Tuesday, 16 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

O jornalista como mediador crítico

Estava eu assistindo ao seriado The Newsroom, exibido no canal pago HBO, que mostra a rotina de jornalistas em uma redação de televisão, quando deparo com a seguinte cena: a emissora foi comprada por um jovem investidor que pretende “remodelar” a forma de fazer jornalismo.

O novo dono quer que os programas, repórteres, apresentadores, produtores e editores utilizem as ferramentas tecnológicas disponíveis para interagir com o público. Além disso, ele define que as redes sociais serão usadas como fontes de pauta e que os usuários poderão contribuir com vídeos, fotos e até mesmo pequenas “reportagens”, ajudando (de forma preponderante) na formatação dos telejornais. O diretor de jornalismo da emissora se nega veementemente a adotar tais medidas e diz para o jovem milionário que ele deve entender que a preparação e a credibilidade dos jornalistas é que fazem a diferença para o público.

Aí me vieram dois pensamentos: o primeiro é que o tema é relevante, mas já pode até estar ultrapassado. Afinal, as mudanças na relação público/jornalistas causadas pelas novas ferramentas interacionais são uma realidade e os profissionais da notícia lutam para se adaptar. O outro pensamento foi: qual o papel dos jornalistas quando os meios de comunicação tradicionais não mais detêm o monopólio da informação? Hoje, qualquer um com um celular com câmera e internet pode divulgar um fato sem que haja a mínima intervenção de uma organização midiática.

Nesse contexto, há um ponto a ser destacado: o público ainda vê credibilidade nos meios de comunicação e isso faz com que o que é produzido na imprensa seja repercutido fortemente nos ambientes online, principalmente nos sites de redes sociais e nos aplicativos de mensagem instantânea, a exemplo do WhatsApp. Outra prova dessa credibilidade é que as pessoas buscam a mídia tradicional para divulgar o que elas capturam nos seus celulares, computadores etc. E essa busca é potencializada pelo incentivo dado pelos próprios meios noticiosos.

Onovo poder do público

Chegamos então ao cerne da questão: o jornalista hoje, e mais ainda no futuro, com toda sua suposta carga cultural e visão de mundo, atua como um filtro, não só da maneira já cristalizada, mas também selecionando o que chega pelos novos caminhos tecnológicos. Ele analisa o que tem valor-notícia e merece ser divulgado.

Nesse sentido, o ponto que cabe destacar é que o jornalista deve estar preparado para lidar com as constantes mudanças, sem esquecer, claro, a sua principal ferramenta, a escrita, podendo assim atender às necessidades do mercado e do público. Nesses casos, não há diminuição da importância do jornalista. O poder de mediar criticamente é muito relevante numa sociedade em que o fluxo informacional é intenso.

O jornalista Paulo Roberto Júnior, em artigo publicado neste Observatório, resume bem a questão (ver “Como será o jornalismo audiovisual daqui a cinco anos?“): “O momento não é mais de acomodação e, nesta sociedade hiperconectada, sairá na frente o profissional que tiver a ousadia de quebrar os paradigmas impostos pela rotina do trabalho diário, se jogar à inovação e à criatividade e conseguir atuar de maneira mais orgânica com o público.”

É o mercado falando. Mas, voltando ao início do texto, referindo-se à discussão entre o jornalista e o empresário: negar as mudanças e o novo poder do público é negar uma realidade que os jornalistas não podem mudar.

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Raul Ramalho é jornalista