Wednesday, 28 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Projeto Folha chega ao fim

Violência contra o Observatório,
violência contra a Imprensa

Começou como delírio, acabou em paranóia

Alberto Dines

 

OS FATOS:

* Em maio de 1997, fui convidado por Otavio Frias Filho, Diretor da Redação da Folha de S.Paulo, para voltar a escrever no jornal do qual já fora demitido em 1980. Ocuparia na Ilustrada o espaço de Antonio Callado, falecido naquele ano. Na matéria que o jornal preparou para o lançamento mencionava-se o chamado “jornalismo cultural” como tônica dos artigos.

* Comecei em 5 de julho. Depois do terceiro artigo, o mesmo Otavio telefonou para elogiar e pedindo para “esquentar” um pouco. Queria que eu tratasse também de política e mídia. Aleguei que o jornal tinha na ocasião um excelente ombudsman, Mario Vitor Santos, que merecia o maior respeito pela coragem das posições que assumia. Otavio Filho insistiu. Em razão desta insistência, cada vez que entrava na área de mídia avisava o ombudsman e pedia licença para “invadir” o seu território. Licença concedida com a maior elegância. Quando morreu a princesa Diana, a direção da Folha deu chamada para o meu texto no alto da sua primeira página (6/9/97)

Constatação 1: a direção da Folha considerava interessantes e pertinentes minhas opiniões sobre mídia.

* Na véspera do segundo turno da eleições para governadores, o meu artigo da Ilustrada foi suprimido pelo mesmo Otavio Frias Filho sob a alegação de que feria o apartidarismo do jornal. O texto também não foi distribuído aos outros seis jornais que o republicavam. O artigo versava sobre o pleito do dia seguinte e fazia carga contra Paulo Maluf. Convém recordar que em 1980, com cinco anos de casa, fui demitido pelo então diretor Boris Casoy por causa de um artigo sobre o mesmo Paulo Maluf.

* Na semana seguinte o mesmo Otavio permitiu a publicação do texto vetado antes do pleito. Declinei porque o considerava superado. E como queria comentar o ato com total liberdade e sem constrangimento, analisei o episódio na edição de 5/11/98, em Dossiê Censura, deste Observatório [Ver remissão abaixo].

Constatação 2: meu último artigo publicado na Ilustrada, Os homens e suas cidades (6/3/97) [ver remissão abaixo], a propósito da Máfia dos Fiscais, lembrava que Paulo Maluf já regressara ao país e também deveria ser cobrado, presidente que é do PPB, partido ao qual estão filiados os principais acusados. Como a Folha não tinha pretexto para vetar o artigo, a represália veio quatro dias depois.

* Em fevereiro de 1999 começaram a circular com insistência informações de que a Folha, diante dos efeitos da desvalorização do real, começaria a fazer cortes na redação. Foram citados nominalmente alguns repórteres do quadro e dois articulistas: Arnaldo Jabor e Alberto Dines. Essas informações chegaram a ser publicadas em boletins e colunas especializadas. Confirmaram-se imediatamente as demissões dentro da redação. Até meados de março não haviam se confirmado os nomes dos dois colaboradores externos.

Constatação 3: alguma coisa a respeito da minha demissão já estava sendo tramada, faltava a ocasião para consumar as demais.

* Na tarde da quinta-feira, 11/3, enquanto terminava o texto para o sábado seguinte [ver remissão abaixo para A peste, Camus e a franqueza de Franco], recebi um telefonema do editor da Ilustrada, Sérgio Dávila. Constrangido, informou: acabara de receber um telefonema do Otavio [Frias Filho] para me comunicar que não seria necessário mandar o texto – eu estava demitido. E apressou-se em passar adiante a justificativa do Diretor: o meu artigo na última edição do Observatório da Imprensa, on-line, onde dizia: a) que o parque gráfico da Folha fora vendido aos americanos; b) que o Grupo Folha deveria fundir os seus dois jornais populares num terceiro cujo nome estava sendo votado num concurso.

* As informações mencionadas estavam dentro do artigo intitulado Mídia treinada pela inflação não sabe combatê-la [ver remissão abaixo], com 69 linhas, 676 palavras e 4.237 caracteres. Além de constatar a insuficiência da mídia na denúncia dos aumentos abusivos dos preços, foram examinadas as dificuldades financeiras dos principais grupos jornalísticos que não souberam ouvir advertências nem preparar-se para a crise.

* As informações concernentes à Folha estavam em 6 linhas, 79 palavras e 446 caracteres. Outros grupos mereceram espaços muito maiores.

* Na edição de sábado, 13/3, na página 3 da Ilustrada, a Folha tentou minimizar os efeitos do coice com a seguinte matéria: “Gianetti e Dines saem da Ilustrada”. Na parte referente a este Observador diz o seguinte: O jornalista Alberto Dines foi afastado após assinar texto no site “Observatório da Imprensa” que mantém na Internet contendo informações inverídicas sobre o Grupo Folha. Dines vinha alimentando divergências com o jornal, que ele sistematicamente atacava no próprio espaço que lhe era assegurado.

PERGUNTA nº 1: É inverídica a informação de que a Folha vendeu seu parque gráfico a um grupo americano?

Resposta: A operação foi noticiada pela própria Folha na edição de 21/1/97, com uma discreta chamada na primeira página e uma página inteira no caderno “Dinheiro”. Título da chamada: “Grupo Folha faz parceria internacional”. Texto: “O Grupo Folha e a Quad Graphics, terceira maior empresa do setor de impressão dos EUA, se associaram para operar a Plural Editora e Gráfica Ltda. O Grupo Folha vendeu 49% das ações da Plural ao grupo norte-americano, ao fim de uma negociação iniciada em julho de 1996”. Na matéria da página interna informa-se que a Plural Editora e Gráfica funciona num prédio ao lado do Centro Tecnológico Gráfico Folha, em Tamboré, na Grande São Paulo. [ver remissão abaixo para a matéria Grupo Folha se associa a americanos]

Esta operação mereceu no Observatório da Imprensa de 5/2/97 matéria assinada por este Observador com o seguinte título: Últimas do projeto Folha: parceria estrangeira. Além do destaque do título, a matéria estendia-se por 38 linhas, 367 palavras e 2.330 caracteres – cinco vezes mais espaço dedicado à Folha do que aquele que agora provocou a violência contra o seu colaborador.

Outras matérias publicadas no Observatório sobre a mesma operação: edições de 5/10/97 e 5/11/97 (portanto depois de contratado da Folha). Todas de minha autoria. Numa entrevista publicada em outubro de 97, já membro do corpo de articulistas da Folha, no semanário Meio & Mensagem – o principal veículo do mercado publicitário – tratei da mesma operação.

As posições deste Observador na questão da participação estrangeira são sobejamente conhecidas. Sou a favor de uma drástica revisão do Artigo 222 da Constituição. Há mais de três anos venho reivindicando abertamente uma revisão que permita às empresas jornalísticas nacionais capitalizarem-se como todas as demais – no mercado de capitais ou através de parcerias ostensivas com pessoas jurídicas, nacionais e estrangeiras. Portanto, a informação que gerou a insólita reação do diretor de Redação da Folha não é inverídica e não contraria os interesses do jornal.

PERGUNTA nº 2: É inverídica a informação de que a Folha vai fundir os dois jornais populares num terceiro título?

Resposta: A Folha gastou uma fábula numa campanha publicitária para escolher o nome de um novo jornal popular, Agora São Paulo. Está gastando outra fábula para promover o seu lançamento oferecendo panelas como brinde. É sabido que em diversas ocasiões a direção da empresa já cogitou de fechar ora um, ora outro jornal que edita no segmento popular, Notícias Populares e Folha da Tarde. Considerando que os administradores do Grupo Folha não são irresponsáveis nem loucos, considerando as informações que correm no mercado publicitário e jornalístico e a terrível lógica da conjuntura atual, não existe a menor possibilidade de que o Grupo Folha mantenha em circulação em São Paulo TRÊS jornais populares para enfrentar o hegemônico Diário Popular, de Orestes Quércia. A informação do Observatório não é inverídica e faz justiça à competência dos administradores do Grupo.

PERGUNTA nº 3: A Folha é malufista ?

Resposta: A Folha não é malufista sob o ponto de vista estritamente ideológico. No entanto, diante das duas punições anteriores justamente por causa de textos sobre Paulo Maluf e, não obstante o maior respeito que tenho pela figura do empresário Octávio Frias de Oliveira, publisher do jornal, vejo-me na obrigação de constatar publicamente o seguinte: embora o jornal não endosse a linha do presidente do PPB, os acionistas da empresa Folha da Manhã S.A. têm uma dívida de gratidão com o ex-prefeito. Motivo: concedeu-lhes o privilégio de explorar durante muitos anos a antiga estação rodoviária do centro paulistano. Algo equivalente a uma fábrica de dinheiro que deu à empresa editora do jornal uma sólida base financeira. Os interessados podem consultar os arquivos de O Estado de S. Paulo ao longo dos anos 70 para verificar a exatidão do que acima está dito.

PERGUNTA nº 4: O que está acontecendo com o “Projeto Folha”?

Resposta: A reforma da Folha de S.Paulo foi uma extraordinária decisão pessoal de Octávio Frias de Oliveira, que chamou o grande Cláudio Abramo para executá-la. Começou em julho de 1975 e sacudiu a imprensa brasileira então em estado de letargia graças ao funcionamento simultâneo da censura prévia em alguns veículos e autocensura, em outros. A reforma não tinha nome porque não foi montada por marqueteiros. Tinha objetivos profissionais e políticos: ressuscitar o jornalismo e o debate político. A página dois e, logo em seguida, a página três da Folha foram os veículos dessa oxigenação. Também não tinha modelos para copiar: inspirava-se no que de melhor existia na imprensa americana, inglesa e francesa. Sem esquecer o que de bom havia sido feito em nosso país. No início dos anos 80, Cláudio Abramo foi afastado fisicamente da redação. Assumiu uma rapaziada que primeiro pretendeu copiar o Libération e depois, por incompetência e cansaço, antecipando a maré neoliberal, curvou-se ao que de pior foi inventado nos Estados Unidos: o USA Today. Assisti, em 1985, a uma exposição de Otavio Frias Filho durante um evento da ECA-USP do qual também participava. Disse ele o seguinte: o jornalista moderno precisa conhecer duas coisas apenas – marketing e informática. Quem não acompanhar essa tendência vai engrossar o lixo da história.

Achei que delirava. Hoje, 14 anos e um monte de violências depois, acredito que o “Projeto Folha”, maquinado num bunker e distante das necessidades dos leitores, é exemplo da paranóia.

PERGUNTA nº 5: A Folha não acredita em desmentidos ou em “cartas à redação”?

Resposta: Uma inverdade contesta-se. Se é omitida, gera suspeitas de que é verdade. Se o autor da “inverdade” é castigado, as suspeitas convertem-se em certeza. A Folha poderia desmentir aquelas informações através de mensagem a este Observatório. Não o fez. Poderia desmentir nas suas próprias páginas. Também não o fez. A Folha queria tão-somente eliminar um colaborador que incomodava. Tem todo o direito de fazê-lo. Mas poderia usar pretextos mais inteligentes. E menos onerosos para a sua reputação.

OUTRAS PERGUNTAS QUE ESPERAM RESPOSTAS:

6) O real motivo da zanga não teria sido a constatação de que a Folha mudou de tom com relação ao governo e parece mansa ?

7) O compromisso do jornalista profissional é com a sociedade ou com a linha editorial do jornal?

8) Dentro dos padrões vigentes nos países democráticos, deve um profissional free lancer submeter-se às “normas de hospitalidade” da casa que o abriga, jamais divergindo das suas posições?

9) Um articulista-colaborador que presta o mesmo serviço a outros veículos tem obrigação de alinhar-se com todos os jornais-clientes?

10) Um observador da mídia deve evitar críticas ao jornal que publica os seus textos?

11) E se esses textos são publicados em veículos especializados?

12) Para que serve a crítica da mídia – apenas para criticar os outros?

13) Se uma entidade como o Observatório da Imprensa não pode funcionar em sua plenitude nem a cidadania nele manifestar-se com liberdade, qual o papel das organizações da sociedade civil?

RESPOSTAS para o Observatório da Imprensa até o dia 30 de março.

 

LEIA TAMBEM

Dossiê Censura

Os homens e suas cidades


A peste, Camus e a franqueza de Franco

Mídia treinada pela inflação não sabe combatê-la

Grupo Folha se associa a americanos

Últimas do projeto Folha: parceria estrangeira

Enquanto isso, o PEC 455/97 foi arquivado. E a mídia nem reparou.