Tuesday, 16 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Liberdade para os robôs

Na semana passada [retrasada], o fundador da Amazon, Jeff Bezos, foi à TV americana anunciar seus planos para o futuro. Drones. Robôs com oito hélices, voadores, que poderão fazer entregas de produtos para a maior loja eletrônica do planeta. Se depender das ideias que passam pela cabeça de Bezos, este futuro chega nuns cinco anos. Já Andy Rubin, um dos principais engenheiros do Google, estava nas páginas do New York Times falando também de um novo projeto. Robôs. A princípio, não são robôs domésticos. Ainda. Ponha-se na lista os carros que dirigem por conta própria e que o mesmo Google testa desde 2009 e nos quais empresas como a Volvo estão igualmente empenhadas. Periga que 2020 tenha muito mais cara de futuro do que nos parece hoje, tão pouco que falta para ele chegar.

Robôs já existem. Nenhum tem o charme dum R2D2, tampouco avisa “Perigo, Will Robinson”, mas já existem. Estão nas fábricas. Braços mecânicos montam carros, placas de computador, lapidam e moldam lentes delicadas. As grandes indústrias estão já há vários anos robotizadas. Poupa trabalho manual e aumenta a precisão. O que não existe de fato são robôs domésticos. Os do Japão não contam: são brinquedos caros, talvez divertidos, mas pouco úteis. Não estamos habituados a robôs no cotidiano. É o que, parece, está para mudar.

Andy Rubin não é qualquer um. Sua carreira começou na fábrica de lentes Carl Zeiss, onde construía robôs de manufatura. De lá seguiu para a Apple onde, por sua obsessão pelos autômatos, ganhou o apelido Android. Androide em inglês. O mesmo apelido com o qual batizou o sistema operacional para celulares que desenvolveu. Quando este mesmo sistema foi comprado pelo Google, Andy foi junto. Até princípios de 2013, era lá que estava. Até convencer Larry Page e Sergey Brin de que valia a pena investir neste outro projeto.

China já usa muitos robôs

O Google está mergulhando de cabeça. Ao longo do ano, comprou sete empresas de robótica diferentes entre EUA e Japão. Uma é especializada em produzir lentes que se portam como olhos. Outra faz braços capazes de movimentos sutis, utilizadas hoje para guiar câmeras de cinema. Uma terceira faz rodas de transporte pesado. Tem até uma cuja intenção é produzir robôs com aparência humanoide.

Antes de ser anunciado, o projeto que Rubin toca se chamava Replicante. É uma referência ao filme Blade Runner e ao nome que levam, lá, os androides que anseiam por liberdade. O antigo sonho de Rubin, que ele possivelmente está buscando realizar, é construir robôs capazes de ajudar pessoas em seu dia a dia. Talvez não apareçam nas residências no primeiro momento, mas quem sabe no supermercado da esquina, ajudando a organizar as prateleiras e indicando aos clientes onde está o quê.

Robôs, hoje, são caros. Coisa para indústria pesada. Mas se baratearem, mudam por completo a dinâmica econômica corrente. Se tanto trabalho migrou para países onde existe mão de obra quase escrava, este processo pode terminar reversível. A China, aliás, já usa muitos robôs na indústria de ponta.

Problemas éticos

Nem todo robô tenta emular a aparência de seres humanos. Robôs são, essencialmente, máquinas autônomas capazes de executar atividades específicas. Entregar uma caixa, por exemplo, como os drones de entrega da Amazon. Ou os carros nos quais o sujeito entra, digita o endereço para o qual se destina, e abre seu jornal tranquilo enquanto o automóvel segue. (Com alguma sorte, ele de repente até encontra vaga por conta própria.) Robôs podem ser, até, coisas tão simples quanto o aspirador em pó Roomba, que se parece com um disco e, uma vez ligado, sai deslizando pelo chão enquanto limpa tudo.

Boa parte da tecnologia já existe. Faltam os sensores capazes de avaliar distância entre objetos para evitar colisões ou distinguir formas através de visão artificial, outros tantos. O que não está resolvido são os problemas éticos. De quem é a culpa se um robô matar alguém? E, quando ficarem perfeitos e desejarem liberdade, será que nos descobriremos novamente senhores de escravos? Replicantes, pois é.

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Pedro Doria é colunista do Globo