Monday, 20 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Ventilador de Nicéa não empurra ventoinhas da mídia

J. D. Borges

Dentro do largo conceito de “clássico”, podemos facilmente encaixar aquela categoria de livros pouco lidos e, paradoxalmente, muito comentados. A partir de uma frase tomada ao acaso, a partir de um ponto de vista pinçado maliciosamente ou, mesmo, a partir de um mal-entendido erigido com certo grau de inocência, fragmentos de uma determinada obra tomam o lugar da obra mesma, reduzindo um livro, obrigatoriamente denso e multifacetado, a uma meia de dúzia de opiniões de ocasião a respeito dele. (Opiniões que, não raro, convêm àqueles que detêm a palavra e o poder naquela particular configuração de espaço e tempo.)

Clássicos marcam época. E clássicos caem de moda as well. Apesar das homenagens e dos puristas (e sempre os há), autores, obras-primas e seus respectivos rótulos (sobretudo os rótulos) são varridos para debaixo do tapete da história incessantemente. Aposta-se sempre, é claro, em redenção, num futuro mais justo e esclarecido (no sentido iluminista do termo), em que todos os homens serão bons, em que não haverá mais guerras e em que a paz celestial triunfalmente reinará.

Afinal, você acredita em clássicos?

Mario Sergio Conti acredita e, coincidentemente, acaba de publicar um. O clássico em questão atende por Notícias do Planalto: um alentado volume que trata, dentre outras coisas, do controvertido universo da política – misturada à imprensa, misturada às tradições oligárquicas do Brasil, misturadas às famílias e aos nomes que fazem e desfazem o dia-a-dia e, portanto, a história deste país.

A inveja é uma tradição

Pois uma nação que não produz livros e que não produz estudiosos de relativa monta está condenada a requentar velhos diários, está condenada a se pautar por bolorentas reportagens, está condenada a buscar sua identidade em videotapes e em parcos registros de áudio. Pior: está condenada a se formar, como consciência e como vontade, a partir da análise imediatista e atabalhoada dos nossos comentaristas de última hora.

Conti, apesar de egresso do urgente (urgentíssimo) meio jornalístico tupiniquim, sustenta preocupações que transcendem a semana, a quinzena, o mês, ou a retrospectiva anual. Propõe uma varredura minuciosa e estilisticamente isenta da ascensão e queda do mui recente fenômeno Collor. De forma nada menos que modelar, elenca as contribuições de cada veículo da grande imprensa (escrita e falada), dando nome aos bois, trazendo revelações dos bastidores e, informalmente, contando a história dos órgãos e dos grandes nomes que traçaram o perfil do Brasil na mídia dos últimos anos.

Invejar-lhe-ão, no entanto, o trabalho tão aprumado e sólido. Brasileiros têm dessas. Aferroados a filosofias de conversa de bar, preferem menosprezar a realização alheia, evocando obsoletos e duvidosos critérios éticos e ideológicos, a enfrentar inconsistências e imperfeições do próprio pensamento – seja diante de uma folha de papel em branco, seja, mais grave ainda, diante da perspectiva de um livro que lance algo de original e de coerente no ar.

Legitimidade reforçada

Nossos intelectuais de blablablá preferem se refugiar no cordão dos vitimados a lançar-se na imensidão do conhecimento e da dúvida afim de responder a esta interrogação perene que é o Brasil. Acorrentados às suas cartilhas e aos seus gurus (que não fazem senão ecoar os gurus lá de fora), não têm autonomia alguma para reconhecer o mérito alheio, quanto mais para juntar meia dúzia de idéias que valham a pena e que parem em pé. Quando atingidos em seus brios e orgulhos de quem não fez nada além de regurgitar croniquetas, costumam revidar desqualificando o adversário com ataques personalíssimos – em vez de criticar-lhe a iniciativa com argumentos de gente grande.

Ninguém tem razão. E todos a têm ao mesmo tempo, escreveu-se. Impossível, de antemão, respeitar e conciliar todos os juízos e todas as visões de um mesmo período num único livro. Ainda mais quando a maior parte das personagens passeia vivíssima pelas ruas da época contemporânea. É natural que se rebelem contra uma ou outra omissão, contra um ou outro enfoque, contra uma ou outra ênfase – é aquela história de gregos e troianos. O que não se admite, porém, são os julgamentos e as condenações, ambos peremptórios, à empresa de Mario Sergio Conti. Iniciativas assim, num país de illettrés como o nosso, têm de ser exemplarmente aplaudidas, não importando quem são os donos da verdade ou da veracidade dos fatos.

Por outro lado, refutações e polêmicas de toda ordem só fazem confirmar a legitimidade e reforçar o caráter do referido clássico. Quem quiser negá-lo à altura tem toda a liberdade de responder-lhe com uma obra de igual ou de maior porte.

Clássicos infelizmente são assim. Quem quiser que escreva outro.

 

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