Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Escândalo no Planalto Central

CORREIO vs JORNAL DE BRASIÍLIA

Vitor Menezes (*)

Pela natureza do jornalismo, que pressupõe uma virtual independência, os veículos de comunicação costumam se portar como empresas especiais, como se observassem o mercado, sobrevivessem com suas regras, mas mantivessem distanciamento suficiente para não comprometer a integridade de seu produto final, a informação. Assim parece quando se lê um jornal, por exemplo, ou se assiste a uma emissora de TV. Todo o cuidado se toma para que as mazelas internas das empresas jornalísticas não apareçam em suas páginas.

Esta espécie de pacto de não-cobertura das editorias de economia sobre o lado empresa do jornalismo brasileiro está produzindo uma sensação interessante: a de que só falta a mídia para ser vasculhada. Nem mesmo o Ministério Público, alçado à condição de guardião da moralidade e da legalidade, vem sendo perdoado no festival de denúncias e desconfianças que assolam os noticiários. Mas a imprensa continua pouco tocada.

Há uma outra tendência que contribui para que as finanças das empresas de comunicação permaneçam no terreno do desconhecido: a de acreditar que tudo é permitido no mundo privado. A sociedade, já tão escandalizada com os desmandos da esfera pública, acaba por assentir que o que o dono da TV, do rádio ou do jornal faz para tocar seu negócio é um problema dele.

Bom começo

O Brasil ainda não amadureceu para uma cobertura crítica e constante da mídia sobre os seus próprios passos. No que diz respeito à prática do jornalismo, pouquíssimos jornais têm ombudsman ou quaisquer outros instrumentos de diálogo permanente e transparente com os leitores. E no que diz respeito aos negócios, raras são as matérias produzidas com seriedade e equilíbrio sobre os lances empresariais de veículos de comunicação.

Quando isso acontece, vem motivado, quase sempre, por guerra específica entre empresas jornalísticas. O exemplo da vez é a artilharia que os jornais Correio Braziliense e Jornal de Brasília vêm despejando um contra o outro. O primeiro publicou a denúncia de que o Banco de Brasília aprovou em tempo recorde e a despeito de pareceres em contrário um financiamento a empresários pernambucanos que são donos de 50% da publicação concorrente. O Jornal de Brasília respondeu batendo: também os Diários Associados, grupo proprietário do Correio, é alvo de investigação judicial que já provocou o bloqueio dos bens dos 22 integrantes do condomínio acionário.

Não fosse uma guerra local, possivelmente estas informações não viriam a público. E de públicas e relevantes estas informações têm tudo, em função das repercussões sobre o noticiário que a cada dia o cidadão de Brasília lê nestes jornais. É razoável acreditar, por exemplo, que o Banco de Brasília e o próprio governo Joaquim Roriz podem receber um tratamento diferenciado do Jornal de Brasília. Assim como se pode desconfiar que a cadeia formada pelos Diários Associados pode utilizar seu poder como veículo para trocar favores noticiosos por uma solução para as suas pendências judiciais.

Mas não deixa de ser um bom começo o fato de que, pelo menos quando os ânimos se acirram, as verdades vêm à tona. Assim começou com os políticos e com a Justiça. Um dia chega a hora da imprensa.

(*) Jornalista, mestrando em Sociologia pelo Iuperj