ZERO HORA

Missões 2 – A chupada

Por Willians Barros em 04/01/2005 na edição 310

O repórter Humberto Trezzi, prócer do tablóide Zero Hora, de Porto Alegre, acaba de operar um verdadeiro prodígio. Tão espetacular é o portento que mereceria mesmo o Prêmio Padre Quevedo de Jornalismo, caso existisse o galardão. Se não, como explicar, à luz da razão, a extraordinária coincidência entre o que ele publicou dia 14 de dezembro último no caderno Viagem, de ZH, e o que saiu na revista Viagem e Turismo, um ano e meio antes?

Genericamente intitulada "As Missões paraguaias", a reportagem de Zero Hora apresentou o relato de Trezzi sobre sua viagem ao país vizinho, privilegiando as atrações ligadas ao período das reduções jesuíticas. Causou estranheza, no entanto, o texto estampado na página 6 do caderno Viagem. Sob o título "Missões, destaque no sul paraguaio", três parágrafos dos quatro que compunham o opúsculo não eram inéditos. O trecho em questão apresentava um abreviadíssimo resumo da saga missioneira, compactando dois séculos de história em menos de 30 linhas.

Apesar de curto, o textinho deu um baita trabalho a quem o escreveu primeiro. Foram horas de leitura e pesquisa, conversas ao vivo com alguns catedráticos, consultas a arqueólogos, bate-bolas com peritos do Iphan, tudo para que o leitor tivesse, ainda que superficialmente – mas com correção –, uma idéia do que teria sido a epopéia jesuítico-guarani. Chiquitito, pero cumplidor, o excerto foi publicado originalmente na edição 92 (Ano 9, número 6, junho/2003) da revista Viagem e Turismo, da Editora Abril. Trata-se de um box da reportagem "A grande utopia", de minha autoria, com fotos de Alex Silveira.

"A gente não costuma arquivar..."

Perplexo com tamanha homografia, interpelei o laureado repórter de Zero Hora. "Não li teu material e nem vi a revista", garantiu-me Trezzi, por e-mail. "Recebi muito material de divulgação na viagem, não precisaria disso", jactou-se ele. De fato, Humberto Trezzi esteve no Paraguai, sob os auspícios da TAM. Mas, se ele não "viu a revista", como alega, de que maneira o fenômeno poderia ser explicado?

A resposta veio por intermédio de Altair Nobre, editor de Geral de ZH, ao qual o caderno Viagem está subordinado. Por telefone, ao ser informado de que o jornal publicaria uma nota de "esclarecimento", fiquei sabendo também que as "fontes" de Trezzi foram alguns folhetos e releases recebidos por ele de um guia turístico paraguaio. Perguntar não ofende: "Em que idioma estavam escritos esses... hum... materiais?", indaguei. "Em espanhol", asseverou Nobre. Deduzi, então, que os nossos vizinhos guaranis surrupiaram a matéria da revista brasileira, trasladaram o texto para o castelhano e o publicaram em folhetos.

Trezzi, por sua vez, traduziu brilhantemente aqueles parágrafos – com tal maestria que ficou rigorosamente igual ao texto da revista Viagem e Turismo – e os publicou em sua matéria. Bem, pelo menos é nisso que Zero Hora quer que seu leitor acredite. Por puro reflexo, quis saber se esses "materiais paraguaios" ainda estavam nalguma gaveta da redação. "A gente não costuma arquivar essa papelada", ouvi como resposta. "Mas já entramos em contato com o pessoal lá do Paraguai, para que eles mandem pelo correio..."

Zero Hora publicou um "esclarecimento" na edição de quarta-feira (29/12). Um primor de ambigüidade.)

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Willians Barros