Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

BOAS FESTAS, DIVIRTAM-SE! O veredicto de Uppsala

Numa tarde gélida de novembro de 1947, quatro professores do Departamento de Sociologia da Universidade de Uppsala, que acabava de ser criado – era o primeiro na Suécia, e seu surgimento deve ser creditado aos esforços de Torgny Segerstedt Junior, catedrático de Filosofia Moral -, resolveram estudar o papel da imprensa nos terríveis acontecimentos vividos pelo mundo na primeira metade do século.

Movidos em parte pela mauvaise conscience que a neutralidade sueca na Segunda Guerra provocara em certos círculos intelectuais do país, Peder Hedman, Johan Dahlman, Lowe Sundberg e Göran Ekerwald – esses os nomes dos beneméritos – resolveram dedicar-se a um estudo aprofundado e abrangente dos fenômenos de estupidificação das massas que contaram com intensa colaboração de jornais e revistas, e do rádio.

Vinte anos depois de iniciado o trabalho, três dos professores já se haviam aposentado. Apenas Göran Ekerwald continuava a lecionar e dirigir pesquisas, com a ajuda de jovens colaboradores. Os trabalhos se mostravam entretanto inconclusivos, e os quatro pioneiros decidiram, em histórica reunião na casa de Hedman, criar uma fundação que fosse à provável raiz do problema: as faculdades de comunicação. Foi criada, assim, a Fundação para a Pesquisa das Causas Primevas da Estupidez Veiculada pela Mídia (Fubecada, abreviação do nome em sueco).

A criação do Centro de Estudos de Mídia e Comunicação que hoje funciona no prédio do Departamento de Sociologia (mostrado na fotografia que ilustra esta página) foi uma oportunidade de ouro para a estruturação de nova pesquisa. Articulado, em 1967, um convênio entre o Centro e a Fundação, não se perdeu tempo. Embora na Suécia o diploma não seja obrigatório para o exercício da profissão, o foco foi deslocado para a formação dos jornalistas.

Várias empresas da região ao norte do lago Mälar, onde fica a cidade, entre as quais a fabricante de filtros de papel Melitta, cônscias da importância do tema, fizeram ao longo dos anos doações que permitiram à pesquisa revestir-se de uma sofisticação até então exclusiva de estudos semelhantes feitos na Dinamarca sobre o papel da residência médica no incremento da mortalidade por erro de diagnóstico em hospitais públicos.

O término desse precioso trabalho, ocorrido no mês passado, trinta anos depois de seu início, não pôde ser testemunhado por nenhum dos quatro venerandos pioneiros, dois dos quais morreram ainda na década de 60, um na década seguinte e o último, Ekerwald, na primavera de 1994, aos 96 anos de idade.

A conclusão é espantosa: depois de examinar todos os aspectos do problema, a comissão encarregada de redigir o relatório final (ver, abaixo, a URL onde pode ser encontrada a versão inglesa do documento) afirma categoricamente:

“As Faculdades de Comunicação não desempenham papel algum no processo. Do ponto de vista da prática do jornalismo, podem ser comparadas a filtros de papel Melitta na preparação de um cafezinho. Se o pó de café for de boa qualidade, o cafezinho sai bom. Se for fuleiro, misturado com serragem, pedrinhas e lascas de madeira, nada feito.”

Esse categórico pronunciamento, com recurso a bizarra metáfora, provocou, é claro, furiosos protestos por parte de numerosos estabelecimentos de ensino não só da Suécia, mas de todos os vizinhos escandinavos e mesmo de alguns países da Europa Central. Além de certo constrangimento entre os patrocinadores, que, entretanto, observaram o provérbio sueco segundo o qual “bom cabrito não berra”.

Trata-se entretanto da mais competente pesquisa feita sobre o assunto e não há como, até segunda ordem, desmentir seus resultados: com faculdades de comunicação ou sem elas, a qualidade do jornalismo praticado depende do padrão dos ginásios onde estudaram seus profissionais, de sua inquietação intelectual desde a juventude, de seu grau de alfabetização, portanto – e da competência, cultura e consciência profissional dos editores.