Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Jornalistas em exílio forçado é “ferida aberta” na América Latina

Com apoio da Unesco, o relatório Vozes Deslocadas (Voces Desplazadas) – que faz um retrato da situação de risco que envolve profissionais de jornalismo na América Latina – revela que 913 jornalistas, no período de 2018 a 2024, tiveram que sair de seus países de origem para resguardar sua segurança e a de seus familiares. De acordo com os autores do estudo, “o número representa uma ferida aberta nas democracias latino-americanas” (LatAm Journalism Review, em 9/9/2025).

Para o coordenador da pesquisa, Óscar Mario Jiménez, da Universidade de Costa Rica, a saída forçada de jornalistas cria “um vácuo de notícias” que acaba afetando a própria democracia. A perseguição política, as ameaças do crime organizado e a corrupção de agentes paraestatais estão entre as principais causas dos deslocamentos desses profissionais.

Venezuela lidera

Dos 15 países com jornalistas obrigados a cruzar as fronteiras, a Venezuela, com 477 profissionais, a Nicarágua (268) e Cuba (98) representam 92% dos deslocamentos na região. Em seguida vem a Guatemala (19), Equador (13), Haiti e El Salvador (10 cada um). Dentre os países que não registraram a saída forçada de jornalistas no período contam o Brasil, Costa Rica, Belize, Panamá, República Dominicana, Porto Rico e Uruguai.

O relatório também destaca que, de janeiro de 2018 a março de 2025, foram mortos 169 jornalistas na América Latina e Caribe, segundo o Observatório de Jornalistas Assassinados da UNESCO. Com 81 mortes, o México encabeça a lista de países com mais assassinatos, seguido pela Colômbia (22), Haiti (16), Brasil e Honduras (12 cada um) e Guatemala (11), entre outros com números menores.

É a face mais trágica da violência e representa perdas irreparáveis de vidas humanas e golpes diretos à liberdade de expressão. O estudo menciona as ações do narcotráfico que têm um efeito inibidor que afasta o jornalista de realizar reportagens investigativas ou críticas, gerando um aumento da autocensura e “zonas silenciadas” impostas pelo medo de ameaças e coerção.

Com 86 páginas e escrito em espanhol, o trabalho divulgado em julho deste ano foi desenvolvido em conjunto com o Programa de Liberdade de Expressão e Direito à Informação da Universidade da Costa Rica, a Organização de Liberdade de Imprensa Fundamedios e a Cátedra Unesco em Comunicação e Participação Cidadã da Universidade Diego Portales, no Chile. A Unesco apoiou o projeto através de seu programa voltado para o direito à informação e segurança dos jornalistas.

Dificuldades no exílio

Entre os países que mais recebem jornalistas em fuga estão a Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Espanha, Estados Unidos e Canadá. A pesquisa evidencia, porém, que os profissionais deslocados enfrentam muitas dificuldades, como a discriminação e xenofobia na busca de emprego formal, impedimentos legais, dependência de financiamento internacional, perseguição transnacional e rupturas familiares que afetam seu bem-estar físico e mental e muitas vezes os impedem de desenvolver um projeto de vida estável.

Em consequência, muitos abandonam o jornalismo gerando com isso “zonas de silêncio e desertos informativos”, tornando mais vulnerável o direito da liberdade de expressão na região, tanto individual quanto coletivo.

A pesquisa identificou que para os jornalistas no exílio a profissão supera a noção tradicional de “produzir notícias”, constituindo-se em “uma forma de ativismo democrático, um mecanismo de conservação da memória histórica, uma maneira de lidar com o deslocamento e uma prática que permite se sentir plenamente seguro e livre”.

O grupo de pesquisadores realizou entrevistas virtuais, entre outubro e dezembro de 2024, com representantes de 20 organizações nacionais e internacionais de diversos países latino-americanos que trabalham com jornalistas em situação de deslocamento. Também ouviu representantes de associações de imprensa, como a do Uruguai, e a Federação Nacional de Jornalistas (Brasil), além de enviar questionários à organização Repórteres Sem Fronteiras e à rede Voces del Sur, da qual faz parte a Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).

Em paralelo, foi implementada uma enquete digital respondida por 98 jornalistas no exílio registrados nas instituições constantes no estudo. Apurou-se que 32 abandonaram a profissão e 64 seguiram exercendo o jornalismo, às vezes de forma independente, mas sem uma remuneração adequada e muitos de forma precária.

Em relação às mulheres jornalistas obrigadas a trabalhar em exílio, a pesquisa constatou que a intimidação é mais cruel, inclusive utilizando estratégicas específicas como a exposição das imagens dos filhos em redes sociais como forma de pressão para que não publiquem críticas sobre o país de origem. Em algumas situações, as crianças se encontram longe da mãe sob a guarda de parentes.

Um bem comum

O relatório também abre um capítulo sobre o conceito de jornalismo, citando fontes da Unesco que o classificam de “um bem comum na medida em que é de interesse público para as democracias que as pessoas tenham acesso à informação verificada”. Menciona ainda um dos informes da ONU sobre o direito à liberdade de expressão, divulgado em 2012, quando o então relator especial Frank LaRue afirma que o jornalista é quem “observa, descreve, documenta e analisa os acontecimentos, assim como documenta e analisa declarações políticas ou qualquer proposta que pode afetar à sociedade, com o propósito de sistematizar as informações e reunir fatos e análises para informar aos setores ou ao conjunto da sociedade”.

Relembra, igualmente, que um ano antes o Comitê de Direitos Humanos do Conselho Econômico e Social da ONU já tinha emitida a Observação Geral nº 34 sobre liberdade de opinião (artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos) definindo que na função jornalística “participam uma ampla variedade de pessoas, aí incluídos analistas e repórteres profissionais de dedicação exclusiva, autores de blogs e demais pessoas que publicam por sua própria conta na imprensa, internet e outros meios de comunicação” (pág.22 do relatório).

Com base em várias resoluções e convenções aprovadas por organizações internacionais, o estudo subscreve os enfoques abordados e afirma que “o exercício do jornalismo é uma prática indissociável ao direito à liberdade de expressão”.

Epicentro global do crime

Para a rede Voces Del Sur, a expansão das estruturas do narcotráfico converteu a América Latina no “epicentro global do crime”. Em seu informe de 2023, a rede, que reúne 17 organizações da sociedade civil, assinala que as autoridades políticas são as que mais ferem a liberdade de expressão e da imprensa na região. “É possível observar um claro padrão de repressão estatal sistemática contra o jornalismo independente através de técnicas que incluem, entre outras, o uso político da pauta estatal, a propagação de discursos estigmatizantes, detenções arbitrárias, fabricação de processos judiciais, restrições de acesso à informação pública e a criação de leis que se contrapõem às normas internacionais e interamericanas de direitos humanos”.

No quadro demonstrativo sobre as causas responsáveis que forçam os jornalistas a procurar refúgio em outro país estão listados, pela ordem, as autoridades governamentais, o crime organizado, agentes paraestatais corruptos, poder judiciário, ministério público e as indústrias extrativas.

O relatório também ressalta que o sistema de mídia na América Latina é pouco competitivo e mantém vínculos não transparentes com setores dos poderes político e militar, assim como apresenta altos níveis de concentração de propriedade, publicidade e audiência. Na última década, a proliferação das redes sociais e as plataformas digitais, além de aumentar os desafios em termos de desinformação, também provocou uma redução de oferta no mercado de trabalho formal dos jornalistas, principalmente tratando-se de mídia impressa.

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Sheila Sacks é jornalista formada pela PUC/RJ. Trabalhou em assessoria de comunicação social no serviço público de 1982 a 2024.