
(Foto: Anthony 🙂/Pexels)
A década de 1990 começou com forte crise econômica, no rastro da hiperinflação do final dos anos 1980 e do tratamento de choque promovido pelo Plano Collor, que misturava ingredientes como bloqueio de ativos (confisco da poupança) e redução dos gastos públicos. Uma das consequências dessa política econômica foi a queda nas verbas de publicidade.
Por essa época, estavam em processo de instalação centenas de emissoras de rádio e televisão pelo Brasil, cujas concessões haviam sido liberadas durante o governo de José Sarney.
Investimentos realizados pela então estatal Empresa Brasileira de Telecomunicações S/A (Embratel) haviam ampliado a capacidade de transmissão do BrasilSat, o satélite de comunicação brasileiro, permitindo que os sinais de novas redes de televisão e de rádio pudessem ser levados para todo o território nacional.
Essa conjuntura vai moldar o perfil do dial FM em João Pessoa.
O primeiro grande fenômeno da década foi a programação superpopular da 98,5 MHz, a “98-A FM do Povo”, liderada pelo comunicador Tony Show, que havia estreado no FM na antiga Antena 4 (93,7 MHz).
A 98 FM foi a primeira emissora da capital paraibana a operar 24 horas por dia, com um estilo que se assemelhava às tradicionais rádios de ondas médias. Nomes consagrados da Correio AM (1.230 KHz), como Luiz Otávio, que comandava o campeão de audiência Correio Debate, e Anacleto Reinaldo, o “chumbo grosso”, se integraram a jovens talentos, como César Campelo, Norman Lopes, Ivanildo Viana e John Anderson.
A crise econômica, a facilidade técnica proporcionada pela transmissão via satélite e a possibilidade de baratear os custos de operação de pequenas emissoras locais estimularam o surgimento e a expansão das redes de rádio. Em pouco tempo, essas redes, sediadas no Rio de Janeiro ou em São Paulo, ostentavam dezenas de afiliadas pelo país.
A Rede Cidade foi a primeira a se apresentar aos ouvintes pessoenses. Inicialmente intercalando programação local com os poucos programas especialmente produzidos para transmissão em rede, como o Invasão da Cidade, a Rádio Cidade de João Pessoa (101,7 MHz) passou a substituir programação local por programas gerados no Rio de Janeiro, principalmente à noite, de madrugada e nos finais de semana, até trocar a Rede Cidade, em 1994, pela recém-criada Jovem Pan Sat, suprimindo por algum tempo a programação local.
Uma novata, na vizinha cidade de Santa Rita, operando inicialmente em 100,9 MHz (Rádio Santa Rita Ltda.) com uma programação no estilo pop/jovem vai ampliar o leque de opções da audiência.
A emissora, já na frequência 100.5 MHz, ganhará forte impulso ao se afiliar à popular Líder FM de São Paulo. Com poucos horários locais, os destaques da programação eram os programas de rede: Manhã Líder de Sucessos, Fatos e Boatos, Sambalance e Love Times. Os comunicadores mais populares eram os nacionais Fernando Gasparetto, Sônia Abrão, Edi Barbosa, Rose Marques e Sérgio Bocca, e o “prata da casa” Marcelo Moura.
Essa fase, que durou poucos anos, foi tão marcante que, ainda hoje, a 100.5 FM é chamada pelos ouvintes de Líder FM.
No rastro do sucesso local da Jovem Pan, a então FM Sucesso (93,7 MHz), antiga Antena 4, cederá espaço, em 1995, para a implantação da Transamérica FM, parceria que se manteria por uma década, até a emissora local substituir a tradicional rede paulista pela Mix FM, união que comemora em 2025 “bodas de porcelana”.
Outra novata que ajudou a moldar o dial pessoense foi a Rádio Liberdade FM de Santa Rita (99,7 MHz). A emissora revelou importantes nomes do rádio na década de 1990: Duda Santos, Susi Cardoso, Jorge Caldas, Luiz Vieira, Márcio Gomes, Marco Moura, entre outros, que terão passagens em importantes emissoras da capital paraibana. Com uma programação ainda mais popular que a 98 FM, na primeira fase da Liberdade FM um polêmico programa misturava humor, participação dos ouvintes e músicas rotuladas de brega: A Hora da Cangaia.
Em meados da década de 1990, o controle da emissora foi assumido por bispos da Igreja Universal, que transformaram a frequência 99,7 MHz na primeira rádio gospel da Paraíba, afiliada à Rede Aleluia.
Uma antiga concessão finalmente entrou no ar em definitivo em 1996: Cidade Verde AM (Rádio Aliança Ltda.), afiliada à Rede Jovem Pan AM. Experiência que durou pouco tempo. Nos anos seguintes, a rádio se transformou em emissora religiosa, primeiro evangélica, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, em seguida católica, vinculada à comunidade Consolação Misericordiosa. Apenas em 2012, após curto período retransmitindo a Cabo Branco FM, os 920 KHz abrigaram a CBN. Primeira emissora da capital paraibana a migrar para FM (97,7 MHz), em 2022, atualmente a João Pessoa FM é uma rádio musical de perfil adulto eclético. A Cidade Verde, na fase Jovem Pan, revelou os competentes Cláudia Carvalho e Tarcísio Lopes.
Em ondas médias, os tradicionais 1.230 KHz passaram a irradiar, em 1996, a CBN Correio, a rádio que toca notícia, deslocando a programação da Correio AM para os 1.340 KHz, pondo fim à histórica Arapuan AM. Com o fim da afiliação com a CBN, que passaria a ser administrada pela Rede Paraíba de Comunicação, o Sistema Correio ocupou a frequência 1.230 KHz com a Rede Jovem Pan AM, em 2012. Fora do ar desde 2020, a 1.340 KHz e a 1.230 KHz migraram para FM, assumindo, respectivamente, as frequências 107,1 MHz e 104,9 MHz. A primeira, Céu FM, de perfil evangélico, no ar desde 2024, e a segunda com programação adulto-contemporâneo.
Na última década do século XX surgiram a FM O Norte (103,3 MHz), dos Diários Associados, em João Pessoa, em 1990; a primeira Tambaú FM (Sistema Tambaú de Comunicação Ltda.), na frequência 92,9 MHz, em Santa Rita, em 1992; e a Cabo Branco FM (Rádio Areia Dourada Ltda.), em 91,5 MHz, com concessão para o município de Cabedelo, em 1993. Todas essas emissoras adotaram programação adulto-contemporâneo. Apenas a Cabo Branco FM mantém o estilo até hoje.
A FM O Norte revelou, nos anos 1990, importantes nomes do rádio pessoense, entre eles Elizabeth Dias, na primeira fase (1990-1994); Carla Visani e George Medeiros, na fase pop jovem (1994-1995); e o tremendão Marcos Brito, anfitrião da Festa de Arromba, na fase Brasileiríssima (1995-1997). A então emissora associada foi a primeira FM da capital paraibana a dar espaço para transmissões esportivas, com a equipe liderada por Pessoa Jr., Ivan Nunes e Werton Soares.
A 103,3 MHz trocou de estilo várias vezes até se afiliar, em 1998, à rede Somzoom Sat. O auge da parceria, que durou alguns poucos anos, foi o Só Forró, comandado no final da tarde pelo irreverente Mução, que misturava participação de ouvintes com brincadeiras de duplo sentido e as famosas pegadinhas telefônicas. Outro ponto alto da programação da Somzoom Sat era o noturno Sintonia Brasil, apresentado por Wanda Maia.
Com o fim da afiliação, a FM O Norte manteve o estilo popular até assumir a identidade Clube FM, em 2007, quando os Diários Associados resolveram padronizar as emissoras do grupo. Nove anos depois, já sob controle do Sistema Opinião, a emissora foi rebatizada de Manaíra FM e se tornou afiliada à rede Bandnews FM, parceria que durou de 2007 a 2023. Agora, em 2025, ao ser adquirida pelo Grupo Norte, a 103,3 MHz passou a se identificar como Norte FM, trocou o estilo adulto-contemporâneo pelo popular, e assumiu nova identidade em outubro com o lançamento da rede Liga FM.
A antiga Tambaú FM (92,9 MHz), ainda nos anos 1990, abandonou o adulto-contemporâneo e adotou um estilo adulto popular semelhante a 98 FM, inclusive contratando alguns profissionais da concorrente, como César Campelo e Anacleto Reinaldo. Ao longo dos anos, a emissora, que passou a ser controlada pelo Sistema Arapuan e foi rebatizada de Sucesso FM (92,9 MHz), ajustou o perfil da programação popular para um público mais jovem. Desde então, costuma figurar entre as emissoras mais ouvidas.
A Nova Tambaú FM 102,5 MHz (Rádio Sol Maior Ltda.), com concessão para o município de Bayeux e controlada pelo mesmo grupo da TV Tambaú, só entrou no ar em 2007. Depois de abrigar a Jovem Pan FM, entre 2017 e 2024, atualmente é afiliada à Rede Clube. Mas, devido à aquisição da emissora paraibana pelo Grupo Thathi, há uma expectativa de que a rede NovaBrasil FM ocupe a frequência 102,5 MHz.
A antiga Universitária FM (107,7 MHz), com graves problemas financeiros, se manteve precariamente no ar no início dos anos 1990 retransmitindo o sinal da Rádio Nacional no BrasilSat, que mesclava programas da Nacional FM e da Nacional AM de Brasília. Após permanecer fora do ar por longo período, a gestão da Fundação Virgínius da Gama e Melo, responsável pela concessão da emissora, foi assumida pelo empresário João Pereira de Moura Neto (João Gregório), do Sistema Arapuan, que reativou a frequência. Nos últimos anos, vários projetos foram adotados, a maioria religiosos. Atualmente, a 107,7 MHz é afiliada à rede Deus é Amor.
Em 1999 foi inaugurada a Tabajara FM (105,5 MHz), com estilo adulto-contemporâneo e forte presença de “artistas da terra” na programação. Com o fim da Tabajara AM (1.110 KHz), incorporou alguns programas da pioneira. Ao migrar para FM (103,9 MHz), em 2023, a antiga Tabajara AM assumiu nova identidade (Parahyba FM) e uma programação contemporânea com a proposta de ser “a rádio do século XXI”.
Mesmo com a forte presença das principais redes de rádio do país, o baixo custo de produzir programação local e o fim da padronização do gosto musical que havia caracterizado a indústria da música no Brasil nas décadas anteriores permitiram que, nos anos 1990, as emissoras independentes se consolidassem entre a audiência e também que as afiliadas aproveitassem as “janelas” permitidas pelas redes para inserir programação local adaptada ao perfil do ouvinte pessoense.
Como é natural em qualquer segmento, novos profissionais se somaram aos já consagrados, alguns com passagens efêmeras, outros inscrevendo seus nomes na memória dos ouvintes pessoenses: Filipe Donner, com passagens marcantes na FM O Norte, na Cidade Verde AM e na Cabo Branco FM; Eduardo Carvalho, revelação da antiga Tambaú FM, radicado em Boa Vista, que se tornou líder de audiência na capital de Roraima; Edil Francis, Kako Marques, Bertrand (Beto) Chaves e Berlim Carvalho, na Arapuan; Serginho Lima e DJ Raidy, na antiga Tambaú; Ricardo Teles e Eugênia Bridge, na Cabo Branco FM; Walter Versalles, na 98 FM; Alysson André e Aníbal Jr., na FM O Norte; Naison Jr., Ernani César, Frank Sinatra, Gersau Freire, entre outros.
Já consagrados em Campina Grande, nos anos 1990 desembarcaram em João Pessoa Lêdo Ivo e DJ Jorgino, na Arapuan FM; e Ronny Vasconcellos e o rádio repórter Germano Ramalho, na FM O Norte.
Do AM para FM, Antonio Malvino, Odonildo Dantas, Wellington Alves, Werton Soares, Marcelo José, entre outros.
Nos últimos anos, o rádio pessoense passou por importante evolução técnica, que culminou com a adoção de softwares de automação operacional, mas o perfil de programação das emissoras foi moldado três décadas atrás. Essa característica não difere de outras praças importantes do país, o que sugere que o veículo está à espera de uma revolução. Que tipo de conteúdo essa nova geração produzirá para ser captado a longas distâncias? O que as pessoas gostariam de ouvir em dispositivos móveis que lhe fazem companhia, são alimentados por pequenas baterias, não necessitam de conexão com a internet e não exigem atenção exclusiva?
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Alysson André Oliveira Cabral é Professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Nos anos 1990, atuou nos Diários Associados da Paraíba. Publicou no Observatório da Imprensa os artigos “Um ano sem O Norte e Diário da Borborema” (edição nº 730), “A Televisão de Última Geração” (edição nº 780), “O Sucesso da Cidade” (edição nº 785), “Veblen e os rolezinhos” (edição nº 787) e “FM é rádio de jovem: as transformações do FM em João Pessoa nos anos 1980” (edição nº 1.335).
