Quinta-feira, 26 de março de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1381

A memória da Lava Jato na arte do powerpoint: os dilemas do jornalismo sem autocrítica

(Foto: Glenn Carstens-Peters/Unsplash)

Michel Foucault propunha uma filosofia que se dedicasse ao diagnóstico do presente. Para isso, construiu um método arqueológico. Uma metáfora para identificar as formações históricas que definem as chamadas práticas discursivas no contemporâneo. Desnaturalizar o presente à luz da história. O filósofo buscava entender a constituição dos saberes, para ele não necessariamente o conhecimento científico, mas as verdades como construções históricas.

Cada tempo define suas regras implícitas do que pode ou não ser dito, o mecanismo de funcionamento do arquivo. GilIes Deleuze interpretando a teoria do arquivo em Foucault demonstra que o saber tem uma forma: o encontro entre o que se pode dizer e o que se lança luz em cada tempo histórico. Um arquivo audiovisual, nas suas palavras, resumida numa frase um tanto enigmática: o que se diz não está no que se vê e o que se vê não está no que se diz.

Penso nessas teorias diante do inusitado episódio da “arte” exibida na GloboNews que selecionava (iluminava) relações de Daniel Vorcaro com o poder, escondendo aspectos factuais e criando falsas analogias. Um desserviço ao jornalismo, como ficou evidente diante das reações em rede que fizeram o jornalismo da GloboNews capitular, num pedido de desculpas débil e tecnocrático, também revelador das forças em jogo.

O poder, para Foucault, é uma força que permeia as relações sociais. Para entender como funciona, é interessante olhar as resistências, diz o filósofo. Não há uma teoria geral do poder, mas relações de força que se materializam nos discursos (o que se diz e o que se lança luz). O episódio foi revelador do espaço de resistência à prática lavajatista que se instaura como método e ideologia e dá suas caras na cobertura de um ano eleitoral em um mundo caótico.

O que o famigerado powerpoint global mostrou é o discurso que se insinua nas torções opinativas dos comentaristas da tarde no programa Estúdio I da GloboNews, particularmente aqueles mais condizentes com as práticas de uma cobertura seletiva dos fatos diante dos interesses políticos em jogo. Também ali há nuances, vozes que convocam as boas práticas jornalísticas, como Flávia Oliveira, Marcelo Lins, Octávio Guedes, equilibristas diante do tom geral condescendente com as práticas fascistas da extrema direita.

Merval Pereira dia desses, por exemplo, chegou a dizer que os militares estavam insatisfeitos com as denúncias sobre os ministros do Supremo, uma vez que eles aceitaram calados as condenações impostas pelo oito de janeiro (a palavra golpe não foi pronunciada). A todo momento pululam achismos de um jornalismo raso e, em certa medida, preguiçoso, quase todos dourando a pílula da extrema direita golpista. Um pouco depois do pedido de desculpas lido por Andréia Sadi, o próprio Merval falou sobre o espírito de corpo do Supremo para defender que houve um erro da corte em fevereiro, quando Alexandre de Moraes negou o pedido de prisão domiciliar a Jair Bolsonaro. Sem mencionar que a decisão foi baseada em uma junta médica.

Nesses jogos do acaso, em que o inconsciente coletivo também se manifesta, emerge a tal “arte”, explicitando o que se diz nas entrelinhas – e revelando como o jornalismo profissional é também agente de desinformação. Um encontro entre o que se diz e o que se lança luz, evidenciando o viés parcial do jornalismo global.

O que se seguiu foi pedagógico, em que pese os prejuízos com a difusão da “arte” nos grupos da extrema direita. Nos jogos de memória da linguagem, no funcionamento do arquivo, emerge a comparação inevitável com o powerpoint de Deltan Dallagnol e, com ele, a imagem dos canos de esgoto com dinheiro que ilustravam as edições do Jornal Nacional. As artes evidenciam o que se busca disfarçar em meias palavras.

Lava Jato e Vaza Jato constituem signos do jornalismo brasileiro nos últimos anos. Espécie de marcos divisores. A primeira como modelo de adesão da grande mídia – especialmente a Globo – que faria bem em trabalhar uma autocrítica (curiosamente o que costuma cobrar dos governos petistas). A segunda como espaço de busca de uma outra verdade histórica e a iluminação de cantos obscuros que ressurgem no caso do Banco Master. É preciso estar atento, e o coro de jornalistas respeitados que puxou a reação nas redes é sintomático.

***

Pedro Varoni é Jornalista, professor do Departamento de Letras da UFSCar e dos Programas de Pós-Graduação em Linguística e Pós-graduação em Estudos Literários (UFSCar).