Sexta-feira, 4 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1404

A opacidade da transparência

(Foto: Joachim Schnürle/Pexels)

A discussão provocada pelo vazamento seletivo de informações das investigações da Polícia Federal recoloca uma questão que o jornalismo costuma tratar como predominantemente operacional: a de quem deve ter acesso aos documentos, quando esse acesso deve ocorrer e em que medida o sigilo de uma investigação interfere no direito à informação. A controvérsia envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e Flávio Bolsonaro recoloca esse debate em um ambiente sensível, no qual qualquer informação sobre os filhos de Lula ou Bolsonaro rapidamente ultrapassa a dimensão policial e ingressa no terreno das disputas políticas. A defesa de Fábio Luís chegou a avaliar um pedido de retirada integral dos sigilos dos inquéritos, ideia com apelo democrático, pois com os autos disponíveis seria possível conhecer a investigação sem depender da seleção de quem libera.

Quando uma instituição pública libera documentos de maneira sucessiva a ordem da divulgação passa a ter relevância jornalística, a primeira informação publicada oferece um enquadramento, e as seguintes chegam a um público que já recebeu uma primeira interpretação. Pesquisadores que estudaram a cobertura de corrupção no Brasil encontraram uma dinâmica de concentração da atenção jornalística capaz de produzir cascatas informacionais. O estudo de Mads Damgaard (2018), baseado em 8.800 itens noticiosos, demonstrou que a cobertura desigual da corrupção em 2015-2016 gerou uma cascata informacional que ajudou a legitimar o impeachment de Dilma Rousseff, ao mesmo tempo em que a mídia deixou de lado questões de responsabilização, prejudicando a democracia.

O jornalista Luiz Carlos Azenha tem insistido nesse ponto ao lembrar um precedente de 2006, dado que às vésperas do primeiro turno daquela eleição, a PF divulgou fotos do dinheiro apreendido no episódio conhecido como Dossiê Vedoin, ligado à máfia dos sanguessugas. O delegado responsável, Edmilson Pereira Bruno, chegou a negar que tivesse distribuído as imagens à imprensa, antes de assumir a autoria. A repercussão desgastou o então candidato Lula e ajudou a empurrar a disputa para o segundo turno. O jornalista traça um paralelo direto com o caso Lulinha em que vazamentos seletivos de órgãos investigativos, concentrados no período eleitoral, seguem funcionando como ferramenta política, reforçando a tese de que a cronologia da divulgação nunca é neutra (https://www.youtube.com/watch?v=PJT8hJIScd8).

Por isso, a expressão “conta-gotas” é mais do que uma metáfora sobre a quantidade de documentos divulgados, ela designa uma forma de administrar a temporalidade da informação. Quem decide quando um documento se torna público interfere nas condições em que ele será recebido, comentado e incorporado ao noticiário, o intervalo entre duas divulgações também comunica algo, ainda que ninguém tenha planejado conscientemente esse efeito.

A defesa da abertura integral dos autos aparece, nesse cenário, como tentativa de reduzir essa assimetria, já que se todos os documentos estiverem disponíveis, a sociedade não dependerá exclusivamente dos fragmentos vazados. Há, entretanto, uma questão que costuma desaparecer quando a transparência é apresentada como solução suficiente, quem lê os documentos também interpreta. A imprensa não recebe a realidade em estado bruto, recebe documentos que precisam ser selecionados, contextualizados, hierarquizados e transformados em linguagem pública. Algum jornalista terá de escolher o que merece atenção, decidir quais documentos são relevantes, definir o título e determinar o que vai no lead. A mediação permanece presente, ela apenas muda de lugar.

Esse reconhecimento não precisa conduzir a uma visão cética segundo a qual todas as interpretações seriam equivalentes. Jornalistas podem errar, assim como podem investigar rigorosamente, submetendo suas hipóteses a procedimentos capazes de produzir correções, a subjetividade do profissional existe dentro de uma estrutura institucional que pode restringi-la, compensá-la ou amplificá-la. O jornalista não observa a investigação a partir de um lugar exterior à sociedade, sua formação, suas relações profissionais e sua visão política integram a maneira como percebe um acontecimento. Isso não invalida o jornalismo, torna sua responsabilidade maior, apoiada menos numa suposta pureza do observador e mais na qualidade dos procedimentos que controlam o que interfere na observação: informar de onde veio o documento, separar uma afirmação policial de um fato comprovado, procurar os investigados, apresentar evidências que complicam a hipótese inicial e acompanhar o caso depois que a comoção desaparece.

Essa última dimensão costuma ser esquecida. A operação policial possui grande força imagética e o desfecho processual raramente possui o mesmo potencial, uma investigação pode ocupar manchetes durante semanas e, anos depois, terminar em arquivamento ou absolvição sem atenção proporcional. O desequilíbrio temporal produz memória própria, a acusação permanece associada à pessoa mesmo quando a situação jurídica se transforma. O fenômeno se torna mais delicado quando a investigação envolve personagens de forte simbolismo político. Lula e Bolsonaro funcionam, no imaginário público brasileiro, como polos de identidades que atravessam partidos, famílias e mídias sociais; uma informação sobre seus filhos dificilmente será recebida como isolada, será incorporada a narrativas anteriores sobre cada grupo. Cibele Silva e Souza (2023) encontrou diferenças na representação da corrupção entre portais e Twitter. Nos portais, associada a investigações e procedimentos jurídicos, nas mídias sociais, a disputas partidárias e julgamentos morais.

A publicação integral dos autos pode ampliar o acesso à informação, mas não produzirá uma comunidade de leitores que interprete os documentos de maneira homogênea, cada leitor buscará algo diferente no mesmo material, e a quantidade de informação não garante, por si só, a qualidade da compreensão. A própria documentação possui diferentes níveis de certeza sem que os elementos tenham necessariamente o mesmo peso probatório; a publicidade integral pode tornar esses níveis visíveis, mas também pode fazer com que sejam confundidos por leitores que não conhecem a lógica de uma investigação criminal. A imprensa terá de fazer o trabalho que nenhum sistema automático de transparência consegue realizar, ou seja, contextualizar.

É aí que a proposta de “jogar tudo” para a sociedade encontra um limite importante. O Estado pode abrir os documentos, mas a sociedade continuará precisando de instituições intermediárias capazes de interpretá-los. A questão democrática passa pela pluralização dos intérpretes, pois quanto mais veículos e instituições têm acesso aos mesmos materiais, maior a chance de interpretações concorrentes serem confrontadas. O problema do conta-gotas não decorre apenas de faltarem documentos, mas de que a sequência de divulgação organiza antecipadamente a leitura daquilo que ainda será conhecido, e o risco também existe quando tudo é liberado de uma vez, pois o volume documental abre espaço para novas seleções, e cada ator retirará do conjunto aquilo que melhor se ajusta à sua narrativa.

A imprensa pode ser igualmente influenciada pela lógica das instituições que cobre. Quando uma investigação produz documentos e vazamentos em grande escala, o calendário da polícia pode virar o calendário das redações, já que uma instituição investigativa profissionalizada sabe quais informações possui, quais podem ser divulgadas e quais consequências políticas uma divulgação produzirá. A assimetria não desaparece com a abertura dos autos, e a história recente brasileira impede confiança excessiva na neutralidade de uma única instância. A cobertura da Operação Lava Jato demonstrou como imprensa, instituições de persecução penal e atores políticos ocuparam simultaneamente posições de informação, interpretação e disputa, contribuindo para inserir agentes públicos e instituições no próprio cenário político.

A Vaza Jato acrescentou outra camada a essa história. Quando mensagens atribuídas a integrantes da operação foram divulgadas pelo The Intercept Brasil, a direção tradicional do fluxo se inverteu, os investigadores passaram a ser investigados pelo jornalismo. A situação provocou controvérsias jurídicas e éticas e mostrou como a relação entre imprensa e fontes institucionais pode ser reorganizada quando documentos que circulavam dentro de uma estrutura de poder passam a ser examinados externamente. A imprensa precisa, além disso, conservar a possibilidade de investigar quem lhe fornece informação. PF, Ministério Público e Judiciário podem ser fonte e objeto de investigação, sem que isso os torne desprovidos de credibilidade, a desconfiança permanente também empobrece a apuração. A dificuldade reside nessa zona intermediária, onde confiança e desconfiança precisam ser administradas continuamente.

O mesmo vale para o leitor, a sociedade não deveria ser imaginada como massa passiva que finalmente descobrirá a verdade quando todos os sigilos forem retirados. Cidadãos interpretam os acontecimentos a partir de repertórios próprios, mídias sociais reorganizam documentos em fragmentos, influenciadores selecionam trechos, partidos mobilizam informações. A abertura dos autos pode fortalecer o debate público, mas também alimentar disputas narrativas cada vez mais intensas. Uma democracia informada não nasce da quantidade de documentos disponíveis, depende das condições sociais, profissionais e institucionais para que sejam compreendidos, confrontados e criticados.

Por isso, a discussão sobre os vazamentos seletivos da PF deveria escapar da lógica imediata das torcidas políticas, a questão possui consequências que ultrapassam os personagens atuais. Amanhã, a instituição investigada poderá ser outra, o governo poderá mudar e o alvo político poderá estar do outro lado do espectro. A imprensa continuará recebendo documentos, escolhendo manchetes, produzindo interpretações, e continuará sendo responsabilizada por elas. A transparência dos processos deve avançar tanto quanto os limites jurídicos e éticos permitirem, mas a abertura dos autos não deve virar um ritual purificador pelo qual a realidade apareceria sem mediações.

O jornalismo possui, nesse cenário, uma responsabilidade incômoda, admitir que interpreta enquanto reivindica o direito de informar. Talvez sua maior força esteja justamente nessa admissão, quando o repórter reconhece que selecionou documentos e construiu uma interpretação, permite que seu trabalho seja criticado, quando uma reportagem volta a um caso depois que a acusação perde a força das manchetes, o tempo funciona como instrumento de verificação. A transparência, então, deixa de significar somente abrir arquivos, passa a envolver a exposição dos caminhos pelos quais os arquivos foram transformados em notícia, exigência mais difícil do que retirar o sigilo, pois demanda tempo, recursos e disposição para corrigir narrativas construídas, condições cada vez mais escassas num ambiente pressionado pela velocidade que favorece o documento que chega pronto, enquanto a investigação exige o que ele não oferece, tempo para desconfiar, comparar e acompanhar o desfecho. O repórter fiscaliza o poder, mas seu próprio poder de selecionar e enquadrar precisa permanecer sujeito à crítica pública. A transparência que interessa à sociedade não termina quando o processo é aberto, ela começa ali.

Referências

DAMGAARD, Mads T. F. Cascading corruption news: explaining the bias of media attention to Brazil’s political scandals. Opinião Pública, Campinas, v. 24, n. 1, p. 114-143, 2018. Disponível em: https://www.cesop.unicamp.br/eng/opiniao_publica/artigo/589. Acesso em: 29 ago. 2026.

SOUZA, Cibele Silva e. How is corruption portrayed in the Brazilian media? An analysis of corruption in news portals and Twitter. Corvinus Journal of Sociology and Social Policy, v. 14 (2023)1, p. 175-199. Disponível em: https://cjssp.uni-corvinus.hu/index.php/cjssp/article/view/743. Acesso em: 29 ago. 2026.

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Ramsés Albertoni é Professor, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF).