Thursday, 29 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Meteorologia nublada

Embora jornais e telejornais gastem espaço e tempo com previsões do tempo, os brasileiros não sabem direito como estão seus irmãos do Nordeste. Nem quando o noticiário põe em destaque, no mesmo dia, os problemas da seca.

O texto abaixo, produzido para o site Nordeste sem Fome Online, da Câmara Americana de Comércio de São Paulo, tem informações recentes sobre a falta de chuvas em diferentes áreas nordestinas.

Apesar da expectativa de que as chuvas se normalizassem a partir de janeiro, a maioria dos estados nordestinos continua sofrendo os efeitos da seca . No Rio Grande do Norte, por exemplo, só 11 dos 167 municípios não estão em estado de calamidade pública. No município de Corrente, sul do Piauí, choveu em fevereiro, mas as chuvas foram inconstantes e insuficientes para eliminar a fome e os efeitos da seca de 1998. “Já dá para ver que o inverno não vai ser dos melhores”, afirma Maria Luiza da Cunha, professora ligada aos projetos sociais desenvolvidos pela Igreja Batista de Corrente, responsável, em 1998, pelo cadastramento de famílias que receberam alimentos doados na campanha Nordeste sem Fome, da Câmara Americana de Comércio de São Paulo.

‘Pelo menos até a colheita vai haver fome’, prevê. Segundo Maria Luiza, a colheita será, na melhor das hipóteses, em abril, mas este prazo depende do resultado obtido pelos agricultores que já plantaram suas sementes e dos índices de chuva.

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informa que a previsão é de chuva em toda a extensão do semi-árido a partir deste mês. Francisco de Assis, técnico do Inmet responsável pelo diagnóstico climático da região Nordeste, lembra, porém, que a distribuição pluviométrica é muito irregular e algumas regiões podem ter chuvas abaixo da média. Mesmo nos municípios onde a chuva já começou, a situação continua difícil porque, depois de um ano de seca, os reservatórios de água continuam muito baixos.

Em sua coluna de 21 de fevereiro passado, o jornalista Elio Gaspari afirmou que as chances de o Nordeste entrar no terceiro ano de seca são de três em dez. “No ano passado, os técnicos disseram que choveria e os adivinhos acertaram prevendo um segundo ano de seca”, escreveu.

Irregularidade

Mossoró, no Rio Grande do Norte, é um exemplo da irregularidade das chuvas. Embora tenha chovido em janeiro, os índices pluviométricos ficaram muito abaixo do esperado. A expectativa é que só a partir de março os agricultores consigam iniciar o plantio de milho e feijão.

Segundo Mardônia Nobre, assistente de gabinete da Prefeitura de Mossoró, a situação só não é mais grave porque as cestas básicas continuam chegando à cidade.

O caso de Corrente é mais complicado. ‘A última parcela da verba destinada às frentes de serviço já se esgotou e não há previsão de chegada de novas cestas básicas’, diz Maria Luiza, referindo-se ao fim do apoio à região.

Segundo noticiário da Folha de S. Paulo em 23 de fevereiro, o governo reduziu em 50% o orçamento destinado à distribuição de cestas básicas na região. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), responsável pela aquisição de cestas, informa que, com o corte na verba, cairá pela metade o número de famílias atendidas – 1,6 milhão até o ano passado. A contenção de gastos atingiu também o Programa Federal do Combate de Efeitos da Seca, que atende 1,2 milhão de pessoas em frentes produtivas. O programa foi desativado temporariamente.

Tanto em Corrente quanto em Mossoró, não há projetos de armazenamento de água ou de irrigação em andamento. Maria Luiza, de Corrente, espera que o governo invista num grande açude para a região ou num programa de fixação do homem do campo. ‘O governo precisa dar condições de trabalho para o homem carente não migrar para a cidade. A cesta básica ajuda muito, mas depois que ela acaba, a fome continua’, diz a professora.

Laudo Bernardes, secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente, reconhece que é importante fugir do imediatismo. ‘Se investíssemos durante dez anos à nossa média atual, de R$ 578 milhões por ano, o problema estaria resolvido’, afirma.”