
(Foto: Fernando Arcos/Pexels)
Procurando novas informações na Internet, vi o título: O pior país do mundo, em destaque no Brasil de Fato. Cliquei, havia um aviso: “Preparem-se para um artigo violento. A paciência da gente se esgota e com ela some também a capacidade de medir palavras e fazer as devidas ressalvas”.
O aviso, colocado pelo próprio autor, significava que ele estava ciente que seu texto seria capaz de ferir, mas sua paciência esgotada o levara a tirar os filtros com que se tratam certos temas.
Esse tipo de aviso preparatório funciona como um chamariz, desperta a curiosidade do leitor e garante alguma coisa diferente ou mais ousada. Por isso, cliquei e li, mas confesso ter percebido alguma tendência estranha, logo nas primeiras linhas nas referências aos ingleses e holandeses. Talvez possa estar exagerando, mas a maneira de se referir a esses dois povos europeus me lembrou textos da extrema direita, textos racistas.
Achei estranho, não era uma crítica à Inglaterra e Holanda, seu colonialismo, seus antigos governantes, seus apoios ao escravagismo, eram críticas aos ingleses e aos holandeses antipáticos e preconceituosos. Holandeses que deram bastante liberdade aos judeus, mas depois os traíram juntando-se aos nazistas na sua perseguição.
Vêm a seguir elogios aos dinamarqueses, únicos na Europa a terem protegido os judeus, citando até Hannah Arendt para confirmar. Em lugar de falar do pior país do mundo, o autor teria mudado de rumo e falaria da Dinamarca como o melhor país do mundo por ter protegido os judeus? Pista falsa. Não, ele reconhece ter se desviado do assunto, chama Holanda e Dinamarca de países irrelevantes, desvia para os Estados Unidos, e não resiste à tentação de criticar também os americanos, como já fizera com os ingleses e holandeses, “gente que pode ser desagradável e detestável”. Será que isso não se chama preconceito?
E, enfim, o autor se define. Depois das piruetas iniciais, Hannah Arendt inclusive, ele vai falar de Israel, “que nunca deveria ter sido criado”, do sionismo, “mas não propriamente do povo judeu e dos judeus em geral”. E, en passant, vai falar do Irã.
Nessa altura, ia saltar para outro artigo, mas uma coisa me chamou a atenção – praticamente todas as redes sociais chamadas de esquerda estavam republicando esse mesmo texto – Diário do Centro do Mundo, Outras Palavras, Brasil 247, Carta Capital etc.
Decidi, então, ler todo o artigo e me surpreendi. E como sou um jornalista de esquerda, denunciando já há algum tempo, aqui nos meus comentários, uma islamização de uma parte da esquerda, não posso deixar de reagir: esse texto, apesar da importância de seu autor, é antissemita.
Lamento que a esquerda brasileira esteja desconectada de alguns críticos europeus do chamado Sul Global, principalmente a professora socialista Renée Fregosi, da Sorbonne, cujo último livro Le Sud Global à la Derive, não tem tradução brasileira (se alguma editora se interessar em publicar tradução no Brasil, pode me contatar).
Não é minha intenção responder ao texto tão viralizado ou polemizar com o autor, economista de formação, mas destacar, dentro do espírito do criador do OI, o texto tão publicado nas redes sociais e chamar a atenção, baseado em alguns trechos chavões já existentes num passado recente, que julgávamos superados depois do Holocausto nazista.
Não é minha intenção comentar a atual guerra contra o Irã, já deixei algumas opiniões rápidas em outros textos, fáceis de consultar no OI, denunciando ser uma ditadura religiosa, uma rigorosa e intransigente teocracia islâmica, me baseando principalmente nos depoimentos de importantes cineastas iranianos, presos depois de premiados em Cannes, Berlim e Locarno ou obrigados ao exílio para não serem presos.
Em 1979, eu também em exílio durante a ditadura militar brasileira, acompanhei as manifestações em favor do aiatolá Khomeini pela queda do Xá Reza Pahlevi, seguindo o pensamento dos líderes da esquerda francesa da época, Sartre e Foucault. Rapidamente a expectativa de um governo socialista laico no Irã se desfez com a criação de uma república factoide, uma teocracia sangrenta, que eliminou os próprios comunistas ateus e os homossexuais apoiadores de Khomeini. Imagino a decepção de Foucault.
No texto tão viralizado nas redes sociais de esquerda, o autor faz questão de exprimir seu desejo: “Vida longa ao Irã e ao grande povo iraniano! Que não lhes falte munição, mísseis e drones para deter Israel e outros inimigos da humanidade!” Mas procurei e não achei, uma palavra que fosse, de apoio ou de crítica, sobre a recente revolta popular contra o regime teocrático, na qual a repressão iraniana matou dezenas de milhares de jovens manifestantes e está enforcando outras dezenas de milhares presos nas manifestações.
Ou será que o autor confunde o povo iraniano com os Guardas da Revolução Iraniana, heróis que matam jovenzinhas desarmadas, ignoradas pelos movimentos feministas brasileiros mal informados sobre a situação das mulheres no Irã?
Pior ainda, depois de ter expressado, logo no início, sua decepção pela criação de Israel em 1948, espera que essa decepção seja vingada por munições, mísseis e drones. Ou, em outras palavras, que Israel seja destruído, concretizando o objetivo guerreiro do Irã, o império persa ex-zoroastrista, do livre arbítrio e da ética, transformado numa ditadura teocrática. O mesmo objetivo dos terroristas financiados pelo Irã, como o Hamas.
Referências
https://www.brasildefato.com.br/colunista/paulo-nogueira-batista-jr/2026/03/20/o-pior-pais-do-mundo/
https://www.ocafezinho.com/2026/03/23/paulo-nogueira-batista-jr-o-pior-pais-do-mundo/amp/
https://x.com/outraspalavrass/status/2035129273309172160
https://www.facebook.com/viomundobr/posts/httpswwwviomundocombrpoliticapaulo-nogueira-batista-jr-o-pior-pais-do-mundohtml/1473388241468550/
https://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-pior-pais-do-mundo-por-paulo-nogueira-batista-jr/
Reação na Direita – https://www.instagram.com/p/DWPBVB_kcNg/
Reação do CONIB –
https://www.instagram.com/p/DWSNNvfjQVh/
https://www.facebook.com/OficialConib/posts/o-antissemitismo-no-brasil-n%C3%A3o-se-limita-a-uma-%C3%BAnica-regi%C3%A3oos-dados-do-relat%C3%B3rio/1359328399568747/
Renée Fregosi, Sud Global, gauche et antissemitisme (interview) https://www.youtube.com/watch?v=mJQhX7uidHU
Le livre –https://editionsintervalles.com/catalog/le-sud-global-a-la-derive/
Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.
