Monday, 26 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Especulação, alienação e discriminação

José Antonio Palhano

 

E

nquanto a crise instrumentalizar esse discurso pobre de atribuir a outrem suas causasela será sempre menor, portanto mais “inofensiva”. Esquecemos que até o exercício de malvadezas e incompetências várias não provém de uma fonte inesgotável inerente a indivíduos dos quais não gostamos ou, vá lá, que moralmente sejam ligeirinhos por excelência. O “A culpa é sua”,gargarejado há séculos na conta da cartilha dos bonzinhos e engajadinhos, nada mais é que a legitimação da nossa vergonhosa concentração de renda, desde as caravelas. “Não tenho nada com isso, eu não concordo com isso, portanto estou fora”.

Vai daí, a necessidade de se satanizar o próximo, além de dramática, se dá de forma que extrapola largamente a sua capacidade de praticar o Mal. Em português mais claro, quando atribuímos a alguém maldades e/ou defeitos muito além da sua aptidão para produzi-los, estamossomente especulando com suas potencialidades e princípios, sejam eles de que natureza forem. Se especular já é tão fácil, melhor ainda quando fazemos disso uma manobra de transferir ao outro, na maior cara de pau, nossos próprios defeitos e omissões. Especulamos com a moral alheia na exata medida em que a nossa permanecerá eternamente mais imaculada que o períneo de uma virgem. Repetindo, nossa concentração de renda é suficientemente desumana para destruir implacavelmente qualquer tentativa de interpretá-la como decorrente da ação de indivíduos (até porque eles não poderiam sobreviver por 500 anos). Ela é apenas produto de uma nação congenitamente defeituosa no quesito social. Que, à guisa do conhaque, transmite seus atavismos de pai para filho desde sempre.

Foi preciso que o mais contundente e popular crítico do governo desse uma paulada na hipocrisia nacional para que finalmente surgisse a chance de deixarmos o verbo especular longe da nossa retórica azeda e ressentida. Num desassombro de autocrítica, lá está Luís Fernando Veríssimo a nos ensinar: Tremenda injustiça essa de atribuir o epíteto de especulador somente ao doutor Fraga. Todos nós somos (e mestre Verissimo se inclui na lista).

Coitado do senador Roberto Freire. Talvez abalado (ou cobrado) pela saudável guinada ideológica que cometeu, livrando-se de radicalismos e foicezinhas e martelinhos, resolveu recrudescer. Foi um desastre. “É preciso saber se especulou ou não especulou!”, berrou ele vezes seguidas. Como se dissesse “Estuprou ou não estuprou” ou “Roubou ou não roubou”. Só podia dar no que deu. Na tal sabatina protagonizou grande performance naquilo que foi um dos mais emblemáticos shows de baixaria, deseducação e cafajestagem já surgidos na nossa mídia televisiva.

Que coisa mais pobre. E lá no Recife? Não especulamos todos, pernambucanos ou não, com o turismo sexual infantil? Quer dizer então que o prezado senador quer ficar de fora? Não dá. Basta ser brasileiro para arcar com essa barra pesada, Excelência. O resto é conversa fiada.

Na linha do nobre tribuno, vai firme o colunista Clóvis Rossi, ultimamente um especialista em contradizer os editoriais bolados (e impressos) pelo jornal no qual dá expediente. Seu alarmismo com Fraga e especulações diversas o reduziram a um patético arauto do apocalipse. Desde o ano passado que a crise vem espicaçando-o com tamanha maldade que ele há muito já se acha no direito de proibir que seus leitores não tenham medo de serem felizes. Publicou um artigo denominado “Para estragar o sábado”. Assim mesmo, exatamente na data homônima. Que diabos de liberdade de imprensa é essa, capaz de avalizar semelhante desatino? Ou seria isso uma versão neoboba de autoflagelação, inspirada nos ditames do politicamente correto?

Quer dizer então que basta ser articulista da Folha de S. Paulo para que se saia por aí a azedar o fim de semana alheio? Dias sagrados (mais ainda em tempos de crise, diga-se) inclusive segundo os preceitos bíblicos, olha o respeito, cara pálida. Já neste 99 duríssimo, clamou por Pinochet no Planalto. O que poderia ser uma piadinha de mau gosto, típica de quem tá assim com uma danada de uma preguicinhade escrever, não passa de grave sintoma de baixa estima cívica, segundo a qual nossas mazelas devem ser encaradas da maneira mais avacalhada possível.

Já o sociólogo Emir Sader, com seu texto sempre arrumadinho e engomadinho e indignadinho, padece de um surto de soberba acadêmica cuja virulência o faz esnobar solenemente o próprio jornal em que escreve, coincidentemente a mesma Folha, até parece implicância (ou então jornal também tem inferno astral).Tivesse um mínimo de humildade, constataria que a casa tem por norma dar nome aos bois. Recentemente, suas páginas protagonizaram uma polêmica com o ex-ministro Maílson da Nóbrega. A coisa foi longe, ficou até cansativa, mas jamais o jornal se referiu a Maílson – de resto um seu colaborador – senão pelo seu nome de batismo. E sempre em editoriais. Já nosso pseudobelicoso professor optou por vergonhosamente esconder-se. Referiu-se ao ex-ministro como um “obscuro funcionário de terceiro escalão” (18/02). Tremendo acesso de discriminação social, mormente quando se trata de alguém cujas raízes ideológicas obrigam a enxergar o funcionalismo como uma seita. Descontada a imperdoável grosseria ( será que ele especulou com nosso histórico desapreço pela memória, tipo “ninguém se lembra mais do Maílson, vou bater à vontade”), pobre do terceiro escalão, na visão do professor. Só produz obscuros. Ou seja, funcionário de carreira é lenda. Mais aristocrático e alienante, impossível.

Deus nos livre a todos, principalmente do terceiro escalão para baixo, de um eventual governo onde pontifique o professor Sader. Vá que ele cisme de fazer uma faxina hierárquica. Aí só invocando Marx para puxar seu pé e chamá-lo de reaça.