Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Desinformação de massa

GLOBALIZAÇÃO & COMUNICAÇÃO

Rafael Franco (*)

Com o surgimento de novas tecnologias os meios de comunicação têm crescido em número, mas também a concentração da propriedade destes meios tem aumentado e as notícias se simplificam para o consumo de massas. Resultado: desinformação.

Ignacio Ramonet (editor do Le Monde Diplomatique) desenha com clareza as margens da globalização nos meios de comunicação: "Vários canais de TV são mundiais; um homem?mídia, Rupert Murdoch, chefão da News Corporation, tem empresas de TV, rádio e jornal na Oceania, na Europa, na Ásia e na América."

Enquanto isso, em terras tupiniquins, a PEC 203-B/95 ? proposta que abre a mídia brasileira ao capital estrangeiro ? pode permitir que este "império murdockiano" ancore por aqui. "Os meio de comunicação falam que estão quebrados e precisam de capital externo, mas o Jornal do Brasil contratou Mario Sergio Conti por um milhão de reais, mais salário de 50 mil mensais", lembra Mino Carta, editor da revista CartaCapital.

Ramonet aprofunda a análise deste grande mercado no qual não apenas a informação é uma mercadoria. "As empresas vendem cidadãos aos seus anunciantes." Um exemplo é dado pelo diretor de programação da Rádio Educadora de Campinas, no vídeo Pirata?, produzido pela Rádio Muda. Ele se orgulha do sucesso comercial que alcançou com as grandes gravadoras, e confessa: "As rádios grandes já têm um esquema com as grandes gravadoras ? para o cara aparecer, em Campinas, cada música custa 5 mil reais para tocar 30, 40 dias."

"Se antes se suprimiam pedaços de reportagens, hoje escondem-nas da gente" (Ramonet). A distribuição das concessões dos meios de comunicação está fortemente ligada a esta censura. O cubano Omar Gonzáles dá uma mostra econômica desta censura: na Espanha: 40 filmes nacionais deixaram de entrar em cartaz, no ano passado, pois não havia salas. Nem é preciso dizer que elas estavam ocupadas por produções hollywoodianas, que ocupam em média 95% das salas de cinema pelo mundo.

"Precisamos sanear nossas mentes, o audiovisual é tão importante quanto o saneamento básico," esbraveja Luiz Carlos Barreto. O cineasta lembrou que 780 milhões de dólares saem do Brasil pelas redes de TV a cabo. A importância do tema é confirmada por gente como o ex-embaixador e ex-diretor do Instituto de Pesquisas em Relações Internacionais, Samuel Pinheiro Guimarães: "Discutimos soja e laranja, mas o audiovisual é muito mais importante para a sociedade presente e futura." Temos que arejar a produção, propõe Barreto. "Algumas leis americanas são bons exemplos que podemos seguir: 30% de produção própria é o limite para cada TV, o resto tem que ser produção independente."

Outra face da censura pós-moderna é mostrada por Michel Albert, da ZnetMagazine <www.zmag.org>: a censura agora é algo intrínseco ao jornalista. Um exemplo recente dado pelo americano: a mega-agência de notícias Associated Press produziu reportagem sobre o alerta de organizações humanitárias de que milhões de pessoas morreriam de fome se os Estados Unidos atacassem o Afeganistão. Nenhum jornal americano publicou. "Apesar do elevado número de meios de comunicação, nós, americanos, somos os mais ignorantes do mundo." Albert avalia que os americanos simplesmente não registram a informação de que massacraram o Afeganistão. "Publicamos todas as notícias que merecem ser publicadas", sintetiza o slogan do jornal New York Times.

Ramonet explora ainda outros conceitos, que ajudam na construção do pensamento único ou do consenso da mídia: "ver = entender". Quem viu, soube. Como se quem viu o empurra-empurra de manifestantes no Fórum Social Mundial pela TV Globo soubesse o que realmente aconteceu no Fórum. A fórmula mágica do sucesso: "estar = saber". Quem esteve, entendeu. O repórter falando ao vídeo, direto do Afeganistão, por exemplo, transmite a sensação de que ele entende toda a complexidade da região. Confusão e desinformação também se dão pela repetição das imagens. A repetição da imagem das torres atacadas talvez seja o mais clássico exemplo.

(*) Estudante do 4? ano de Jornalismo da Universidade Metodista de São Bernardo; já exerce a profissão de jornalista há mais de dois anos