
(Foto: Ramaz Bluashvili/Pexels)
Tarifas alfandegárias em alta, críticas a países considerados dependentes de interesses chineses, expulsão em massa de latino-americanos residentes nos Estados Unidos, exigência de transferência de narcotraficantes presos no México, ingerências judiciais e políticas no Brasil para anular a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado, sanções contra Bolívia e Colômbia acusadas de leniência no combate às drogas, bombardeio de barcos da Venezuela suspeitos de envolvimento com o narcotráfico e recompensa pela captura do presidente venezuelano – esse foi o roteiro imposto nas últimas semanas por Washington a seus vizinhos do hemisfério sul.
O impacto dessas decisões, tomadas sem aviso prévio, pegou de surpresa os latino-americanos, relegados a um “quintal” que julgavam superado. A diversidade de suas reações é prova disso. Suas respostas, preparadas às pressas, ampliaram as fissuras de um coletivo que sempre teve dificuldade em concretizar suas retóricas de unidade. Linhas de fratura emergiram, revelando diferenças ideológicas entre os dirigentes. Pressionados pela urgência trumpista, adotaram orientações centrífugas e, por vezes, conflitantes, de acordo com suas inclinações partidárias.
O México, país mais exposto em razão da proximidade geográfica com os Estados Unidos, optou por fazer jogo de cintura. Pressionado pela chantagem econômica e comercial colocada em marcha desde janeiro pelo presidente norte-americano, o México respondeu positivamente às exigências de Washington. Claudia Sheinbaum, chefe de Estado mexicana, aceitou extraditar seus nacionais requeridos pela justiça dos EUA. Ao mesmo tempo, conseguiu amortecer as exigências tarifárias do vizinho explorando a interdependência das empresas norte-americanas em território mexicano, o que lhe rendeu um elogio público do secretário de Estado, Marco Rubio.
Os líderes da Argentina, do Equador, do Paraguai e de El Salvador receberam com satisfação a vitória de Donald Trump. Laços ideológicos, forjados em várias plataformas cooperativas de extrema-direita, já lhes haviam dado oportunidade de encontrar Trump e grupos que o apoiam dentro do Partido Republicano. Três deles – Javier Milei (Argentina), Daniel Noboa (Equador) e Santiago Peña (Paraguai), estavam em Washington no dia de sua posse em janeiro. As iniciativas agressivas de Trump, como a imposição de tarifas inegociáveis, expulsão de cidadãos, reprimendas no combate ao narcotráfico, atingiram seus países como aos demais. Ainda assim, aceitaram o novo cenário na esperança de tratamento privilegiado nessas questões e, talvez, compensações em outras áreas. Frequentemente foram além do que o “Tio Trump” lhes pedia.
A Argentina apoia 100% a política pró-Israel de Trump. Em 19 de setembro anunciou, para 2026, a coorganização com os EUA de uma conferência para promover na América Latina a tecnologia norte-americana de microrreatores nucleares, o programa FIRST (Foundational Infrastructure for Responsible Use of Small Modular Reactor Technology). O Equador realizará em 30 de novembro de 2025 um referendo para autorizar a instalação em seu território de uma base militar dos Estados Unidos. El Salvador ofereceu sua prisão de segurança máxima para abrigar imigrantes venezuelanos sem documentos expulsos dos EUA.
Essa atitude conciliadora e submissa às injunções de Washington foi recompensada. A Argentina obteve em setembro de 2025 um apoio financeiro que permitirá ao seu presidente enfrentar as eleições legislativas de 26 de outubro sem desvalorização do peso argentino. O Equador recebeu em 4 de setembro de 2025, durante visita de Marco Rubio a Quito, um tratamento amigável no tema do narcotráfico, em razão de sua cooperação com os Estados Unidos. Países que colaboram, como o Equador, na luta conduzida por Washington contra o tráfico de drogas não serão tratados como aqueles que se recusam a cooperar. El Salvador obteve compensação financeira por cada venezuelano encarcerado em seu centro de confinamento, o CECOT (Centro de Confinamento do Terrorismo).
Brasil, Colômbia e Venezuela decidiram resistir. Brasil e Colômbia cogitaram responder às sanções comerciais de Washington com medidas de retaliação equivalentes, mas os possíveis efeitos imprevistos dessas contra-iniciativas frearam qualquer adoção. Membro do grupo BRICS e grande parceiro comercial da China, o Brasil busca outro caminho: trabalha em alternativas econômicas de longo prazo. Essas foram publicamente defendidas pelo assessor diplomático do presidente Lula, Celso Amorim, em 11 de agosto de 2025, em entrevista à TV Cultura: reorientar para outros horizontes os intercâmbios e grandes projetos do Brasil.
Conversas de amplo alcance foram iniciadas com a Comissão Europeia, a Índia e, bilateralmente, com vários países do “velho continente”. O Brasil provocou uma reunião virtual dos BRICS em 8 de setembro de 2025. Para Brasília, o grupo deve aproveitar melhor seu peso, o equivalente a 40% do PIB mundial, 26% do comércio internacional, 42% da produção agrícola. Além disso, o presidente Lula lembrou na tribuna das Nações Unidas que a justiça e os assuntos internos do Brasil são de sua exclusiva soberania.
A Colômbia, sem condições de adotar respostas comerciais efetivas, levou a disputa para o campo diplomático. Bogotá convocou em 5 de setembro de 2025 uma reunião extraordinária da CELAC (Comunidade de Estados Latino-americanos e do Caribe) para demonstrar a existência de uma frente soberanista contrária às manobras militares de Washington no Caribe. Uma maioria reafirmou sua preocupação com “a presença militar extrarregional”, mas um núcleo de países reticentes – maior do que se esperava, também ficou evidente [1].
A Venezuela, por sua vez, ratificou em 18 de setembro de 2025 um acordo de cooperação estratégica com a Rússia, ao mesmo tempo em que se declarou aberta à continuidade do diálogo petrolífero com Washington iniciado no primeiro semestre, que permitiu a retomada das atividades da petroleira norte-americana Chevron. Caracas, a capital venezuelana, provavelmente contará com o apoio da petroleira espanhola Repsol, que assinou um grande contrato de compra de gás natural norte-americano, o que poderá viabilizar a retomada de suas atividades na Venezuela, suspensas em março de 2025, por decisão de Donald Trump.
Essas vozes de soberania baseiam-se em uma aposta ousada, que talvez apenas o Brasil esteja em condições de fazer. Somente ele dispõe de uma envergadura econômica e comercial capaz de atenuar as ameaças de Donald Trump. Mas será necessário – e esse desafio também se estende à Venezuela e a todo país que pretenda defender sua soberania, medir os efeitos de políticas desestabilizadoras dos Estados Unidos, que utilizam tecnologias de comunicação e apoiadores ideológicos internos próximos ao “trumpismo”. Os “nacionalistas” que antes denunciavam no Brasil, na Colômbia e na Venezuela o “comunismo” pró-China ou pró-Rússia de seus governantes, brandindo bandeiras nacionais, hoje desfilam, em grande número, com bandeiras estreladas dos Estados Unidos. Bolsonaristas, uribistas e parte da oposição a Nicolás Maduro compreendem, e alguns até desejam, uma intervenção direta de Washington na vida interna do Brasil, da Colômbia e da Venezuela.
Texto publicado originalmente em francês, em 24 de setembro de 2025 no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Amérique latine en septembre 2025 : entre alignement et résistance à Donald Trump”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/129389. Tradução de Paul Fernand da Cunha Leite e Andrei Cezar da Silva.
Notas
[1] Onze países não assinaram o comunicado que condena a presença militar estrangeira na região: Argentina, Costa Rica, Equador, Guatemala, Guiana, Jamaica, Paraguai, Peru, República Dominicana, Trinidad e Tobago.
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Jean-Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
