
(Foto:Tânia Rêgo/Agência Brasil)
Os jornalistas precisam explicar com melhores e maiores detalhes o que poderá mudar na carreira política do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), 46 anos, o fato dele ter sido o gestor da megaoperação Contenção, a maior e mais letal já feita pelas polícias Civil e Militar contra a facção criminosa Comando Vermelho (CV), realizada na terça-feira, 28 de outubro. Vamos conversar sobre o assunto. Mas antes, em obediência ao manual do bom jornalismo, vamos contextualizar o assunto. A ação envolveu 2,5 mil policiais para cumprir 180 mandados de busca e apreensão e 100 de prisão. Foram usados veículos blindados, apelidados de Caveirão, helicópteros, fuzis, pistolas e outras armas nos complexos do Alemão e da Penha, onde vivem 26 comunidades, somando 280 mil pessoas. Os policiais foram recebidos sob intenso tiroteio por traficantes do CV, que os esperavam entrincheirados em barreiras erguidas nas ruas, e por bombas jogadas por drones. No dia seguinte ao confronto foram contabilizados 121 mortos, sendo quatro policiais: dois civis e dois do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), aquele do filme Tropa de Elite. Dos 121 mortos, 63 foram resgatados durante a madrugada da quarta-feira por familiares e amigos dos traficantes na Serra da Misericórdia, uma mata existente entre o Alemão e a Penha. Os corpos foram levados para a Praça São Lucas e colocados no chão, um ao lado do outro. As fotos dos cadáveres enfileirados circularam o mundo.
Por muitas semanas, esta história continuará ocupando os espaços nobres dos jornais e outros meios de comunicação, que estão fazendo uma cobertura online ilustrada com muitas imagens da ação policial. Pesquisa do Datafolha sobre os acontecimentos mostrou que 57% dos moradores do Rio concordam total ou parcialmente com a afirmação de Castro de que a operação foi um sucesso. Sendo que 27% discordaram totalmente da avaliação do governador e 12% discordaram em parte – 3% não concordaram nem discordaram e 2% disseram que não sabiam. Vamos focar a nossa conversa na figura do governador dentro do atual contexto da disputa política no Brasil, que vive o clima das eleições de 2026, numa disputa polarizada entre o atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, e o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos. Há uma particularidade nesta polarização que precisa ser lembrada. O ex-presidente deverá indicar o principal adversário que concorrerá contra Lula, já que foi tornando inelegível até 2030 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e aguarda, em prisão domiciliar, transitar em julgado a pena de 27 anos de cadeia a que foi condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) por cinco crimes, entre eles o de ser chefe de uma organização criminosa que tentou dar um golpe de estado. Por enquanto, quatro candidatos pleiteiam a indicação de Bolsonaro. São eles: os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos), 50 anos, de São Paulo; Ratinho Júnior (PSD), 44 anos, do Paraná; Ronaldo Caiado (União Brasil), 76 anos, de Goiás; e Romeu Zema (Novo), 61 anos, de Minas Gerais.
Por que o nome de Castro não está nesta lista? Lembro que, além do Rio de Janeiro ser considerado o cartão-postal do Brasil ao redor do mundo, o governador é do partido do ex-presidente. Conversei com colegas repórteres do Rio sobre o assunto. Fui lembrado por eles que, entre os bolsonaristas, o governador é considerado do baixo clero, um político de pouca relevância. A opinião tem muito a ver com a origem política de Castro. Em 2016, ele foi eleito vereador e, em 2018, escolhido para ser vice na chapa a governador do ex-juiz federal Wilson Witzel, que na ocasião era considerado “azarão” na corrida eleitoral. Faz parte do folclore da imprensa que, ao ser perguntado sobre o motivo pelo qual tinha sido escolhido para ser vice, Castro teria respondido: “Porque não havia outro”. Durante a campanha de 2018, Witzel, que ficou conhecido como “tiro na cabecinha”, por ter defendido a eliminação de bandidos por atiradores de elite, se aliou a Flávio Bolsonaro, um dos filhos do ex-presidente, que concorria a senador. Bolsonaro venceu a eleição para presidente da República. E seu prestígio político elegeu Flávio como o senador mais votado do Rio e Witzel, governador. No final do primeiro ano de mandato, em 2019, Bolsonaro e Witzel brigaram. O então presidente acusou o governador de ter vazado para a imprensa material que sugeria o seu envolvimento no assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (1979 – 2018), do PSOL. Ela foi executada por um pistoleiro na noite de 14 de março de 2018 – a história toda está na internet. A briga acabou desestabilizando o governo de Witzel, que sofreu impeachment em 30 de abril de 2021. Logo em seguida, Castro assumiu o governo do Rio. Há uma fartura de fotos de Bolsonaro e Castro abraçados durante manifestações. Mas é o seguinte. Nós repórteres aprendemos durante os quatro anos de mandato do ex-presidente que ele é uma pessoa muito desconfiada. Castro era vice de Witzel. Ele não sabia nada sobre a história do vazamento do caso Marielle envolvendo Bolsonaro? Aliás, o Witzel pretende concorrer a senador ou a deputado federal em 2026. A fama de Castro trazida pela Operação Contenção o coloca na lista dos que disputam o apoio de Bolsonaro para concorrer a presidente?
Vamos saber com o andar dos acontecimentos. O que podemos afirmar é que o atual momento político enfrentado pelos bolsonaristas, especialmente a ala da extrema direita, que é a coluna dorsal do movimento, é muito difícil. Vejamos. No ano passado, o governo Lula enfrentava sérios problemas na opinião pública. As pesquisas mostravam que era maior a porcentagem dos que desaprovavam a administração do que os que aprovavam. Então, em 20 de janeiro, o republicano Donald Trump, 79 anos, assumiu a presidência dos Estados Unidos e inaugurou a prática de impor tarifas sobre os produtos exportados para o mercado consumir americano. Um dos filhos de Bolsonaro, o deputado federal por São Paulo Eduardo, 40 anos, mudou-se para os Estados Unidos e conseguiu convencer Trump a colocar como condição para negociar o tarifaço com o Brasil a anistia ampla, geral e irrestrita de seu pai e seus seguidores que se envolveram na tentativa de golpe de estado. Como se diz, o “feitiço virou contra o feiticeiro”. O Brasil foi punido com uma tarifa de 50%, uma das mais altas aplicadas pelo governo americano, e a participação de Eduardo na história do tarifaço foi uma bola picando na área sem goleiro que Lula soube aproveitar. O presidente recuperou o apoio na opinião pública. E foi uma bola nas costas dos bolsonaristas, que se dividiram. Os resultados da Operação Contenção voltaram a unir os bolsonaristas. Não foi por outro motivo que governadores da direita e extrema direita foram ao Rio demonstrar apoio a Castro e criaram o Consórcio da Paz, que servirá para trocar informações e material sobre o crime organizado. O governo federal também foi ao Rio e montou, em parceria com o estado, um escritório emergencial para lidar com a “crise do crime organizado”. A única ambição do governador Castro é se eleger senador. Aqui é o seguinte. Cresce o volume de apostas de que os acontecimentos do Rio forçarão Bolsonaro a decidir de uma vez por todas quem irá substituí-lo nas eleições de 2026. Muita gente duvida disso, por dois motivos. O primeiro é que o ex-presidente sabe que, assim que tomar essa decisão, ele é carta fora do baralho e cairá no esquecimento. O segundo motivo é que nenhum dos governadores que disputam a herança política do ex-presidente tem condições de concorrer com Lula sem o apoio de Bolsonaro. Na busca pela reeleição também estarão os parlamentares e governadores que foram eleitos em 2022 no rastro do prestígio político do ex-presidente. Aprendi em 40 anos percorrendo os sertões em busca de histórias para contar que o fator sorte é importante na política. Castro teve sorte em 2018. Ele jamais pensou que seria eleito vice-governador e muitos menos que acabaria na cadeira do governador. Por enquanto, está deixando a correnteza levá-lo. Quem sabe o que o espera na curva do rio?
Publicado originalmente em Histórias Mal Contadas.
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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.
