
(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
A condenação a 27 anos de prisão deixou poucas opções para o ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, continuar influenciando na política nacional. Uma delas, talvez a mais polêmica, que está sendo debatida no seu círculo pessoal de seguidores, é o lançamento de um dos seus três filhos parlamentares para substituí-lo na disputa pela Presidência da República no próximo ano contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 79 anos. Esta opção já foi debatida antes. Agora, ela tem um novo e poderoso argumento: manteria com a família o legado político de Bolsonaro. Se indicar uma pessoa de fora da família, o ex-presidente perde o controle do seu legado. E ainda corre o risco de ser esquecido mesmo que seu candidato seja eleito. Esta preocupação não é paranoia. Ela é real. Existe o risco, caso o indicado por Bolsonaro seja eleito, de ele simplesmente se distanciar do ex-presidente e do seu círculo pessoal de seguidores para não contaminar o seu governo com o radicalismo bolsonarista. Vamos conversar sobre o assunto.
Nos dias atuais, há uma fila de candidatos que disputam o legado político de Bolsonaro. Lembro que, em junho de 2023, o ex-presidente foi tornado inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Desde então, o topo da fila é ocupado por quatro governadores que pleiteiam a indicação do ex-presidente para substituí-lo nas eleições de 2026. São eles: Romeu Zema (Novo), 60 anos, de Minas Gerais, Ronaldo Caiado (União Brasil), 75 anos, de Goiás, Ratinho Júnior (PSD), 44 anos, do Paraná, e Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos, de São Paulo. A preferência aparentemente recai sobre Freitas, por ter sido ministro e é um eterno agradecido a Bolsonaro, que lhe emprestou seu prestígio político para elegê-lo ao governo paulista em 2022. Grosso modo, o ex-presidente tem sob sua influência 25% dos eleitores. Lula tem mais ou menos a mesma porcentagem. Quem vai eleger o novo presidente será o voto de centro, somado aos eleitores que decidem na última hora em que vão votar. E, por este motivo, os governadores querem distância do lado radical do bolsonarismo. Ou seja, querem os votos do ex-presidente sem “sujar as mãos”. Especialmente com a defesa do projeto de anistia ampla e irrestrita para os golpistas. Muito embora os parlamentares bolsonaristas raiz preguem que conseguirão passar no Congresso o projeto, todos sabem, incluindo as pedras dos calçamentos de Brasília (DF), que depois das condenações de Bolsonaro e outros sete envolvidos na tentativa de golpe pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) as chances de acontecer a anistia, que já eram pequenas, desapareceram. E mesmo que o projeto fosse aprovado, o STF o declararia inconstitucional.
Além disso, as pesquisas de opinião pública mostram que mais de 52% dos brasileiros são contra a aprovação da anistia. Também há a pressão dos Estados Unidos para anistiar Bolsonaro. Mas, a não ser que o presidente americano, Donald Trump (republicano), 79 anos, mande tropas invadirem o território brasileiro, a anistia não será negociada, por ser considerada uma interferência estrangeira na soberania nacional. Aqui é o seguinte. Fui alertado por uma fonte. Caso o ex-presidente indique um filho para concorrer e ele seja derrotado por Lula, mesmo assim a família ganhará porque terá um candidato às eleições presidenciais de 2030. Os três filhos parlamentares do ex-presidente são Eduardo, deputado federal por São Paulo (PL), 41 anos, Flávio (PL), senador pelo Rio de Janeiro, 44 anos, e Carlos (PL), vereador pelo Rio, 42 anos. Atualmente, o que está “na vitrine” é Eduardo, que se mudou para os Estados Unidos, onde montou uma equipe de lobby que conseguiu convencer Trump a se envolver na história da anistia do seu pai. Os brasileiros só seriam mais uma vítima do tarifaço de Trump se não fosse a ação deste lobby. Ao contrário dos outros países, o Brasil foi tarifado por motivos políticos, o que assegura longos e generosos espaços na imprensa internacional. Até para não tornar o texto chato, preferi deixar a explicação para o final da conversa. Não tirei da minha cabeça as ideias que enfileirei. Consultei várias pessoas, especialmente bolsonaristas raiz próximos ao círculo pessoal do ex-presidente, sobre os dias seguintes à condenação de Bolsonaro. Um deles me disse o seguinte: “A herança que o Bolsonaro deixa para os seus filhos é o seu prestígio político. Por que iriam deixar em mãos de estranhos?” Eu liguei para ouvir a opinião da fonte. E não para debater o assunto. Caso o ex-presidente indique um dos filhos para concorrer em seu lugar, quem ele indicaria? Isso é uma outra história. Há um fato ao qual a imprensa precisa ficar atenta. Esta é a primeira vez na vida política do ex-presidente que ele não tem como sair da enrascada que entrou do seu modo usual: gritando palavrões e disparando desaforos contra os adversários. Como irá reagir? O fato é que Bolsonaro construiu tijolo por tijolo a sua atual situação. Lembro o fato dele ser contra as vacinas, especialmente durante a pandemia de Covid (2020 – 2022), e também a sua luta contra as urnas eletrônicas. Conclusão. Quem substituir Bolsonaro terá que ter o seu perfil contra o sistema.
Ter o mesmo perfil do ex-presidente pode significar acabar na cadeia, como aconteceu. Lembro que o ministro Alexandre de Moraes, 56 anos, disse que Bolsonaro e seus seguidores começaram a articular o golpe de estado em junho de 2021. O que aconteceu na época? Uma pesquisa feita pela Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (IPEC) mostrava Lula com 49% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro, que concorria à reeleição, tinha apenas 23%. Para evitar a derrota, o grupo de apoio do ex-presidente começou a articular o golpe. Tenho dito que Bolsonaro começou a articular o golpe no minuto seguinte ao que ocupou o cargo em 2019. Ele sempre enalteceu os golpistas de 1964 que governaram o país durante 21 anos, deixando um rastro de assassinatos de presos políticos, torturados e uma bagunça na administração federal que causou uma hiperinflação. A Constituição de 1988 foi pensada da maneira a evitar que 1964 se repita.
Publicado originalmente em Histórias Mal Contadas
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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.
