestro em Lima, os jornais teriam assinado um atestado coletivo de inutilidade. (ver Jornalismo na Contra-mão, de Goiânia a Lima). 

Os repórteres ficaram nas redações — ninguém é de ferro (exceção para as televisões, que precisam das benditas imagens). A ninguém ocorreu que valia a pena verificar se as farmácias do plantão estavam efetivamente de plantão, se nelas havia farmacêuticos, conforme estipula a lei, se funcionavam e como funcionavam os serviços públicos essenciais, quantos morreram e quantos se mataram, se os detentos em regime de semi-liberdade voltaram aos presídios, como foi o encontro de um deles com a sua família. 

Com este tipo de humanização do noticiário é que os jornais se tornam indispensáveis. De onde se conclui que a demonização dos fascículos dominicais foi injusta, sem eles o jornal inteiro iria para o lixo.