
(Foto: Anna Shvets: Pexels)
A opositora venezuelana María Corina Machado recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 2025, em reconhecimento ao seu compromisso com a democracia, apesar da repressão de que é vítima em seu país. Enquanto seus partidários celebram essa vitória simbólica, seu vínculo com os Estados Unidos e seu posicionamento político alimentam as tensões internacionais. Entre a esperança pela democracia e os riscos de escalada, Jean-Jacques Kourliandsky, diretor do Observatório da América Latina e do Caribe da Fundação, evidencia a ambiguidade de um prêmio que oscila entre o reconhecimento moral e os desafios geopolíticos.
Esperava-se Donald Trump, mas foi María Corina Machado quem o júri do Prêmio Nobel da Paz escolheu, em 10 de outubro de 2025, como porta-estandarte internacional da paz. Vivendo na clandestinidade, em algum lugar da Venezuela, seus amigos foram os primeiros a agradecer aos jurados. José Antonio Vega, dirigente do partido de María Corina Machado, “Vente Venezuela” [“Vem, Venezuela”], expressou seus “sentimentos indescritíveis” e a “reconhecimento da luta de um povo”. Pouco depois, o próprio movimento MCM saudou “o povo da Venezuela que sofre” e agradeceu ao presidente Donald Trump por seu apoio decisivo. O prêmio consagra uma figura política silenciada e perseguida pelas autoridades de seu país. No entanto, longe de contribuir para a paz, ele acrescenta um elemento de crise à própria crise. O júri, consciente da ambiguidade dessa escolha, acompanhou a decisão com uma justificativa rebuscada e complexa: “María Corina Machado demonstrou que os componentes da democracia são também os componentes da paz” [1]. Essa ambivalência, sem dúvida, explica a diversidade das reações internacionais que se seguiram.
Líderes latino-americanos e europeus felicitaram a laureada, ainda que com graus variados de convicção. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, saudou a escolha como uma “mensagem poderosa em favor da democracia”. “Querida María”, acrescentou, “a luta continua”. Em sua conta na rede X (antigo Twitter), o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe (extrema direita) não escondeu o entusiasmo: “Viva María Corina, viva a democracia, viva a Venezuela”, concluindo com um patriótico “Viva a Colômbia”. Seu sucessor, o atual presidente Gustavo Petro (esquerda), redigiu uma mensagem de tom ambíguo e equilibrado: “Parabenizo Wangari Maathai (Prêmio Nobel da Paz de 2004) e María Corina Machado por seus prêmios Nobel. Wangari lutou pelo planeta contra as mudanças climáticas. De María Corina, espero que ajude seu país a avançar rumo a um diálogo de paz duradouro.”
A reação da Casa Branca causou surpresa. Longe de felicitar uma aliada política, o comunicado oficial expressou uma forte reserva: “O presidente [Trump] continuará firmando acordos de paz, encerrando guerras e salvando vidas. Ele tem um coração humanitário, e ninguém como ele é capaz de mover montanhas pela força de sua vontade. O Comitê Nobel colocou a política acima da paz”.
O tom da presidência norte-americana surpreendeu, tendo em vista os laços de amizade que María Corina Machado havia manifestado em relação a Donald Trump e à sua política para a Venezuela. Em 25 de agosto último, respondendo a perguntas da emissora Fox News, María Corina Machado havia elogiado as pressões militares e outras medidas exercidas pelos Estados Unidos contra o regime venezuelano. Ela esclareceu que não se tratava de ações destinadas a “mudar” o governo, pois os venezuelanos já haviam expressado claramente sua escolha nas eleições presidenciais de 28 de julho de 2024, mas sim de apoiar Washington em sua ofensiva contra uma organização criminosa – “o regime de Maduro”. Segundo ela, esse regime representava “uma ameaça direta aos Estados Unidos”.
O secretário de Estado Marco Rubio e um grupo de congressistas republicanos vinham, há vários meses, apoiando a candidatura de María Corina Machado junto ao Comitê Nobel. No entanto, subestimaram o apetite político de Donald Trump, que deseja, em todas as situações, “ter a manteiga e o dinheiro da manteiga” – ou seja, todos os ganhos possíveis. Após o anúncio, a premiada entrou em contato com Donald Trump para reafirmar a convergência de seus interesses políticos e estratégicos.
A suspensão das regras democráticas na Venezuela é, sem dúvida, incontestável. Conceder um prêmio de direitos humanos a María Corina Machado é, portanto, justificável. Nos últimos meses, a líder opositora recebeu diversos prêmios internacionais, refletindo a preocupação global com a situação venezuelana [2], sobretudo porque ela havia sido impedida de concorrer às eleições presidenciais de 28 de julho de 2024. A apuração dos votos permaneceu discricionária, e o resultado oficial segue desconhecido. O poder eleitoral venezuelano não publicou – como era sua obrigação legal – as atas detalhadas dos resultados, mesa por mesa, o que impediu a comparação com os registros compilados pela oposição, que apontavam uma vitória clara de seu candidato, Edmundo González. Essa violação evidente da ordem eleitoral democrática, somada à exclusão de María Corina Machado e de outras figuras da oposição, foi amplamente criticada e condenada por governos de diferentes matizes políticos, tanto na América Latina quanto na Europa, de direita e de esquerda.
Essa violação das normas jurídicas e democráticas na Venezuela justificaria, contudo, um cheque em branco concedido pelo Comitê Nobel às sanções unilaterais dos Estados Unidos e, mais recentemente, aos ataques letais que, sem mandato internacional, atingiram embarcações venezuelanas, resultando na morte de 27 pessoas? [3] Donald Trump anunciou possíveis iniciativas militares terrestres, o que causou profunda comoção na Venezuela, no Caribe e, de modo geral, em toda a América Latina. O respeito à soberania nacional é um princípio inscrito na Carta das Nações Unidas e sua eventual violação exige a aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Por razões históricas e políticas evidentes, esse princípio é tradicionalmente defendido pelos Estados menores, que ao longo do tempo foram vítimas de agressões e interferências externas das grandes potências. Os países latino-americanos, em particular, mantêm uma forte ligação simbólica e política com esse princípio – o México, por exemplo, dedicou um de seus museus à memória das intervenções estrangeiras, especialmente as norte-americanas e francesas. A possibilidade de acionar o Tribunal Penal Internacional (TPI) chegou a ser mencionada com o objetivo de processar o presidente venezuelano e, de maneira simbólica, a própria Corte Penal Internacional foi cogitada como candidata ao Prêmio Nobel da Paz [4]. Na crise venezuelana, dois princípios fundamentais do direito internacional encontram-se em tensão contraditória: o respeito à democracia e o respeito à soberania nacional.
Mas as reservas de Donald Trump têm realmente algo a ver com os grandes princípios do direito internacional? Suas reticências diante da atribuição de um prêmio supostamente voltado à paz, mas que poderia legitimar uma estratégia belicista, revelaram menos prudência e mais uma ausência total de escrúpulos. As pressões exercidas sobre a Venezuela – ainda que sem chegar ao limite dos meios de que dispõe – decorrem de outras motivações. A força dos Estados Unidos, em suas dimensões diplomática, financeira e militar, foi instrumentalizada em benefício de interesses concretos: a libertação de cidadãos norte-americanos, a aceitação por Caracas de voos de repatriação de seus nacionais expulsos, e a autorização exclusiva de exploração petrolífera concedida à empresa Chevron, dos Estados Unidos. Nesse contexto, atribuir o Prêmio Nobel da Paz a uma figura central da oposição venezuelana tende a desequilibrar a balança das pressões internacionais, reforçando a opção maximalista ou mesmo militar, e com isso colocando em risco o controle político de Donald Trump sobre o processo.
Um exemplo ilustrativo é o da empresa Repsol, que negociava simultaneamente com Trump a retomada de suas atividades no território venezuelano em troca de investimentos significativos no setor de gás dos Estados Unidos, acompanhados de uma concessão simbólica – a empresa passou a designar, em seus documentos internos, o “Golfo do México” como “Golfo da América”, em conformidade com o desejo do presidente norte-americano [5]. Vale mencionar a resposta lacônica dada por María Corina Machado a um jornalista do diário espanhol El País, sobre uma conversa telefônica mantida com Donald Trump logo após o anúncio do Prêmio Nobel da Paz: “Foi uma conversa privada, e prefiro não entrar em detalhes”, comentou [6]. Paradoxalmente, as correntes ideológicas mais extremas foram reforçadas pelo Comitê Nobel, que, no mínimo, negou a diversidade da oposição venezuelana ao qualificar María Corina Machado (MCM) como uma “figura-chave e unificadora da oposição”, o que não corresponde à realidade.
Na Venezuela, existe uma oposição mais democrática e ideologicamente distante da extrema direita, que convive com dificuldade com MCM. Essa escolha torna mais complexa a busca por uma solução pacífica. A extrema direita, espaço político de María Corina Machado, sai fortalecida com essa decisão – um campo no qual a candidata é parte integrante da chamada “iberosfera”, conceito criado pelo partido espanhol de extrema direita Vox. María Corina Machado é signatária da “Carta de Madri”, documento fundador dessa rede transnacional, ao lado de Santiago Abascal (Espanha), José Antonio Kast (Chile), Marion Maréchal (França), Giorgia Meloni (Itália), Javier Milei (Argentina), Eduardo Bolsonaro (Brasil), Victoria Villarruel (Argentina) e Charlie Weimers (Suécia). Ela adotou integralmente os princípios expressos nesse manifesto, consolidando-se como parte de uma aliança política global da direita radical ibero-europeia.
Em 10 de outubro de 2025, após o anúncio do Prêmio Nobel da Paz, o comunicado de María Corina Machado (MCM) refletiu uma tendência claramente belicista: “Estamos às portas da vitória […] mais do que nunca, contamos com o presidente Trump”. Na Venezuela, parte da oposição vinculada a Henrique Capriles – candidato opositor contra Hugo Chávez (2012) e Nicolás Maduro (2013), impedido de concorrer desde 2017 por um período de quinze anos – recusa-se a apoiar as ingerências de Washington, como faz MCM, ainda que condene as práticas antidemocráticas do regime. Em entrevista à BBC, Capriles declarou: “A maioria daqueles que apoiam uma invasão dos Estados Unidos à Venezuela não vive no país. […] Eu acredito nos processos. A política é a arte da negociação. […] O fato de Maduro ter fraudado as eleições não significa que não haja mais espaço para uma solução política.” [7]
Ainda assim, em 10 de outubro, Capriles foi obrigado a juntar-se às felicitações públicas pela premiação, mas reafirmou a importância da soberania nacional e a necessidade de buscar uma saída democrática e não violenta. Enquanto isso, o regime chavista encerrou-se sobre si mesmo, convocando a população ao patriotismo para defender o território nacional – um discurso que obteve relativo sucesso. Por sua parte, muitos chefes de Estado latino-americanos, submetidos à constante pressão da Casa Branca, optaram pelo silêncio. Um exemplo emblemático é o da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, que, questionada por um jornalista durante sua coletiva matinal, recusou-se a comentar a decisão do Comitê Nobel.
Até o momento, seis latino-americanos haviam sido laureados com o Prêmio Nobel da Paz: o diplomata argentino Carlos Saavedra Lamas, mediador do conflito do Chaco entre Bolívia e Paraguai, e autor de um plano de paz universal (1936); o artista argentino Adolfo Pérez Esquivel, responsável pela organização Paz e Justiça durante a ditadura militar em seu país (1980); o diplomata mexicano Alfonso García Robles, criador do Tratado de Tlatelolco, que estabeleceu a desnuclearização da América Latina (1982); o presidente da Costa Rica, Óscar Arias Sánchez, artífice do processo de paz na América Central (1987); a guatemalteca Rigoberta Menchú, ativista pelos direitos dos povos indígenas (1992); e o presidente colombiano Juan Manuel Santos, responsável pelo acordo de paz que pôs fim ao conflito armado com as FARC (2016).
Texto publicado originalmente em francês, em 16 de outubro de 2025 no site Fondation Jean Jaurès, Paris/França, com o título original: “PRIX NOBEL DE LA PAIX À MARIA CORINA MACHADO : UN COUP DE POUCE DÉMOCRATIQUE MÉRITÉ MAIS PÉRILLEUX”. Disponível em: https://www.jean-jaures.org/publication/prix-nobel-de-la-paix-a-maria-corina-machado-un-coup-de-pouce-democratique-merite-mais-perilleux/. Tradução de Paul Fernand da Cunha Leite e revisão de Andrei Cezar da Silva.
Notas
[1] Sebastián Bruno Martinez, “María Corina Machado ganó el premio Nobel de la Paz 2025”, Infobae, 10 de outubro de 2025.
[2] Freedom House, Prêmio Liberdade 2025; Renew Democracy Initiative, Prêmio Heróis da Democracia 2025; Prefeitura de Madri, Prêmio Clara Campoamor 2025; Prêmio Courage 2025, concedido em Genebra; Prêmio Václav Havel de Direitos Humanos 2024; Prêmio Bruno Leoni 2024. Ver: El Nacional, Caracas, 10 de outubro de 2025.
[3] “Novo ataque norte-americano ao largo da Venezuela mata seis ‘narcotraficantes’, anuncia Trump”, France 24, 14 de outubro de 2025.
[4] Grégoire Sauvage, “Nobel da Paz: dez concorrentes que poderiam tirar de Trump o prêmio que ele tanto cobiça”, France 24, 9 de outubro de 2025.
[5] Paula María, “A Repsol faz um aceno a Trump em plena negociação sobre a Venezuela: muda o nome do seu negócio no Golfo do México para ‘Golfo da América’”, El Mundo, 6 de outubro de 2025.
[6] Javier Lorca e Ignacio Fariza, “Trump: ‘Machado me ligou e disse: estou aceitando o prêmio em sua homenagem’”, El País, 11 de outubro de 2025.
[7] “Henrique Capriles: ‘A maioria das pessoas que querem uma invasão dos Estados Unidos não vive na Venezuela’”, BBC News Mundo, 28 de agosto de 2025.
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Jean-Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
