Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Tudo coopera para os votos: mídia, desinformação e democracia nas eleições

(Foto: Paulo Evangelista/Unsplash)

A confirmação de António José Seguro e de André Ventura no segundo turno das eleições presidenciais em Portugal, prevista para acontecer no dia 8 de fevereiro de 2026, não representa apenas o cumprimento formal de uma etapa do processo democrático. Ela revela, com particular nitidez, o funcionamento de um ecossistema comunicacional profundamente tensionado, no qual a disputa política se constrói muito antes do dia da votação. O resultado da primeira volta não pode ser compreendido como expressão direta e transparente da vontade popular, mas como produto de um conjunto de mediações – sondagens, enquadramentos jornalísticos, circulação de informação e desinformação – que cooperam ativamente para moldar percepções, expectativas e escolhas eleitorais.

A ida de António José Seguro (Partido Socialista) e André Ventura (Partido Chega) ao segundo turno desmonta, de forma objetiva, a narrativa construída reiteradamente pelo líder do Chega de que a sua candidatura “extravasaria” já na primeira volta. O discurso de vitória antecipada, amplamente difundido nas redes sociais e reforçado por sondagens informais ou manipuladas, não se confirmou nas urnas. Ainda assim, a presença de Ventura no segundo turno não pode ser tratada como episódio circunstancial: ela deve ser analisada como expressão concreta do avanço da extrema-direita no espaço político português, em consonância com tendências mais amplas observadas no contexto europeu.

A vitória relativa dos dois candidatos mais votados deve ser lida menos como ponto de chegada e mais como sintoma de um processo cumulativo de construção simbólica do voto. O segundo turno nasce atravessado por narrativas reiteradas, climas emocionais produzidos midiaticamente e pela sensação de inevitabilidade fabricada em torno de determinados cenários eleitorais. Nesse contexto, o voto deixa de ser apenas um ato racional informado e passa a ser condicionado por fluxos de medo, entusiasmo ou rejeição, construídos no espaço público.

As sondagens desempenharam papel central nesse processo. Para além da sua função informativa, passaram a operar como dispositivos performativos, influenciando campanhas, decisões editoriais e comportamentos eleitorais. Como alertava Pierre Bourdieu, as sondagens não apenas medem a opinião pública – elas contribuem para produzi-la. Em Portugal, esse efeito foi intensificado pela circulação de pseudo-sondagens nas redes sociais, desprovidas de metodologia e transparência, amplamente partilhadas por atores políticos interessados em criar a perceção de crescimento inevitável. O segundo turno, assim, não surge como ruptura, mas como continuidade de uma disputa comunicacional já em curso.

Desinformação, imigração e a lógica emocional das plataformas

O ciclo eleitoral português foi marcado por uma circulação intensa e sistemática de desinformação nas redes sociais. Vídeos fora de contexto, dados falsos, associações indevidas entre imigração e criminalidade, ataques pessoais e narrativas conspiratórias atingiram milhões de visualizações. Trata-se menos de excessos pontuais e mais de uma estratégia política deliberada, orientada pela exploração de emoções primárias – medo, raiva e ressentimento – como forma de mobilização eleitoral.

Nesse processo, o Chega e o seu líder ocuparam posição central. A desinformação não aparece como ruído colateral, mas como recurso discursivo estruturante, utilizado para polarizar o debate público, descredibilizar adversários e fragilizar instituições, incluindo a própria comunicação social. A imigração foi convertida em eixo central dessa retórica, frequentemente apresentada como ameaça civilizacional ou problema de segurança, independentemente dos dados empíricos disponíveis.

Essa estratégia não é isolada nem exclusivamente portuguesa. Ela se insere num movimento mais amplo de avanço da extrema-direita na Europa, visível em diversos países do continente, onde discursos anti-imigração, nacionalistas e antimídia têm conquistado espaço institucional. Em todos esses contextos, observa-se um padrão recorrente: instrumentalização do medo, produção de pânicos morais e uso intensivo das plataformas digitais para contornar o jornalismo profissional e falar diretamente a audiências mobilizadas pelo ressentimento.

Uma das principais análises europeias sobre desinformação que se debruça diretamente sobre o contexto português foi publicada no portal do European Digital Media Observatory (EDMO), no relatório “Portuguese General Elections 2025: Information and Disinformation on Social Media”. O documento, produzido no âmbito de uma investigação apoiada pelo Iberian Digital Media Observatory (IBERIFIER) – um hub integrado na rede europeia EDMO – traça o panorama das dinâmicas de informação e desinformação nas plataformas digitais durante o ciclo eleitoral de 2025 em Portugal.

Segundo o relatório, entre as eleições de 2024 e 2025, os principais partidos e candidatos viram um crescimento substancial das suas bases de seguidores nas redes sociais, com o Chega e o seu líder, André Ventura, a liderarem em número de seguidores e interações em quase todas as plataformas, incluindo Facebook, X e TikTok – um reflexo não apenas da sua presença online, mas também da capacidade de gerar conteúdos altamente engajantes, muitos deles com potencial de amplificação de desinformação política.

O estudo destaca ainda que o fenômeno da desinformação não está isolado em Portugal, mas insere-se num quadro europeu mais amplo em que narrativas enganosas e conteúdos manipulados são cada vez mais identificados como fatores de risco para a integridade dos processos eleitorais democráticos, exigindo avaliação crítica, resposta institucional coordenada e literacia mediática reforçada nos Estados-Membros.

As plataformas digitais funcionam como infraestruturas decisivas dessa amplificação. Seus algoritmos privilegiam conteúdos com alto potencial de engajamento, geralmente associados a mensagens simplificadas, emocionalmente carregadas e polarizadoras. Como observa Manuel Castells, o poder na sociedade em rede reside na capacidade de programar fluxos de comunicação. Nesse ambiente, a viralização tende a substituir a verificação, e a intensidade emocional passa a valer mais do que a consistência factual.

Mídias portugueses, polarização e o risco de repetir o erro brasileiro

A análise das eleições portuguesas exige uma reflexão crítica sobre o papel desempenhado pelos mídias tradicionais. Televisão, rádio e imprensa continuam a ser centrais na legitimação do debate público, mas operam sob forte pressão de mercado, concorrência digital e métricas de audiência. Nesse contexto, a cobertura política tende a privilegiar o conflito, a provocação e a personalização extrema, frequentemente em detrimento da contextualização e da análise crítica.

A exposição reiterada de discursos provocatórios – sobretudo os associados à extrema-direita – levanta um dilema ético fundamental: quando a cobertura deixa de informar e passa a amplificar. Ao reproduzir declarações falsas ou ofensivas sem o devido enquadramento, o jornalismo corre o risco de normalizar o extremismo e de se tornar parte da engrenagem que alimenta a desinformação. Como alertava Jürgen Habermas, a democracia depende de uma esfera pública orientada pela racionalidade crítica; quando essa esfera é capturada pela lógica do espetáculo, a deliberação democrática se fragiliza.

É nesse ponto que a experiência brasileira recente se impõe como advertência. Após a ascensão de Jair Bolsonaro, o Brasil viveu um processo profundo de polarização, marcado por ataques sistemáticos à imprensa, descrédito das instituições e proliferação de narrativas falsas. Esse cenário não surgiu de forma abrupta, mas foi construído gradualmente, por meio da normalização do discurso de ódio, da relativização da mentira e da conivência mediática com estratégias de desinformação.

Portugal não vive – e não viveu – uma situação idêntica. Contudo, a presença da extrema-direita no segundo turno presidencial indica que o país não está imune às mesmas dinâmicas que atravessam a Europa e outras democracias ocidentais. Tratar esse avanço como episódio pontual, e não como processo estrutural, representa um erro analítico que pode custar caro à qualidade da democracia portuguesa.

As eleições mostram que tudo coopera para os votos. Mas revelam também que a democracia não se esgota no ato de votar. Ela depende da qualidade da informação que circula, da capacidade crítica dos cidadãos e do compromisso dos meios de comunicação com a construção de um espaço público plural, informado e deliberativo.

Referencias bibliográficas 

Bourdieu, Pierre. (1979). A opinião pública não existe. In: Questões de Sociologia. Lisboa: Fim de Século.

Habermas, Jürgen. (1984). Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro.

Castells, Manuel. (2009). Communication Power. Oxford: Oxford University Press.

Hall, Stuart. (1997). Representation: Cultural representations and signifying practices. London: Sage.

European Digital Media Observatory (EDMO). (2025). Portuguese General Elections 2025: Information and Disinformation on Social Media. Bruxelas: EDMO.

IBERIFIER – Iberian Digital Media Observatory. (2025). Information and Disinformation in the Portuguese General Elections. Lisboa/Madrid: IBERIFIER.

OberCom – Observatório da Comunicação. (2025). Legislativas 2025: Informação e desinformação nas redes sociais. Lisboa: OberCom.

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Cleyton Douglas Vital é pesquisador no departamento de Ciências da Comunicação, no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE) em Portugal. Investiga temas com foco em jornalismo policial, jovens e representações midiáticas da violência.