
(Foto: Arturo Añez./Pexels)
Democracia concentracionária? O oxímoro é assumido. Primeiro, porque a quase totalidade dos países latino-americanos elegem seus governantes por meio de votação. Segundo, porque esses mesmos governantes, uma vez eleitos, só confiam na polícia e nas prisões. Há cinquenta anos, a tendência predominante era ditatorial e militar. Agora, ela segue outra direção: democrática e policial.
Democrático, sim, se admitirmos que o recurso às urnas, segundo modalidades que garantam pluralidade e transparência, é um critério suficiente para nomear presidentes e parlamentares. Ora, esse recurso na América Latina é praticamente universal. Com exceção de Cuba, Haiti, Nicarágua e Venezuela, os outros 15 chefes de Estado latino-americanos foram eleitos por meio de uma votação competitiva. O chefe do Executivo brasileiro foi eleito em 2022. Os chefes de Estado da Argentina e do Paraguai foram eleitos em 2023. Seus homólogos da Guatemala, do Panamá, da República Dominicana, de El Salvador e do Uruguai, em 2024. Os da Bolívia, do Chile, do Equador e de Honduras, em 2025. Os da Costa Rica, da Colômbia e do Peru, em 2026.
O calendário dos 15 segue seu curso. A próxima eleição, no Brasil, está marcada para outubro. Em 2028, será a vez da Argentina e da Guatemala. Os resultados das urnas favoreceram candidatos de extrema direita: Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile, Abelardo de la Espriella na Colômbia, Laura Fernández na Costa Rica, Daniel Noboa no Equador, Keiko Fujimori no Peru e Nayib Bukele em El Salvador. Alguns situam-se na centro-esquerda: Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil, Bernardo Arévalo na Guatemala, Claudia Sheinbaum no México e Yamandu Orsi no Uruguai. Um grupo menor está no centro-direita, com Rodrigo Paz na Bolívia e Luis Abinader na República Dominicana. É como se disséssemos que o tom da política é dado pelos 10 da extrema direita, aos quais se juntaram rapidamente seus dois colegas do centro-direita.
Esse tom, incentivado com firmeza e publicamente pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é liberal-securitário. O Estado deve mobilizar seus recursos para garantir a segurança dos bens e da propriedade privada. O restante deve ser livre, ou seja, regulado pelas forças do mercado. Assim, desde as mudanças presidenciais em direção à direita e à extrema direita, tem-se observado a implementação de medidas que reduzem os compromissos sociais dos Estados. Por outro lado, as forças de segurança tiveram seus recursos reforçados. O Equador e o Uruguai, por exemplo, destinaram veículos blindados sobre rodas para garantir a segurança pública. O RPZ Condor UR425, no Uruguai, foi mobilizado nas ruas de alguns bairros de Montevidéu em junho de 2026, e o Jaguar 1, na província equatoriana de Los Ríos, em março de 2026. Foram anunciados projetos ambiciosos para a abertura de centros penitenciários. Tudo isso sob a supervisão e orientação dos Estados Unidos, que se atribuíram o direito de interferência regional em nome de uma luta contra o que Donald Trump qualifica de “narcoterrorismo”.
O modelo a ser seguido, em uma economia “livre” de qualquer compromisso coletivo, é a Argentina de Javier Milei. Mas no que diz respeito à polícia, ao sistema prisional e à segurança, é Nayib Bukele quem se destaca como pioneiro. Ele foi o primeiro, desde que assumiu o poder em 2019, a combinar uma estratégia que, sob o pretexto da legitimidade eleitoral, une estado de exceção, prisões em massa e a construção de um gigantesco centro penitenciário, conhecido como CECOT ou Centro de Confinamento do Terrorismo. Embora o objetivo almejado — a aniquilação das gangues criminosas — tenha sido alcançado, o método empregado foi de uma brutalidade que nada tem de democrático. A associação Socorro Jurídico Humanitário documentou a morte na prisão de 517 detentos. Segundo a mesma fonte, 92% deles estavam detidos sem julgamento, conforme permitido pelo estado de exceção.
Javier Milei enviou sua secretária de Segurança Interna, Patricia Bullrich, a El Salvador, de 15 a 19 de junho de 2024. Isso porque, segundo o comunicado oficial, “a Argentina acompanha e busca replicar o modelo implementado pelo governo de Bukele”. Nayib Bukele foi convidado para ir à Costa Rica, em janeiro de 2026, para lançar a pedra fundamental de uma prisão inspirada no CECOT. Daniel Noboa construiu no Equador seu centro penitenciário de alta segurança, na costa do Pacífico, em Santa Elena. Abelardo de la Espriella, presidente eleito da Colômbia, anunciou em sua campanha a construção de dez prisões no estilo salvadorenho.
Os principais líderes do Chile e da República Dominicana, José Antonio Kast e Luis Abinader, deram um toque específico à questão da segurança, voltado para as populações migrantes. No Chile, nas fronteiras com a Bolívia e o Peru, o presidente Kast deu início, em março de 2026, na localidade conhecida como Chacalluta, à construção de um muro — ou, mais precisamente, de uma vala de três metros de profundidade — batizado de Escudo Fronteiriço, com o objetivo de impedir a entrada de migrantes venezuelanos, colombianos, bolivianos e peruanos. As obras estão sendo realizadas pelo Corpo de Engenharia Militar do Chile. O custo desse muro foi estimado em 400 milhões de dólares. Valor esse, sem dúvida, proveniente dos cortes orçamentários anunciados em 16 de abril, no valor de 6 bilhões de dólares. Da mesma forma, a República Dominicana, no norte do país, em Dajabón, deu início, em abril de 2025, à construção de um muro de vários quilômetros, destinado a vedar a fronteira com o Haiti.
Essa “democracia CECOT”, de caráter concentracionista e de inspiração ideológica radicalmente de direita, é o modelo dominante atualmente. A ponto de, em certos aspectos, ser adotada por governantes de outras tendências políticas. Em dezembro de 2022, Honduras tinha uma presidente progressista, Xiomara Castro, que decretou o estado de exceção e anunciou, em julho de 2023, o início da construção de dois complexos penitenciários do tipo CECOT. Yamandu Orsi, no Uruguai, conforme mencionado acima, decidiu, em junho de 2026, mobilizar veículos blindados para combater a criminalidade. O presidente boliviano de centro-direita, Rodrigo Paz, decretou estado de exceção em maio de 2026, para conter uma ampla mobilização social em resposta à suspensão dos subsídios aos preços dos combustíveis. Essa decisão foi aprovada pelos Estados-membros do Escudo das Américas, instituição criada por Donald Trump para garantir uma forma de protetorado norte-americano sobre a região. [1]
Texto publicado originalmente em francês, em 08 de julho de 2026, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Amérique latine : Vers une démocratie concentrationnaire ?”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/134508. Tradução de Myllena Araújo do Nascimento e revisão de Andrei Cezar da Silva.
[1] Escudo das Américas: Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras, Panamá, Paraguai, República Dominicana, El Salvador, Guiana, Trinidade e Tobago.
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Jean Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
