Sunday, 03 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Imagem não é documento. Ou, por que uma ilustração não vale mil palavras

Alberto Dines

Q

uem levantou a bola foi o Jornal Nacional, na edição de quarta-feira, 13/1/99 num editorial antes do encerramento: foto distribuída mundialmente no dia anterior pela centenária agência Reuters mostrava uma fila de pessoas diante de um banco no Rio de Janeiro. A legenda dava a entender que a fila devia-se ao pânico causado pela desvalorização do real anunciada naquele dia. Na verdade, a fila (diante de uma agência do Banerj) devia-se ao fato de que era o último dia para pagar o IPVA para quem tem automóvel com placa de final 1.

No dia seguinte (pg. 8, Cad. de Economia), O Globo fez matéria chamando o caso de fraude jornalística. Sexta-feira, o jornal foi em frente e aumentou o tom: quase uma página inteira (p. 25, mesmo caderno). A embaixada em Londres fez uma reclamação à Press Complaints Comission, cujo porta-voz declarou que acatará o pedido de investigação da representação brasileira. Um dos mais importantes jornais do mundo, o New York Times e o inglês Daily Telegraph publicaram a foto com a legenda tal como a transmitiu a Reuters.

Nenhum dos grandes jornais ou semanários brasileiros deu seqüência ou comentou o episódio. A Ouvidora da Folha não lhe deu importância no domingo seguinte (17/01).

Não é a primeira vez que a imprensa mundial reproduz imagens fraudadas, montadas ou manipuladas que recriam a realidade e muitas vezes a contradizem. E aparentemente, não será o último episódio da caça à imagem.

As grandes agências internacionais premidas pela pressa, pelos custos e, sobretudo, pela degradação dos padrões de qualidade dos seus clientes, já não têm interesse em contratar equipes de fotográfos, muito menos editores locais de fotografia. Tudo é feito na base de “frilas”. E, quando não, de profissionais que geram suas imagens diretamente de uma câmara digital para um laptop e, deste, para as redações no outro lado do mundo, sem passar pelo escalão fiscalizador local. O editor passa a ser o leitor que engole aquilo que escolhe para prestar atenção, incapaz de discernir o que é verdade ou mentira.

As conseqüências da legenda leviana podem não ter sido graves. Mas o fato aciona uma discussão que já deveria estar sendo travada há tempos: a imagem (estática ou em movimento) valida automaticamente a informação? Tem sentido essa corrida desabrida e insensata atrás da visualização do fato, uma das características marcantes e deformantes da Era da Informação ?

O problema não é só da mídia impressa. Começou, na realidade, no telejornalismo, onde os editores, para preencher o tempo das falas em off, sapecam qualquer coisa, desde que tenha alguma relação com o assunto. Jornais e revistas foram na onda, abriram mão da sua capacidade de contar com veracidade e capitularam aos deus da visualização. A febre de ilustrar acabou sendo o desvirtuamento da própria idéia da ilustração.

A CNN, cuja notoriedade baseia-se no conceito da novidade sem nenhum apego à veracidade, é capaz de converter qualquer manifestação de uma dúzia de gatos pingados com um cartaz em inglês num movimento de massas – basta “fechar” o ângulo, ampliar o som e dramatizar a narração. Como isso em geral acontece no fim do mundo, é difícil contestar. No dia seguinte, graças à repercussão, a manifestação será muito maior.

Em abril passado, quando o carioca O Dia pretendeu reforçar suas denúncias sobre a proliferação da droga na periferia carioca, exibiu na primeira página uma foto “artificial”, montada: um adolescente, diante dos pais, cheirando a cocaína acumulada em cima de um exemplar da Bíblia.

Há 101 anos, quando Clemenceau pretendeu dar uma reviravolta no Caso Dreyfus, encheu a primeira página do L’Aurore com um texto arrasador de Émile Zola e colocou em manchete a contração de duas palavras apenas – “J’Accuse”. A mais importante primeira página da história do jornalismo mundial, dispensou qualquer tipo de ilustração.

No princípio, quando não havia possibilidades técnicas de reproduzir a realidade, a narração oral ou escrita visava estimular a IMAGINAÇÃO. Neste exato momento da história da humanidade em que um dos principais objetivos da tecnologia (reprodução da realidade) já foi alcançado, a IMAGEM está sendo aviltada por uma utilização abusiva. Desqualifica-se nossa capacidade de imaginar a verdade através da simulação da verdade – a poderosa verossimilhança da técnica fotográfica.

Logo no início das revelações sobre o grampo no gabinete do presidente do BNDES, novembro passado, na ânsia de ilustrar o “escândalo”, a Folha publicou na primeira página foto de André Lara Resende sendo importunado por uma mendiga, à saída do carro. Ao lado de uma manchete sobre o teor das suas conversas sobre a privatização das teles, a foto funcionava como reiteração subliminar das denúncias. O leitor, desavisado, acabava dominado pela impressão de que algo de muito errado havia acontecido.

Essa verdadeira iconofilia começou com a idéia simplória e estúpida de que uma ilustração vale mil palavras. Repetida ad nauseam pelos que não sabem escrever ou têm medo das palavras. Graças ao erro da Reuters evidencia-se o contrário: uma palavra, desde que adequada, desmoraliza qualquer imagem manipulada.