THE NEW YORK TIMES
No primeiro dia de 2002 os leitores do New York Times não mais encontraram o caderno especial A Nation Challenged (uma nação desafiada), com a crônica diária da guerra, do luto americano e da reconstrução, lançado uma semana após os ataques terroristas.
No editorial que anunciou em primeira página o fim da seção, lia-se: "Estes assuntos [relativos aos ataques] se entrelaçaram aos aspectos nacionais e internacionais da vida" (…); "O Ano Novo oferece uma ocasião para refletir sobre essa evolução, incorporando a cobertura às seções principais do jornal."
Sem anúncios, era ainda o único caderno dos EUA especialmente dedicado à cobertura das conseqüências dos atentados. Para alguns editores, o caderno acabou porque os leitores já estavam cansados de uma seção tão árida. Outros consideram que foi a fadiga da equipe de reportagem, que tem se desdobrado para fazer uma cobertura intensiva em várias partes do mundo. Seu fim simboliza também a entrada de Nova York em época mais pacífica.
Segundo Lauren Sandler [Los Angeles Times, 2/1/02], o trabalho do Times foi amplamente reconhecido. "Acho que durante anos será visto como um incrível ponto alto do Times e talvez até do jornalismo americano", elogia o crítico de mídia Jay Rosen, da Universidade de Nova York. Ele considera que o maior mérito do jornal foi fazer uma boa fusão de notícias locais e internacionais.
Para que ninguém diga que a nação desafiada perdeu o desafio, o título será utilizado em matérias dentro do jornal. O editorial do dia 1o ainda faz a ressalva de que o caderno especial pode voltar caso aconteça "outro desenrolar das notícias que transcenda todos os limites". Nestas condições, o leitor preferirá um adeus definitivo ao caderno.
Uma publicação no portal do New York Times, que mistura jornalismo com propaganda paga, causou polêmica entre acadêmicos e críticos de mídia americanos. Paga pelo estúdio New Line Cinema, a "reportagem publicitária" do Times é uma reunião de todas as matérias que o jornal já publicou em sua história sobre J. R. R. Tolkien, autor da trilogia "O senhor dos anéis". O produto que se quer vender é o filme gerado deste livro.
Intitulado "The Tolkien Archives" (os arquivos Tolkien), o sítio promocional gera confusão nos leitores porque tem formatação idêntica à das matérias normais do portal. O único indicador de que na verdade se trata publicidade é um selo no topo da página com os dizeres "artigo patrocinado", o que não esclarece exatamente ao leitor o caráter do material.
Para Paul Grabowicz, diretor de novas mídias da Escola de Jornalismo da Universidade de Berkeley, a idéia de "artigo patrocinado" foi justamente sua maior preocupação ao ver o sítio do Times. Ele também chama atenção para uma confusão semelhante no sítio CBSMarketwatch, que tem uma sessão, o sítio LendingTree, inteiramente escrita por um patrocinador, fato que indica com os dizeres "Powered by" (viabilizado por) junto ao nome do anunciante. "Você precisa deixar clara sua relação com parceiros e patrocinadores", pondera Grabowicz.
Como averiguou Russ Britt [CBS MarketWatch.com, 29/12/01], tem sido difícil para profissionais e críticos definir os limites entre notícia e propaganda na área de novas mídias. Em sua defesa, o Times disse: "Fazemos o melhor para controlar esses problemas, mas às vezes as coisas ficam bem liberais." Scot McLernon, vice-presidente do CBSMarketWatch, demonstrou menos preocupação: "Pode ser que estejamos procurando pêlo em ovo."
