Friday, 01 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Ciência, pseudociência, alimentos e nutrição

OFJOR CIÊNCIA 99

 

Franco Lajolo (*)

 

H

ábitos alimentares, produtos alimentícios e sua relação com saúde/doença vêm ocupando espaço cada vez maior na mídia, sobretudo porque alimentos industrializados são presença cada vez mais constante na dieta de todas as populações.

Como publicidade direta, merchandising, matérias de serviço ou rotulagem nutricional, os alimentos estão em pauta. E, no furacão que varreu recentemente a Vigilância Sanitária, sua adulteração foi decretada como crime hediondo. É por fazerem parte da vida cotidiana de quase todos os habitantes do planeta, e por movimentarem cifrões tão grandes, que a mídia se ocupa tanto deles.

A presença dos alimentos na mídia, contudo, nem sempre tem servido para educar o consumidor, já que, não poucas vezes, o que rótulos, folhetos, jornais, rádios e TVs veiculam relativamente ao pão nosso de cada dia não constitui informação correta, não obstante a formatação científica de que se revestem. Em função disto, criou-se há um ano nos Estados Unidos (paraíso da junk food, diga-se de passagem) uma associação que reúne renomadas instituições de pesquisa na área de alimentos, e que tem por objetivo tornar o público mais atento aos eventuais desacertos do noticiário relativo a comida.

Este projeto, de alto valor educativo, gerou um decálogo que alerta o leitor para alguns pontos que, tornando a leitura da mídia menos ingênua ? isto é, distinguindo ciência de pseudociência ? pode contribuir decisivamente para a otimização da saúde pública. O decálogo sugere que os leitores tomem cuidado com peças promocionais e notícias que, em estilo científico, prometam resultados mirabolantes. São os desserviços da pseudociência, dos quais os tópicos abaixo constituem bons exemplos:

  • Promessa de resultados imediatos, como fazer desaparecer de um dia para o outro o peso acumulado nas férias, não informando aos leitores que qualquer terapia nutricional séria leva tempo para produzir resultados;
  • Condenação radical de um determinado alimento, como o banimento completo da carne, do sal ou de enlatados do regime alimentar, desrespeitando qualquer racionalidade;
  • Produtos contendo substâncias milagrosas, com promessas de resultados que o próprio consumidor considera bons demais para serem verdadeiros;
  • Redução simplista de estudos complexos, como o que ocorre quando o resultado de uma pesquisa que diz ter encontrado uma relação entre colesterol e infarto preconiza dieta que exclua completamente as gorduras;
  • Recomendações generalizantes, que não levam em conta as diferenças entre indivíduos, grupos de indivíduos ou faixas etárias;
  • Orientações baseadas em pesquisas preliminares, sonegando a informação de que os dados disponíveis ainda são insuficientes para conclusões definitivas;
  • Alegações sensacionalistas não-endossadas por sociedades e instituições científicas sérias.

O decálogo se encerra sugerindo que os leitores não se esqueçam de que rótulos são feitos para ajudar a vender um produto, o que torna muito relevante perguntar-se sempre o que motiva esta ou aquela recomendação.

Vale a pena pensar-se nisso tudo aqui no Brasil? Com certeza. A ocasião parece oportuna para que as luzes que incidem sobre a Vigilância Sanitária e as medidas de impacto anunciadas pelo governo sejam acompanhadas de um aparelho fiscalizador, que faça valer a legislação disponível. Mas nenhuma dessas medidas terá resultados sem uma sólida campanha de educação do público, de forma a que as relações entre governo, indústria de alimentos, seus consumidores e a mídia não se mantenham episódicas, como é o caso da crônica situação da contaminação do leite, ou do abate clandestino de animais para consumo.

Mais do que nunca, no Brasil de hoje todos os segmentos envolvidos precisam ter um papel educativo, importante tanto para as inovações da própria indústria quanto para a defesa do consumidor. É preciso que o público saiba avaliar correlações de fatos, relacionar causas e efeitos, discernir o que é certo do que é provável ou apenas possível, ou seja, que aprenda a separar ciência de pseudociência.

(*) Professor titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP