
(Foto: roya ann miller/Unsplash)
O jornalismo ambiental é fundamental para traduzir fenômenos extremamente complexos. Jornalistas têm o potencial de explicar para a audiência temas como desastres causados pelo aquecimento global, crimes ambientais, deflorestamento e mineração ilegal. Estes temas, em muitos casos, ficam muito longe do vivenciado no dia a dia e cabe ao jornalismo mediar tal realidade.
Apesar da urgência de tais temas e da necessidade de maior cobertura, o jornalismo tradicional muitas vezes falha em cobrir temas ambientais de forma contínua, restringindo-se a momentos de crises. O resultado é uma cobertura extremamente negativa, amparada em fontes oficiais e que negligencia populações vulneráveis diretamente impactadas por fenômenos ambientais, assim como por políticas públicas e projetos de infraestrutura que as afetam. No entanto, uma pergunta que fica é: o que o jornalismo pode fazer de diferente?
Em nosso último estudo, publicado no periódico Journalism & Mass Communication Quarterly, nós nos debruçamos sobre as práticas de jornalistas ambientais independentes. Entrevistamos dez jornalistas de diversos veículos ambientais, como Amazônia Real, Colabora, oEco, Sumaúma, Tapajós de Fato, Varadouro e Voz da Terra.
Padrões do jornalismo ambiental
Primeiramente, perguntamos a eles como entendem a cobertura ambiental como um todo, quais práticas adotam, como entendem os seus princípios éticos e como entendem o seu papel enquanto jornalistas. No que concerne aos padrões midiáticos, os jornalistas independentes disseram existir uma dominância da dimensão econômica.
“Acho que, acima de tudo, estamos vivendo todo esse contexto de ter a COP aqui em Belém. Isso, de alguma forma, trouxe o debate sobre sustentabilidade para a mídia de massa. No entanto, trata-se de uma agenda de sustentabilidade que dialoga com aqueles que destroem a natureza. Eles vão ouvir, por exemplo, o Instituto X, o Instituto Y, que são empresas gigantes que operam aqui na nossa região, mas que destroem o meio ambiente em vez de promover a necessária justiça social e climática”, disse uma das jornalistas.
Ainda relacionado com a dominância de grupos econômicos na cobertura ambiental está o fato de mesmo a cobertura não ambiental muitas vezes falhar em trazer uma lente “sustentável” para o debate. Em muitos casos, falta discutir quais são as consequências ecológicas de temáticas diversas, mesmo aquelas que à primeira vista não parecem diretamente relacionadas. “Portanto, na minha opinião, falta continuidade e mais qualidade para que esse jornalismo se aproxime desse nível sustentável. Não vejo um problema de qualidade, mas sim de volume. Precisamos de mais e melhor imprensa, que alcance mais pessoas de forma contínua”, disse um dos jornalistas.
Além disso, outro problema identificado foi uma prevalência de atenção a assuntos relacionados ao Sudeste ou outros biomas que não sejam a Amazônia, como salienta o jornalista: “Na verdade, uma série de situações fora do Sudeste passou despercebida pela população como um todo. O problema é que, quando noticiam que o rio Amazonas secou, por exemplo, na região de Itajaí, não há continuidade. As pessoas logo esquecem. E, por exemplo, a região de Itajaí, que foi destruída, as pessoas voltaram todas para lá esperando a próxima catástrofe, sabe?”
Além dos grupos econômicos, também dominam os debates as fontes oficiais, como políticos e ministros. De acordo com a perspectiva deles, existe uma lacuna na inclusão de populações vulneráveis e diretamente afetadas, como povos ribeirinhos e indígenas.
Entre a fala e a prática
Ao refletir sobre a própria prática, os jornalistas independentes sinalizaram ativamente incluir tais populações negligenciadas em suas reportagens, além de tentarem prestar atenção nas narrativas que contam, por se tratar de grupos vulneráveis. “Somos nós que estamos com a câmera; somos nós que estamos falando para o gravador. Portanto, temos poder sobre a história da outra pessoa, e acho que isso é muito importante nesses momentos. Por isso, é preciso ter cuidado com a forma como se lida com a história e como se relaciona com ela”, disse uma das jornalistas.
Em uma segunda parte do estudo, nós verificamos as reportagens publicadas por estes mesmos jornalistas para avaliar a diversidade de fontes e de perspectivas. Nossos resultados mostram que, nos artigos analisados, a fonte que domina o debate são populações indígenas, seguidas de pesquisadores e de instituições públicas. Nesse sentido, fica claro que a prática destes jornalistas, de fato, procura incluir grupos muitas vezes silenciados na cobertura tradicional.
Um outro ponto de atenção, no nosso estudo, foi a relação entre as fontes e os enquadramentos utilizados. Nossos resultados demonstram que matérias incluindo populações indígenas trazem mais as perspectivas dessas populações, assim como adotam um olhar mais sustentável. Reportagens que incluem pesquisadores, por outro lado, têm mais tendência a salientar a perspectiva científica, que muitas vezes também aborda as consequências para essas populações vulneráveis. No caso de reportagens incluindo políticos, fica clara uma tendência a enquadramentos negativos e polarizantes. Nesse sentido, o estudo demonstra em que medida a inclusão de fontes se relaciona diretamente com o enquadramento adotado.
Caminhos possíveis
Nossos resultados mostram que os jornalistas de veículos ambientais independentes buscam, de forma deliberada, cobrir temas, regiões e vozes historicamente negligenciados pela grande mídia. Esse achado evidencia o potencial do jornalismo para recolocar no centro do debate vozes e territórios frequentemente relegados à margem. Ao incluir tais populações, os jornalistas adotam uma representação mais justa daqueles que mais sofrem os impactos da crise ambiental.
As falas dos jornalistas e a análise de suas reportagens demonstra uma congruência em caminhos possíveis. De fato, fica claro que o jornalismo deve procurar cobrir temáticas ambientais de forma contínua, assim como incluir de forma sistemática populações historicamente silenciadas da cobertura tradicional. Muitas vezes, o jornalismo acaba se atendo a fontes oficiais devido ao seu valor-notícia. No entanto, vale lembrar que aqueles diretamente afetados devem sempre ter voz para garantir a pluralidade jornalística.
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Isabella Gonçalves (Ph.D.) é pesquisadora na Universidade Johannes Gutenberg de Mainz, onde seu trabalho é focado em comunicação política e estudos de jornalismo. Atua como editora do Political Communication Report e membro do conselho editorial do periódico Global Perspectives in Communication.
