‘O 11 de Setembro não é um dia de luto exclusivamente americano. A guerra contra o terrorismo não é uma guerra particular entre George W. Bush e a Al-Qaeda. Nem é exclusiva de Vladimir Putin contra os bárbaros disfarçados em patriotas tchetchenos ou a de Ariel Sharon contra o Hamas e a Hezbollah ou a da Austrália contra a Jemaah Islamiya.
O terrorismo criou um estado de beligerância mundial que não pode ser particularizado, setorizado ou minimizado. O terrorismo é um flagelo contra a humanidade – talvez o pior da sua história. E a humanidade não é apenas o conjunto de seres humanos que habita o planeta, é a expressão da condição humana, diferença entre os seres capazes de sentir, pensar e as feras irracionais. Humanidade é um processo civilizatório que se acumula há milhares de anos e transcende aos continentes, fronteiras, idiomas, culturas e religiões.
O terrorismo é a bestialização da alma, sua negação. Selvageria adaptada à política, corrupção das ideologias e crenças. Banalização da morte. Por isso o terrorismo não pode ser relativizado, justificado por ressalvas cínicas, ou escondido através dos melífluos artifícios da linguagem ‘politicamente correta’.
Injustiças devem ser denunciadas e reparadas onde ocorrerem, não podem mascarar a sede de sangue e o menosprezo pela vida. Está na hora de sepultar a sangrenta lógica de que os fins justificam os meios. A Idade Média acabou há mais de 500 anos. A insistência de certas vanguardas em defender o vale-tudo serve apenas para reforçar aqueles que apostam no retrocesso e na prevalência do fanatismo.
Se George W. Bush quer ser eleito graças à sua guerra ao terror, isto não significa que aqueles que abominam o seu primitivismo devam submeter-se ao raciocínio insano dos terroristas. A intelectualidade francesa, sempre tão fascinada com os seus dotes cartesianos, de repente, foi acordada com a brutalidade do seqüestro dos dois jornalistas e as ameaças de que serão liquidados se o governo do seu país não anular a proibição ao uso de símbolos religiosos ostensivos. Até a hora em foram redigidas estas linhas a ameaça dos seqüestradores não se consumou mas, doravante, a inteligência francesa não poderá mais aferrar-se aos álibis terroristas ou ceder à sua chantagem.
Neste terceiro aniversário do massacre de Nova York há um dado novo que não pode ser ignorado: as lideranças islâmicas começaram a manifestar uma inequívoca repulsa depois da carnificina de Beslan. ‘Aqueles que armam seqüestros são criminosos, não são muçulmanos’, proclamou o principal líder religioso do Egito, o cheque Moahmmed Sayed Tantawi. O diretor geral da rede de TV Al Arabiya, Abdulrahman al Rashed, foi mais longe: ‘Nossos filhos terroristas são fruto da nossa cultura corrompida’ escreveu. O título do seu artigo é ainda mais surpreendente: ‘Dolorosa verdade: todos os terroristas do mundo são muçulmanos’. (‘Folha de S.Paulo, 5/9/04).
Este salutar movimento não pode ser desperdiçado. Um tal reforço pode ser decisivo para silenciar os contorcionistas, daqui e de além-mar, que não conseguem ser suficientemente determinados na aversão à violência política. O terrorismo prospera onde encontra cumplicidades, abertas ou disfarçadas.
As pesquisas de opinião pública indicam que George W. Bush não seria reeleito se as eleições de Novembro fossem de âmbito mundial. Na média de 35 países – inclusive o Brasil – Kerry tem a preferência de 46% contra 20% a favor de Bush. A única maneira de não reconduzi-lo à Casa Branca é retirar-lhe o bastão de comando da luta anti-terrorista.
Para isso, indispensável consolidar o Partido da Humanidade que começa a consolidar-se no mundo inteiro. Isolada, a bandidagem não resiste. Só existem terroristas, onde há compreensão para o terrorismo.’
MASSACRE EM BESLAN
‘Cidade calma e alegre morreu com crianças’, copyright O Estado de S. Paulo / The Washington Post, 10/09/04
‘A edição de 2 de setembro do jornal de Beslan, publicado três vezes por semana, foi impressa com antecedência e chegou a sua redação em 1.º de setembro. Mas nunca chegou a ser distribuída e agora é uma relíquia no escritório do editor.
Suas páginas são uma última janela para a vida nesta pequena comunidade antes da tormenta da última sexta-feira: homenagens a treinadores esportivos locais; problemas no sistema de aquecimento municipal; uma carta raivosa sobre os novos medidores de água.
No alto da primeira página está um artigo escrito por um aluno da 11.ª série na Escola n.º 1, onde 326 pessoas perderam a vida, segundo os últimos números oficiais. ‘Aqui está, 1.º de setembro, o dia do conhecimento’, escreveu Alan Dzheliev, de 17 anos, descrevendo o significado da abertura do ano letivo para os que entram na primeira série. ‘O sino toca. A partir deste momento, eles não são mais as crianças que eram antes.’
A tomada de reféns na escola ocorreu no dia da abertura do ano letivo.
‘Gostaria que tivesse sido do jeito que eu queria que fosse’, disse Dzheliev, numa entrevista na quarta-feira a vários quarteirões da escola onde alguns de seus amigos morreram. ‘Mas o significado é completamente oposto.’ Ele teve sorte por ter se atrasado para a escola naquela dia.
Na quarta-feira, enquanto Beslan continuava a enterrar seus mortos, a cidadezinha inteira parecia um memorial, fantasmagoricamente silenciosa, com a maioria dos escritórios e das lojas fechada. Em entrevistas, os moradores fizeram uma reflexão sobre este lugar calmo e relativamente próspero que também morreu na sexta-feira.
‘Uma semana atrás, esta era uma cidade pacífica e trabalhadora’, disse um morador, Savely Kanukov, lembrando a vida dos lares que ele visitava para jogar xadrez ou dominó e nos quais ele agora vai para apresentar condolências. ‘Tínhamos uma vida alegre.’
Estabelecida na primavera de 1827 na estepe abaixo das Montanhas do Cáucaso por habitantes das regiões montanhosas que foram despejados de suas casas por forças czaristas, a cidade foi, desde o começo, multiétnica. Os primeiros moradores construíram um igreja, uma mesquita e escolas, segundo a história oficial da cidade.
Originalmente chamada Tulatovo, em homenagem a seu fundador, Beslan Tulatov, cresceu como uma localidade industrial e predominantemente cristã na república soviética da Ossétia do Norte. Na 2.ª Guerra, foi bombardeada por aviões alemães, mas as tropas alemãs em terra nunca chegaram até aqui.
Em 1952, a cidade adotou o primeiro nome de seu fundador. O esteio econômico na época soviética era uma gigantesca usina de processamento de milho. Os moradores lembram orgulhosamente que Nikita Khruchev, o líder soviético de meados dos anos 50 ao início dos 60, uma vez visitou a cidade para inspecionar a usina.
Hoje, dar continuidade a um negócio virou uma luta. Boa parte das outras indústrias da cidade entrou em colapso após o fim do comunismo. Mas Beslan se revigorou, em grande parte graças a uma nova fábrica que faz vodca, conhaque e champanhe e emprega quase 2 mil pessoas.
‘Esta região se recuperou mais depressa que as outras’, disse Elza Baskayeva, editora do jornal local, Zhizn Pravoberezhya (Vida na Margem Direita, referência à localização da cidade em relação ao Rio Terek). ‘Aqui há trabalho, diferentemente de muitos outros lugares.’’
Bronwen Maddox
‘Uma câmera na mão e uma mensagem de horror’, copyright O Estado de S. Paulo / The Times, 12/09/04
‘O que os terroristas estavam pensando quando filmaram a si próprios e seus pequenos reféns reunidos no ginásio da escola de Beslan?
De repente, parece, há uma nova técnica de terror: o registro do sofrimento em vídeo, para ser mostrado de forma truncada na televisão e completo na internet.
Em um certo sentido, parece absurdo que no ápice da tensão daquele cerco os terroristas de Beslan tenham achado que valia o tempo e a distração filmarem a si próprios. É extraordinário que eles tenham pensado em incluir uma câmera no arsenal de explosivos, armas e fios que levaram para dentro.
Parece inacreditável que tenham achado concentração para filmar a cena, sob os fios de seus explosivos, mantendo a pressão sobre os gatilhos e pedais que podiam detonar as bombas, tentando manter as crianças em silêncio e controlar suas idas ao banheiro, passando exigências aos negociadores do lado de fora e ouvindo todo o tempo através das janelas quebradas os primeiros sons do ataque do Exército russo. Mas, no sentido mais sombrio, seu esforço extra valeu a pena.
Exatamente quando a Rússia estava saindo de seus dois dias de luto oficial, e a primeira onda de choque mundial em relação ao massacre começou a diminuir, o vídeo deu uma idéia tremendamente íntima do sofrimento. As fotografias mais ameaçadoras foram imediatamente para a imprensa. Há terroristas mascarados, de preto, à frente das crianças com suas roupas de baixo brancas e pele muito branca. Há bombas penduradas no teto; a arma apontada para uma cabeça.
Mas algumas das imagens mais decepcionantes são as mais banais, como a tentativa de uma mulher de atravessar uma sala, uma criança de cada lado, cada uma delas olhando para baixo para abrir caminho.
Para algumas famílias, o vídeo é provavelmente a última imagem que podem ter de seus parentes, se a quiserem: ainda vivos e se concentrando nas pequenas decisões que ainda lhes restam, como encontrar o melhor caminho em um mar de pessoas. O vídeo de Beslan agora está no topo da lista dos mais pedidos em sites especializados em terror, seguido pelo que é agora uma longa seqüência de reféns no Iraque, seus pedidos de socorro e sua execução.
Mas é mais chocante do que esses. Não é encenado; registra o cerco em vez de exibir seus troféus cativos e sua proposta é menos clara. O objetivo dos vídeos do Iraque é óbvio: pôr pressão nos governos dos reféns. Os prisioneiros aterrorizados são mostrados vivos, enquanto os terroristas apresentam as exigências. Quando eles são executados, o vídeo prova sua morte e convida seus chocados compatriotas a continuar questionando seus governos.
Mas Beslan é diferente. A história do vídeo ainda não está clara. Se foi usado nas negociações ou, como foi sugerido, descoberto no corpo de um terrorista. É bem possível que os seqüestradores pensaram que isso poderia ajudá-los nas negociações. Mesmo assim, é difícil ver por quê. Sim, em teoria, a imagem das crianças seminuas amontoadas no salão poderia ter aumentado a pressão dos russos e de outros países – embora isso só aconteceria se o governo o tivesse divulgado.
Verdade, também, que os terroristas podem ter procurado mostrar a Moscou que podiam explodir a escola em um segundo. Mas, ao mesmo tempo, eles se arriscaram a revelar fraquezas em suas defesas. Não; a pior interpretação parece a mais provável – que o vídeo também tem uma proposta mais ampla: aumentar o choque e o desespero de pessoas comuns, no primeiro dia letivo de uma escola, e aumentar o seu medo.’
JORNAIS NACIONAIS
‘O fim dos telejornais nacionais ‘, copyright O Estado de S. Paulo / The Washington Post, 14/09/04
‘Independentemente de quem ganhe a eleição, a campanha de 2004 já fez história. Pela primeira vez, um canal a cabo de notícias – a Fox – atraiu mais espectadores que uma emissora de sinal aberto quando competiam cabeça a cabeça, na cobertura da Convenção Nacional Republicana.
Foi uma mudança para um novo jornalismo partidário nos EUA? Acho que o verdadeiro significado é outro.
O que aconteceu neste verão, especialmente na semana passada, provavelmente será lembrado como o fim da era dos telejornais nacionais. Ou, pelo menos, vai marcar este como o momento em que as grandes redes abdicaram de sua autoridade com relação ao público americano.
Devemos nos importar com isso? Pense um pouco: o crescimento do telejornalismo foi indiscutivelmente o mais importante desenvolvimento na política americana na segunda metade do século 20. A chegada das divisões de notícias nos anos 50 e 60 significou que pela primeira vez os cidadãos podiam assistir aos acontecimentos.
Dentro de um prazo impressionantemente pequeno, quase tudo sobre a maneira como elegemos nossos líderes mudou. As primárias presidenciais se tornaram os meios de indicação. Os partidos perderam força. As convenções se transformaram em comunicação ao invés de eventos onde decisões são tomadas.
A sala cheia de fumaça desapareceu.
Começamos a responder a diferentes qualidades em nossos líderes.
Características pessoais começaram a transcender o currículo. Política, como aponta James Carville, se tornou uma questão de caráter.
Plataformas partidárias eram apenas pedaços de papel. Com o fim das velhas formas de avaliar candidatos, o público começou a exigir que a imprensa fornecesse mais informações pessoais sobre seus líderes políticos – sem excluir suas vidas sexuais. Alguns dizem que o tipo de pessoa que elegemos mudou.
A elevação das redes também ajudou a elevar a mídia a uma posição de prestígio sem precedentes. Até o final dos anos 60, um âncora, Walter Cronkite, foi o homem mais confiável dos EUA. Ao assistir a Cronkite, de volta do Vietnã em 1968, declarar a guerra invencível, o presidente Johnson virou-se para um assessor e disse que ‘se perdemos Walter, perdemos o país’.
Algumas semanas mais tarde, a maioria dos americanos era contra a guerra.
Johnson declinou de concorrer à reeleição.
As redes eram conseqüentes – e sérias em suas propostas. Apesar de o pessoal dos jornais ser incapaz de admitir, o melhor jornalismo de televisão pode contar histórias de forma mais poderosa do que o impresso.
Agora, com sua decisão de não ter o prazer de fazer uma cobertura significativa das convenções, as redes apontaram – apesar de qualquer retórica – que o prestígio e a influência de suas novas divisões não importam muito mais a eles.
Não surpreende que o público tenha se voltado para outros lugares. Na verdade, os proprietários das redes alteraram suas marcas. Eles sinalizaram que agora são quase inteiramente instituições econômicas.
Alguns telejornais podem continuar importantes, como o Today, da NBC, mas apenas se acrescentarem algo à conclusão óbvia.
As redes ainda levam ao ar telejornais noturnos que muitas vezes são ótimos, e quase 30 milhões de americanos ainda os vêem. Mas a média de idade de seu público é próximo de 60 anos e agora os donos das redes estragam ainda mais esses programas e as divisões de notícias que os produzem.
Qual diferença vai fazer se as redes cederem o jornalismo televisivo para as emissoras a cabo? Os telejornais foram construídos em torno de reportagens cuidadosamente escritas e editadas, produzidas por correspondentes e examinadas antecipadamente para unir texto e imagens.
Nos telejornais vespertinos, 84% do tempo era tomado por esses pacotes, segundo análise de conteúdo do estudo anual State of the News Media do Project for Excellence in Journalism.
A notícia por cabo é um meio ao vivo e extemporâneo construído em torno de conversas. Apenas 11% do tempo é devotado a reportagens editadas; 80% é ocupado por entrevistas de estúdio, debates, leituras de notas e passagens ao vivo de repórteres, nas quais os correspondentes falam de improviso ou lêem suas próprias anotações.
O que se perdeu na obsessão do cabo pelo ‘ao vivo’ foi a chance de checar a informação, de reescrevê-la, editá-la – e muitas vezes até reportar. O que se perdeu na passagem do telejornalismo, em outras palavras, foi o jornalismo de verificação. Gradualmente, está abrindo espaço para um jornalismo de afirmação.
Há diferenças sutis. O telejornalismo, construído em torno de uma narrativa visual, tende a levar os espectadores para acontecimentos do mundo exterior.
As notícias dos canais de televisão a cabo, construídas em torno de apresentadores de talk-show, tendem a levar os espectadores para dentro dos estúdios. Neste novo tipo de jornalismo televisivo, de algum modo as notícias são secundárias em relação ao debate sobre as notícias.
O telejornalismo originalmente foi desenhado não para ter lucro, mas para criar prestígio. O cabo só tem a ver com o lucro e manter os custos baixos.
O que está desaparecendo é um idealismo sobre o potencial da televisão como meio de melhorar nossa política e sociedade. Depois desse verão, os americanos não verão mais os telejornais da mesma forma. Os donos das emissoras talvez não entendam completamente isso. Se eles entenderem, há poucas evidências de que estejam se importando.’
