
(Foto: Antonio Batinić/Pexels)
O pedido de desculpas da GloboNews, no último dia 23/03, pela arte exibida no caso Daniel Vorcaro, importa menos como caso isolado e mais como sintoma. A emissora reconheceu que o material estava “errado e incompleto” e que não deixava claro o critério usado para reunir nomes e relações na arte. É justamente aí que esse debate deveria ser melhor aprofundado. O problema não está só no erro, mas também no que ele revela sobre a maneira como o telejornalismo organiza visualmente uma narrativa.
Casos assim costumam ser lidos de maneira simplificada. De um lado, o argumento automático de perseguição. De outro, a tentativa de reduzir tudo a um simples “escorregão”. Os dois caminhos empobrecem o debate. Em televisão, o problema não está apenas no dado errado, nem apenas na intenção de quem montou a arte. Está também no fato de que a imagem pode sugerir mais do que a reportagem, o repórter ou o apresentador conseguem explicar com clareza. E, em televisão, isso importa ainda mais porque a narrativa que chega ao público é sempre resultado de uma engrenagem de decisões editoriais. Portanto, o jornalista que aparece no vídeo é o rosto visível de um produto que resulta sempre de um processo coletivo.
No telejornalismo imagem não é detalhe, mas uma linguagem que ajuda a produzir sentido, seja com uma arte, a posição de um nome na tela, o enquadramento dos personagens, entre outras coisas. Os elementos visuais não apenas acompanham a informação, mas oferecem uma leitura dela. Quando esse recurso é bem usado, ajuda o público a entender melhor um tema complexo e o contexto. Quando é mal usado, cria uma aparência de evidência para conexões que talvez não tenham sido suficientemente explicadas ou mesmo apuradas.
É nesse momento que entra uma espécie de critério invisível ao público. Assim como na reportagem, uma arte no estúdio de um telejornal também deve ser orientada por critérios editoriais. Há uma seleção, uma hierarquização e um contexto. A diferença é que, quando esses critérios não ficam claros na imagem, o público vê apenas o efeito final, não a lógica que o produziu. Assim, a imagem ganha autonomia demais em uma narrativa, podendo sugerir mais do que efetivamente explica. A força da imagem em televisão nunca é neutra.
Recentemente discuti sobre como a literacia mediática também diz respeito à capacidade de perceber como a notícia é construída e como seus sentidos são orientados. No telejornalismo, isso exige que enquadramentos, contextos e critérios editoriais não desapareçam atrás da força da imagem. Ao contrário, a visualização tende a se impor como síntese da realidade, mesmo sem ter exposto por inteiro o caminho que levou a essa construção narrativa.
Refletir mais sobre literacia mediática ajuda a fugir da crítica superficial. O problema não surge apenas quando se divulga algo totalmente falso. Em muitos casos, o dano aparece quando informações verdadeiras, incompletas ou soltas são reorganizadas de um modo que induz o público para uma leitura distorcida. A discussão sobre desordem informacional traz justamente essa perspectiva. A distorção, a descontextualização e o modo como fatos reais podem ser organizados para induzir uma leitura equivocada são tão graves quanto conteúdos falsos, porque também comprometem a compreensão pública dos fatos.
É por isso que esse caso não deve ser lido apenas como uma falha de “acabamento”. Ele também toca numa dimensão pedagógica do telejornalismo. Quando o noticiário recorre a gráficos, mapas, quadros e conexões visuais, ele não está apenas tornando a informação atraente, mas ensinando o público a olhar para ela. Se a imagem produz impacto sem explicar seu próprio critério, o telejornal falha não só como edição, mas como mediação pública.
Por isso, o pedido de desculpas foi necessário, mas não deve encerrar essa discussão. Mesmo porque não se trata de um caso isolado ou apenas de uma emissora. Em jornalismo, corrigir não deveria ser apenas reconhecer que houve um erro. Deveria significar explicar o que falhou, por que falhou e qual critério deveria ter orientado a edição. Sem isso, a retratação repara parte do dano, mas não evidencia como se produziu o problema.
No fim, a pergunta mais útil talvez não seja se a GloboNews errou. A questão mais importante é pensar se o telejornalismo de hoje tem conseguido tornar seus critérios tão visíveis quanto suas imagens. Quando a imagem se sobrepõe ao método, o jornalismo perde clareza e credibilidade.
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Vitor Belém é Jornalista, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor da Universidade Federal de Sergipe. Foi repórter e produtor de TV e atua como pesquisador na área de jornalismo audiovisual.
